sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Ypacaraí é aqui

Londres está cheia de porcos. Nas ruas, há bois boiando. E vacas que vão entrando pelas casas. É preciso fechar as cercas. Espantá-las da praça.
Falo, aqui, de uma Londres sul-americana. Onde a água, longe da Trafalgar Square, é pura lama. Poética. Como ir pela estrada, em viagem, e sentir cheiro de terra. Primitiva.
Foi o que eu fiz. Seguindo, de alguma forma, os passos do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (autor do clássico Eu, Supremo, morto em abril deste ano). Explico: Londres é Nueva London, vilarejo que conheci quando visitei o Paraguai em maio para participar da 2ª. Feira Internacional do Livro.
A saber: a comitiva ia parando. Até chegarmos à cidade de coronel Oviedo, onde a feira acontecia, a alguns quilômetros da capital, Assunção. Tudo uma vista parecida com o Nordeste do Brasil. Se a pobreza era física, era espiritual o calor humano. Temperatura: 28, à sombra.
Em 2003, fiz viagem semelhante a Bogotá. Foi por causa disso, inclusive, que me convidaram a voltar para mais uma reunião de escritores da nova geração. Esquecida. Aqui no Brasil faz tempo que não acontece um encontro similar. Uma comunhão de "los hermanos”. Quando acontecerá? Existe evento desse tipo no Chile e no Peru e na Bolívia. E no Brasil nadica. Nossa vocação é inglesa, sei lá. Francesa. Há quem tenha torcido a língua quando falei: "Estou indo ao Paraguai”. Por que não Paris? Portugal? Polônia?
Freqüento até velório, se for preciso. Para levantar defunto, recito um conto. Subo aos tamancos. Da Festa Literária Internacional de Parati até o Haiti, podem me chamar que eu vou. Pô! Que clausura é essa a do escritor? Na redoma? No chá da ABL, por que não servir um pouco de marijuana?
Chegamos. Almoçamos na casa do governador de Caaguazú. Como se aqui, um a um, fôssemos recebidos no palácio do Alckmin. Todas as honrarias à prosa e à poesia. Escritor é coisa importante, quem diria? Houve discurso de boas-vindas. E desabafos improvisados. Como o do poeta e embaixador equatoriano Francisco Suescum:
- Se não tomarmos cuidado, eles vão nos "borrar" do mapa.
Eles, os americanos. E os países ricos. O Brasil aqui incluído, fiquei com essa impressão. O Mercosul não existe. O que existe é desintegração. Velhas melodias em guarani. Um balé boliviano me fez chorar. Escondido. Somos mesmos intelectuais subdesenvolvidos. Lembrei do mercado editorial lá em Pernambuco. Um povo caduco a viver de UBE. E a publicar livros chinfrins. Quixeramobins e Tocantins. O Paraguai e sua terra vermelha me encheram de tristeza. Assim, Cuñataí.
Não quis dizer do meu drama para o escritor José Manuel Pérez, que me convidou. Ou para o organizador do evento, o obstinado poeta Fernando Pistilli. Ambos anfitriões de primeira. Eu é que já carregava comigo essa desilusão brasileira. Que a gente vai fingindo não existir. Porque somos teimosos. E vamos até o fim.
O negócio é simular um sorriso diplomático e ir atirando para todos os lados. Com os pés no teclado, haveremos de fazer a revolução. Seguindo o exemplo de Monica Bustos, em cujas mãos está o futuro fértil da literatura paraguaia.
Foi exatamente quando eu estava cansado de ver páginas empoeiradas e escritores que ainda posam de terno e gravata e autoras de alma penteada que Bustos me apareceu.
- Meu sobrenome, na verdade, é Busto. Mas coloquei um "S" para provocar.
Ela, uma jovem de 21 anos que me fez lembrar a gaúcha Clarah Averbuck. Acompanhada da avó, mostrava o seu Leão morto. Repito o nome: Leão morto. Eu disse: Leão morto. Um romanção de umas quatrocentas páginas (escrito aos 15 anos) que ela vendia e divulgava em uma das barracas.
"¿Qué se necesita para ser feliz?", pergunta ela no começo do primeiro parágrafo. Sem esperar pela resposta, é claro.
- Por isso eu mesma abri uma editora, a Cria Cuervos (por onde publicou, idem, o seu livro de contos Complexo de bustos).
Diz ela: "A gente cria urubus para depois eles pularem em cima da nossa carcaça".
É a luta, companheira.
Foi com a Monica Bustos que a feira me revelou o seu melhor frescor e me revigorou a esperança. Em quê? Voltei para o Brasil e fui direto à reunião do Movimento Literatura Urgente, a saber: manifesto assinado por mais de 180 escritores (www.literatura-urgente.com.br) que reivindica a definição de políticas públicas para o fomento ao trabalho de poetas, prosadores e ensaístas. Não se engane: aqui também precisamos, e muito, progredir. Feito o capim e a lama que alimentam os porcos e as vacas e os bois de Nueva London.
Logo ali, junto ao lago azul de Ypacaraí.
Marcelino Freire

