quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Infográfico do escritor brasileiro


Por qeu escrever (ou: o escritor brasileiro, esse chato)


O escritor brasileiro é homem e branco. Ele tem diploma universitário, mora no eixo Rio-São Paulo, tem 50 anos. O protagonista de seu romance é homem, branco, com diploma universitário, mora em metrópole etc. etc. Dos nossos autores, 36% trabalham como jornalistas. As profissões mais comuns dos protagonistas da literatura brasileira são, pela ordem, escritor, criminoso, artista, estudante e jornalista. As histórias se passam nas últimas três décadas.
Ou seja: o assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho, sua juventude e atual meia-idade, reimaginadas dramaticamente. É o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB. Analisou 258 romances de 165 escritores diferentes, dos últimos 15 anos, de editoras variadas. É mostra significativa. Rendeu um infográfico impactante.
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Regina conclui que não há no campo literário brasileiro uma pluralidade de perspectivas sociais - nossos livros não incluem gente de várias cores, classes, religiões, idades. Bidu. É e sempre foi assim. A ausência mais escancarada em nossa literatura, personagens negros, tem razão bem concreta: não há negros nas redações, na academia, nas posições de comando do País.
Nossos livros não são mais discriminatórios do que nossa sociedade não ficcional. Em 56% dos romances, todos os personagens são brancos. A pesquisa crava: 36% dos escritores são jornalistas. Bem, tirando jornalista, poucos brasileiros têm português legível. Encaixar uma frase na outra, respeitar concordâncias, economizar nas vírgulas e tal. E Dashiell Hammett recomendou: escreva sobre o que você conhece. Donde que temos jornalistas escrevendo sobre jornalistas. Um bando de rato de redação se imaginando como herói: uma vez na vida, a notícia sou eu!
Bem, eu sou exatamente o perfil do romancista brasileiro, quase cinquenta, branco etc., e obviamente não quero ler sobre mim, nem em versão romantizada, e muito menos realista. Nem todo autor brazuca é jornalista, mas o fato é que os temas e abordagens se repetem. A pesquisa explica a desconexão de muitos, e a minha, com a literatura brasileira atual. Me recomendam este e aquele autor nacional. Compro, leio quinze páginas e despacho pro sebo, com exceções muito pontuais.
A pesquisa explica o meu, o nosso problema. Não é com o País de origem dos autores. É com o universo ficcional e existencial dos autores e personagens. Não queremos saber dos problemas de jornalistas e escritores profissionais, dos senhores letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades. Simplesmente não é tão interessante assim. E pior ainda quando vira policial noir de butique, com direito a um assassino, uma garota de programa e um milionário assassinado. Sai pra lá, neurótico professor de literatura em Boston! Vade retro, safo repórter de jornal popular!
Ficção exige imaginação e encantamento; um tanto de história, outro de jornalismo; e variedade, hoje festins pantagruélicos, amanhã snacks para devorar aos nacos. Em todo lugar o gênero "problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada" tem longa tradição. Na Europa e Estados Unidos, garante prêmios, convites para lecionar e confete em festivais literários. É o favorito de escritores que não vivem de escrever. Ganham a vida como professores, quase sempre. Quem sabe faz, quem não sabe ensina... não, sacanagem: tá cheio de professor por aí que manda muito bem. O problema é quando os escritores começam a escrever para impressionar outros escritores (e, aliás, isso vale para músicos, pintores, arquitetos e qualquer atividade criativa).
Escrever em tempo parcial não precisa ser problema. Muitos usam bem as conexões acadêmicas e mesadinhas variadas, de fundações, esse e aquele programa governamental etc. Aliás, falta de tempo e dinheiro para escrever frequentemente foi bem estimulante. James Joyce, para pegar o mais celebrado autor do século passado, criou Ulysses num miserê de dar gosto, exilado mundo afora, com uma mulher que zoava suas pretensões literárias, e dois filhos pequenos pra criar. Na outra ponta, a fábrica de best-sellers Stephen King pariu Carrie quando morava em um trailer e labutava como zelador, datilografando até altas horas, os nenês chorando.
No Brasil, literatura também é segunda profissão, ou hobby mesmo. Faça as contas: um autor ganha uns três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de 3.000 exemplares. Então, não importa muito sobre o que o escritor brasileiro vai escrever, e muito menos se vai escrever bem. Muito pouca gente vai ler. Dito isso, podemos fazer melhor. Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor, mas a prova dos nove é escrever sobre a realidade. A pesquisa de Regina explicita que o assunto da ficção brasileira é o umbigo do seu autor, um coroa diletante.
Não é problema localizado, mas talvez aqui seja um pouco mais agudo. Me parece que em todo lugar, cada vez mais os escritores estão escrevendo sobre seu mundinho particular, fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e artefatos culturais prediletos. A cultura de celebridade instantânea da internet acentua o problema: vivemos escrevendo e lendo sobre devaneios narcisistas, não sobre a realidade. Boa parte do que passa por literatura é como essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que as pessoas colocam em seus perfis no Facebook.
Hammett, padroeiro do escritor preguiçoso, estava errado. A literatura que importa não é sobre o que autor conhece, mas sobre o desconhecido - e sobre não conseguir desviar o olhar.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ilustrada - Folha de S. Paulo - 14.2.2012