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Hora de alimentar serpentes



Marina Colasanti fala sobre Hora de alimentar serpentes. Global. São Paulo. 2013.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Milton Hatoum

"O escritor não transcreve a vida, inventa a vida"


Milton Hatoum, o escritor brasileiro de origem libanesa, veio a Lisboa conversar com o poeta sírio Adonis na Gulbenkian. Falaram de política, mas sobretudo como a literatura e a poesia podem fazer a ponte entre Ocidente e Oriente

Aos 61 anos, o escritor brasileiro Milton Hatoum não tem pressa. Na era em que os livros parecem ser fabricados em série, publicou apenas seis em quase 25 anos de carreira - e escreve-os à mão.

Vencedor dos prémios Jabuti e Portugal Telecom de literatura defende que o escritor tem de ter coragem para escrever e mais ainda para ficar em silêncio.

Ele, que acredita nos bons leitores, diz que é assustador ver um presidente culto como Barack Obama em visita ao Brasil citar Paulo Coelho e não Machado de Assis ou Clarice Lispector.

Sobre o Brasil e o futuro do país do futuro? Votou em Dilma Rousseff - "as outras opções eram assustadoras" - e acha que ela vai ganhar de novo. As manifestações nas ruas da cidades brasileiras eram contra tudo: "O que a imensa maioria queria era uma política pública mais eficaz, porque há dinheiro para isso."

Costuma dizer que "um dos enigmas da literatura é a passagem da experiência para a linguagem" - justamente o tema da conferência que veio fazer na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. É possível desvendar este enigma?

O enigma nunca é decifrado. Na literatura, o estético, como disse o Borges [o escritor argentino Jorge Luis Borges], é o lugar do enigma. O que é fascinante na literatura é justamente esta possibilidade de inventar aquilo que poderia ter existido ou aquilo que pode existir. O enigma que nunca é decifrado irradia possibilidades de leitura e de interpretação. Esta é a verdade da literatura, é a verdade das relações humanas, não é uma verdade científica nem das respostas definitivas. Ao contrário, ela coloca questões o tempo todo. No meu romance Dois Irmãos (lançado há 12 anos com mais de 140 mil cópias no Brasil e que agora vai ser adaptado para a televisão), o grande enigma é saber quem é o pai do narrador.

O grande desafio do escritor é transformar a sua experiência em linguagem. Todo mundo tem uma experiência, que pode ser mais rala, mais livresca, que pode ser uma experiência de leitura, de vida aventureira ou não. A questão da literatura é como isto se transforma em linguagem. A imaginação, que é o que para mim dá força à literatura, tem que traduzir esta experiência. O valor da arte está ligado à força da imaginação.

Escreve todos os seus livros à mão. Não usa o computador. Porquê?

Tem a ver com os gestos, com algo corporal, com o hábito do arquitecto de fazer desenhos. Eu fui arquitecto [é formado em Arquitectura pela Universidade de São Paulo] muito antes dos programas de computador. Na minha época, para entrar numa faculdade de Arquitectura, você tinha que dominar o desenho. E eu me acostumei a escrever à mão - com aquilo que a gente ligava o projecto ao desígnio, ao desejo. O Roland Barthes tem um texto bonito sobre isso, sobre os manuscritos dos escritores franceses, compara o manuscrito do Balzac a uma espécie de fogo-de-artifício onde há muitas correcções, uma coisa meio arbórea. Eu me sinto mais livre escrevendo à mão. Acho que meu pensamento flui. As ideias também fluem mais com a caneta do que na tela. Eu posso passar horas escrevendo e não cansa porque também não escrevo copiosamente. Em 25 anos - o meu primeiro romance, Relato de Um Certo Oriente, vai fazer 25 anos em Abril do ano que vem - eu publiquei seis livros.

Afirmou em algumas entrevistas que um escritor tem de ter coragem de escrever e também coragem de silenciar para não escrever asneiras. A sua coragem para silenciar é maior do que a de escrever?

Não vejo nenhuma importância em publicar coisas supérfluas. O leitor é esperto. Há bons leitores. O leitor percebe quando a coisa não é trabalhada, quando você não diz uma verdade íntima. Isso é muito claro. Se eu fosse mais rápido, teria publicado mais coisas de que gosto. E não prejudiquei ninguém com isso.

Agora é impressionante a quantidade de livros. É curioso, quando eu morava na França, ouvi uma conversa sobre literatura entre o Maurice Nadeau e o Roland Barthes (que depois foi publicada - Sur la Littérature). O Nadeau perguntou ao Barthes sobre a crise da literatura. "Não há crise da literatura" - disse o Barthes. "Há excesso de livros." Isso em 1980. Então hoje a literatura virou outra coisa.

O Presidente Obama, um homem culto, que se formou em Harvard, uma das melhores universidades americanas, quando visitou o Brasil não falou do Machado de Assis, da Clarice Lispector, do Guimarães Rosa, do Graciliano Ramos. Ele citou Paulo Coelho. Então é um desprestígio enorme para a literatura brasileira. Uma coisa assustadora, a assessoria do Presidente culto - vamos dizer assim -, uma assessoria que não conseguiu transmitir o básico. Ainda bem que ele não falou Isabel Allende [risos]. Se fosse o Bush... teria dito qualquer asneira. Na literatura a quantidade não interessa. Há dois grandes exemplos de escritores que publicaram pouco e não precisam publicar mais. O mexicano Juan Ruffo, que só escreveu um romance, e o brasileiro Raduan Nassar, que escreveu o Lavoura Arcaica, O Copo de Cólera e um livrinho de contos. Isso é coragem.

Está a trabalhar num novo romance?

Estou escrevendo um romance há quatro anos, que são dois volumes. Na verdade, eu não sei se vou juntar num só. É um romance que tem muito a ver com a minha experiência. O leitor comum pensa que você transcreve a vida. Não é verdade. Você inventa a vida ou transcende a vida. Este é um romance que acompanha de perto a minha trajectória: desde que eu saí de Manaus, fui sozinho para Brasília, em Dezembro de 1967. Tem algo de autobiográfico, mas a partir do momento em que a vida é incorporada ao texto, a vida se torna texto, se torna literatura.

O romance é muito inventado, claro, mas tem uma parte em Brasília onde eu presenciei o biénio de horror [época da ditadura militar]. Eu tinha 15, 16 anos. Morei dois anos em Brasília. Entrei de cara no movimento estudantil. Não aguentei a barra em Brasília e fui para São Paulo. Entrei na Faculdade de Arquitectura, fiz uma revista de poesia com amigos.

E quando é que decidiu largar a arquitectura e ser escritor?

Escrevi alguns contos nos anos 1970. Rasguei todos. Uma editora do Rio leu e gostou, mas eu era muito inseguro (ainda sou). Achei que foi generosa de mais e não acreditei. Desconfio de todo o tipo de elogio rasgado. Eu queria muito ser poeta. Publiquei um livro de poesias naquela época, 1978, com fotos do Amazonas de amigos meus. Chamava-se Amazonas, um Rio entre Ruínas (está esgotado).