Pra frente Brasil
Interesse estrangeiro e boa safra levam editoras a ampliarem catálogo de ficcionistas nacionais
RAQUEL COZERCOLUNISTA DA FOLHA

Poucos escritores não gostariam de passar pelo dilema que atormentou Andrea del Fuego, 37, no fim do ano passado: avaliar ofertas de mais de cinco editoras para decidir qual publicaria seu novo romance. Quem levou foi a Companhia das Letras, que planeja o título para abril.

Dias atrás, foi a vez de Edney Silvestre, 62. Com dois livros pela Record, recebeu propostas de mais duas casas para sua nova ficção. O valor de adiantamento de direitos autorais chegou a seis dígitos, fenômeno raro para um romance nacional. Escolheu a Intrínseca, que planeja "Vidas Provisórias" para agosto.

Os casos acima ainda são exceções. Ao contrário do que já ocorria com a não ficção nacional, títulos isolados de ficção não costumam gerar disputas -especialmente quando os autores são relativamente novos na área, como Del Fuego e Silvestre.

Mas os exemplos são simbólicos do momento que a literatura nacional vive hoje, com a ampliação do interesse das editoras pelo que se produz atualmente no país.

O novo romance de Silvestre junta-se ao de Letícia Wierzchowski na estreia da Intrínseca na ficção nacional -o da gaúcha, ainda sem título, está previsto para junho.

A Companhia das Letras deve dobrar seu número de romances nacionais neste ano. Será mais de um por mês, podendo alcançar o total de 16, se Chico Buarque e Milton Hatoum entregarem os seus.

A Record, casa das que mais investem em nacionais, costuma chegar a 20 ao ano.

Com as contratações das editoras Heloisa Jahn e Marta Garcia, que na Companhia das Letras trabalharam grandes obras nacionais, a Cosac Naify planeja aumentar a frequência de sua ficção brasileira, que nunca foi regular.

"Vamos nos organizar assim que a Marta começar a trabalhar com a gente, no dia 18. Queremos reservar espaço para seis ficções de autores nacionais contemporâneos por ano", diz a diretora editorial Florencia Ferrari.

A Globo, que tem no catálogo só infantojuvenis entre os ficcionistas nacionais em atividade, vem sondando nomes. Já fez alguns convites.

REFLEXO

Considerando que a ficção feita hoje no país não costuma vender mais que poucos milhares de cópias, impressiona o interesse de um mercado que se acostumou a comercializar centenas de milhares de seus best-sellers.

Para editores, o olhar internacional fez casas nacionais perceberem a importância de oferecer um catálogo de autores locais. O interesse estrangeiro foi estimulado pelo anúncio do Brasil como convidado de honra em 2013 da Feira de Frankfurt, maior evento editorial do mundo.

"Somos um raro caso de país que não consome a literatura local. O bom editor sabe que isso é anomalia e aposta na mudança", diz a agente literária Luciana Villas-Boas, que atende 40 autores, incluindo Edney Silvestre.

Luciana, que por 15 anos foi diretora editorial da Record, é também personagem desse cenário. Em 2012, ao abrir sua agência, chamou atenção ao declarar foco na produção nacional, enquanto o mercado ansiava por aquisições estrangeiras.

Acabou se antecipando a outras agências, como a de Marianna Teixeira Soares, ex-Rocco e Ediouro, hoje com 20 autores. As agências se tornaram mais um filtro para seleção de nomes por editoras.

"Sempre buscamos nacionais por uma questão de prestígio", diz Otávio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras, "mas é inegável que há uma boa safra".

A editora agora busca ampliar as vendas. "Barba Ensopada de Sangue", de Daniel Galera, saiu há dois meses com 8.000 cópias, mais do dobro da tiragem média de romances nacionais, que costumam demorar anos a esgotar. Já vendeu mais de 11 mil.

Embora a ficção adulta de autores em atividade não seja o centro das compras de livros por governos estaduais e federal, que tendem a preferir clássicos e infantojuvenis, ela tem surgido nas listas.

O maior programa do gênero, o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), investiu R$ 75 milhões, entre aquisição e distribuição, na edição de 2013. "Pó de Parede" (Não Editora), de Carol Bensimon, foi um dos contemplados, com 29 mil cópias.

Os governos selecionam títulos por meio de comissões de especialistas e costumam comprá-los com descontos de até 90%. Para as editoras, vale pela quantidade, bem superior à que os títulos alcançam em vendas nas livrarias.

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