Mas eu só comecei a escrever o primeiro romance aqui na Europa. Foi na Espanha.

Este novo romance tem título?

Tem um título provisório que é O Lugar mais Sombrio. Está ficando muito grande... não sei quando vou acabar.

Veio a Lisboa para o programa Futuro Próximo da Gulbenkian em que conversa com o poeta sírio Adonis. O que é que Adonis tem que o Milton não tem?

O que ele tem e eu invejo é o domínio pleno e íntegro da língua árabe. Eu sou filho de libanês. Meu pai era libanês, morreu, e minha mãe era brasileira - filha de libaneses -, mas era uma brasileira amazonense típica. E não falava árabe comigo. A língua materna era a língua portuguesa. É incrível que estes 12 milhões de brasileiros de origem árabe não falem árabe. Isso também aconteceu com os italianos, os filhos não falam italiano. O Brasil é peculiar. Os imigrantes queriam que os filhos se integrassem. Isso facilitou a mestiçagem. Na minha família ninguém se casou com filho de árabe. Ninguém. É fantástico isso.

Agora o Adonis é um dos grandes poetas vivos. Ele foi e é uma figura central na poesia árabe contemporânea. Saiu de Damasco, foi para o Líbano ainda jovem e se exilou. Renovou a poesia árabe e trabalhou com versos livres. Mostrou ao Oriente e ao Ocidente a ponte que já existia e que estava oculta entre a poesia destes dois mundos. O Adonis recuperou muita coisa da poesia árabe que estava escondida: a poesia pré-islâmica, ele fez uma bela antologia, a poesia sufi.

Tem um livro que relaciona o surrealismo, Rimbaud, e a poesia sufi. E tem tudo a ver. Há ligações profundas, como se fossem correntes subterrâneas da imaginação livre, solta. O Adonis procurou estas confluências da poesia árabe e da poesia do Ocidente. A questão do duplo, dos sonhos, desta imaginação solta, do êxtase do Rimbaud, o êxtase dos poetas sufi.

O Adonis é uma inspiração?

É. Ele, o Edward Said. Pessoas que não separam uma cultura da outra. Uma cultura morre quando você a separa ou se você dá um status para ela, um significado de superioridade falsa. Não há culturas superiores.

Se pudesse ter uma conversa imaginária com o seu pai, como explicaria o que está a acontecer no Médio Oriente?

Acho que ele é que me explicaria. Ele viveu o período colonial francês em Beirute. Era funcionário do Ministério da Justiça. Ele diria que o mundo árabe é um mundo desagregado. Era o que ele dizia para mim, que a colonização deixou este mundo desagregado. E com o agravante de que o mundo árabe não alcançou a modernidade talvez pelas próprias condições do colonialismo, como a África não alcançou, menos ainda. O sentido do clã, das religiões, o sectarismo, isso tudo é uma loucura.

E como vê a Primavera árabe?

É um processo que está começando. Seria muito difícil dizer "a Primavera Árabe aconteceu naquele mês de Julho". É um processo longo. Vai demorar muito porque os anos, as décadas de autoritarismo, de ditaduras praticamente em todo o mundo árabe, este tempo longo criou também mentalidades arcaicas, conservadoras, com o agravante de que o país mais conservador, mais autoritário do mundo árabe, a Arábia Saudita, é o maior aliado político e militar dos Estados Unidos. Por que não se diz isso? Por que o Obama - ou o Bush - não tenta democratizar a Arábia Saudita? Esta é uma pergunta interessante. Por que levar a democracia só ao Iraque? A que custo? Todas estas intervenções foram criminosas.

Eu não tenho esperança. Também não sei qual é a importância de ter esperança. Também não sou religioso. Acho que as pessoas devem lutar por causas mais justas. Isso não me dá esperança, mas me dá uma vontade de viver. Agora é difícil ter esperança quando você vê o que está a acontecer na Síria, os bilhões que são gastos em armas.

O Saramago dizia que a democracia acabou. De certo modo ele tem razão. Tudo está contaminado pelo poder económico.

No ano passado, disse: "Já fomos o país do futuro, mas parece que o futuro deu um salto para trás e alcançou o Brasil." Como é que vê o que está a acontecer hoje no Brasil? Como vê as manifestações que começaram em Junho?

As manifestações começaram com uma reivindicação muito concreta, que foi o Movimento Passe Livre, que existe há dez anos. Por causa de 20 centavos. Cresceu, se alastrou e tomou proporções gigantescas, porque há uma insatisfação geral.

A gente tem que lembrar que o Brasil viveu quase 25 anos em estado de excepção, sem eleições directas, sob a ditadura. A prática democrática foi banida durante um quarto de século. Acabaram com a educação pública, foi terrível. Quando a democracia ressurgiu em 1985, esta prática democrática era muito pequena.

Os partidos que foram criados, com algumas excepções, são partidos fisiológicos, partidos que fazem negociações. Isto aconteceu com o Fernando Henrique, duas vezes, quando ele teve que negociar com o PFL na época. O próprio PMDB. A gente esquece que o Renan Calheiros foi ministro do Fernando Henrique, ministro da Justiça. Esquece isso. Sarney e Collor. Sarney e Lula.

Então a nossa democracia é muito frágil. Eu citei numa crónica, a última que escrevi para o Estadão, "Escárnio e covardia, miséria de muitos", o Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Hollanda, que diz isso com muita propriedade. O Brasil nunca respeitou as suas instituições e a política do Brasil é sempre feita em círculos fechados, sem consulta popular, sem diálogo com a população, sempre ao benefício do privado, das coisas particulares em relação ao público. Isso é uma tradição da vida política brasileira. Basicamente não mudou, com um agravante que é o novo clientelismo do qual o sociólogo Bolívar Lamounier fala: o clientelismo destes grandes clientes dos serviços públicos com agências de publicidade, construtoras - e eu cito -, empresas de colecta de lixo e transportes públicos.

Não há transparência nestas licitações, nem lisura nestes contratos públicos nos três níveis, porque o problema não é só no Governo federal, o Brasil tem 5570 municípios. Quando fala da educação pública, tem que ver o que estes prefeitos pensam. É um horror, a maioria é ignorante. Vai para o interior deste Brasil, mesmo São Paulo, e é uma estupidez.

E estes jovens que estão nas ruas a destruir caixas electrónicos (ATM)? Não tem nada a ver com o que aconteceu em Junho?

Este é um grupo anarquista mais radical que quebra banco. Sou contra, porque afasta a população. As pessoas têm medo e é um pretexto para a polícia, que já é violenta, intervir com mais violência. Mas acho que são grupos isolados. O que a população estava reivindicando era uma política... não era contra a Dilma. Era contra tudo. Era contra o sistema todo.

É claro que houve grupos de direita, extrema-direita, tinha tudo. Mas vamos dizer que a imensa maioria era de gente que queria uma política pública mais eficaz porque há dinheiro para isso.

Mas houve uma desmobilização?

Houve, porque não há lideranças e quando não há lideranças é difícil mobilizar. O Facebook não é um manual ideológico. O Facebook é um telefone contemporâneo, só que é um telefone que pega milhares, milhões. O Facebook não politiza. A tecnologia não cria consciência política. Quem cria consciência política é a escola, a boa escola.

Em relação ao Médio Oriente, já disse que não tem esperança. E em relação ao Brasil?

Basta estar vivo para não ter esperança. Mas dito isso eu adoro a vida. Mas não tenho esperança nesta política que é feita. A juventude é a única força transformadora, mas é preciso criar lideranças independentes. O PT errou no Brasil, errou muito. Não fez autocrítica. Eu votei nela, na Dilma. Ela vai ganhar novamente.

Arrepende-se?

Não. Não porque as opções eram piores, eram assustadoras.

Há muitas críticas em relação aos subsídios, Bolsa Escola, Bolsa Família. Os mais críticos argumentam que estão a criar dependência nas pessoas e não emprego. Concorda?

Não. Se você sofrer na pele o que estes bolsistas sofrem. São pessoas muito miseráveis. É claro que o emprego é importantíssimo. Mas esta é uma medida emergencial. Como é que você vai montar uma fábrica nos sertões ou nos confins do Brasil? Isso não é assim que se faz, emprego não se cria de uma hora para outra. Para as pessoas não passarem fome, para os filhos poderem ir à escola, acho importante.

O que gostaria que o leitor português soubesse que ainda não sabe sobre si?

É só lerem os meu livros.

É a experiência transformada em linguagem?

Já não sou eu o eu que escreve, mas alguma coisa de mim está neles.


in CULTURA P.


Conto/crônica de Gregório Duvivier

Mais antes

Ela saiu de casa batendo a porta. Mas antes, ele tinha mandado ela tomar no cu. Mas antes, ela tinha pedido que ele pelo menos limpasse a merda que fez. Mas antes, ele tinha derramado vinho no tapete. Mas antes, ela tinha duvidado de que ele derramaria o vinho todo no tapete. Mas antes, ele tinha dito que derramaria o vinho todo no tapete. Mas antes, ela tinha dito que a culpa não era dela de ele não ter um emprego. Mas antes, ele tinha dito que ela não precisava jogar na cara que ele não tinha dinheiro nem para comprar um tapete. Mas antes, ela tinha dito que a mãe dela merecia respeito, afinal de contas era ela quem tinha mobiliado o apartamento, do ventilador ao tapete. Mas antes, ele tinha dito que a mãe dela era uma vaca. Mas antes, a mãe dela tinha saído do apartamento batendo a porta. Mas antes, ele tinha pedido que a mãe dela saísse, de preferência sem bater a porta. Mas antes, a mãe dela tinha dito que ele estava mais gordo. Mas antes, ele tinha dito que a mãe dela estava mais velha. Mas antes, a mãe dela perguntou se ele tinha conseguido o emprego. Mas antes, ele disse que a mãe dela chegar de surpresa era só o que faltava. Mas antes, a mãe dela tinha chegado de surpresa. Mas antes, eles tinham se beijado e pedido desculpas e prometido que não iam brigar. Mas antes, ele perguntou por que é que nada que ele faz nunca está bom. Mas antes, ela tinha reclamado que ele não sabia nem abrir um vinho. Mas antes, ele tinha tentado abrir um vinho. Mas antes, ela tinha sugerido que ele abrisse o vinho. Mas antes, eles tinham se beijado. Mas antes, eles tinham deixado os filhos na casa da irmã dele. Mas antes, eles tinham dito que seria uma noite linda. Mas antes, eles tinham passado no supermercado e comprado o melhor vinho. Mas antes, ela tinha dito que tinha muito orgulho do marido que ele era. Mas antes, ele tinha chorado porque não era assim que ele se imaginava aos 35. Mas antes, ele tinha sido recusado na entrevista de emprego. Mas antes, ela tinha dito que confiava cegamente nele. Mas antes, ele tinha dito que era só uma entrevista de emprego, e que nada estava certo ainda. Mas antes, eles tinham combinado de comemorar as duas coisas, o aniversário e o emprego novo. Mas antes, eles tinham acordado e percebido que, naquela noite, eles iriam comemorar sete anos juntos. Mas antes, eles tinham sido felizes. Isso antes.

Gregório Duvivier

(Folha - 29/07/2013)

Conto/crônica de Gregório Duvivier

Breve história da internet

Conheceram-se na sala 'dez a 15 anos' do bate-papo UOL. De onde teclas? Ele teclava de Belo Horizonte, ela de Caxias do Sul. Ele deu um número de ICQ. Passaram dias ao som de oh-ou e navios partindo. Ele pediu uma foto. Ela não tinha foto. Descreveu-se ruiva (não era). Ele se apaixonou perdidamente.

Pediu o e-mail dela: era do iG, por causa do cachorrinho. O dele era Zipmail, por causa da Luana Piovani. Mandou um poema. Ela respondeu dez minutos depois. Trocaram todo tipo de poemas e cartas de amor. Até a caixa postal dele lotar, uma semana depois. Ele apagou todos os e-mails que não eram dela (ou pra ela). Não eram muitos.

Logo lotou de novo. Migraram para o Hotmail. A caixa postal era um pouco maior. Conheceram o MSN. Ele pediu uma foto. Ela pintou o cabelo de vermelho só pra tirar a foto. Mandou. Ele gostou mais ainda. Ela fez um fotolog só com fotos dela. Pra ele. O fotolog fez sucesso, não só com ele. Combinaram de se encontrar em São Paulo. Ele foi, ela não. Pararam de se falar por um tempo.

No Orkut, ela encontrou ele dois anos mais velho. Ela pediu desculpas em um lindo testimonial. Ele aceitou. Passaram a trocar scraps. Ele era um figura popular, tinha criado a comunidade do Pearl Jam. Ela criou "Adoro Banho Quente", comunidade popular mas não tanto quanto sua rival "Odeio Banho Gelado". Combinaram de se encontrar em São Paulo. Os dois foram. Beijaram-se assistindo a "Era Do Gelo". Ou não assistindo. Começaram um namoro à distância.

Foram meses difíceis de MSN, até que inventaram o Skype. A vida mudou. Beijavam a tela, dormiam abraçados com ela. Ele fez uma música para ela e postou no YouTube. Ele ganhou seguidores no Twitter. A caixa postal do Hotmail lotou. Migraram para o Gmail e sua caixa infinita (ou quase).

Ela foi pro Rio de Janeiro fazer faculdade. Ele foi atrás. Entraram no Facebook quando não tinha quase ninguém. A foto de cada um era a cara do outro. Moravam juntos, dividiam o mesmo computador, compartilhavam os mesmos vídeos. O Gmail e sua estranha mania de não dar logout automaticamente fizeram com que ela lesse toda a sua correspondência. Ele ficou puto com o que ela leu. Ela ficou puta com o que ele tinha escrito. Quase terminaram.

Preferiram comprar outro computador. E cada um passou a ter uma senha. Riram muito no 9gag. Recusaram-se a entrar para o Google Plus. Hoje falam-se o dia inteiro no WhatsApp. E o Instagram deles é só fotos do bebê.

Gregório Duvivier (Folha de SP. 19/08/2013)

Um conto/crônica de Gregório Duvivier

É menina

É menina, que coisa mais fofa, parece com o pai, parece com a mãe, parece um joelho, upa, upa, não chora, isso é choro de fome, isso é choro de sono, isso é choro de chata, choro de menina, igualzinha à mãe, achou, sumiu, achou, não faz pirraça, coitada, tem que deixar chorar, vocês fazem tudo o que ela quer, isso vai crescer mimada, eu queria essa vida pra mim, dormir e mamar, aproveita enquanto ela ainda não engatinha, isso daí quando começa a andar é um inferno, daqui a pouco começa a falar, daí não para mais, ela precisa é de um irmão, foi só falar, olha só quem vai ganhar um irmãozinho, tomara que seja menino pra formar um casal, ela tá até mais quieta depois que ele nasceu, parece que ela cuida dele, esses dois vão ser inseparáveis, ela deve morrer de ciúmes, ele já nasceu falante, menino é outra coisa, desde que ele nasceu parece que ela cresceu, já tá uma menina, quando é que vai pra creche, ela não larga dessa boneca por nada, já podia ser mãe, já sabe escrever o nomezinho, quantos dedos têm aqui, qual é a sua princesa da Disney preferida, quem você prefere, o papai ou a mamãe, quem é o seu namoradinho, quem é o seu príncipe da Disney preferido, já se maquia dessa idade, é apaixonada pelo pai, cadê o Ken, daqui a pouco vira mocinha, eu te peguei no colo, só falta ficar mais alta que eu, finalmente largou a boneca, já tava na hora, agora deve tá pensando besteira, soube que virou mocinha, ganhou corpo, tenho uma dieta boa pra você, a dieta do ovo, a dieta do tipo sanguíneo, a dieta da água gelada, essa barriga só resolve com cinta, que corpão, essa menina é um perigo, vai ter que voltar antes de meia-noite, o seu irmão é diferente, menino é outra coisa, vai pela sombra, não sorri pro porteiro, não sorri pro pedreiro, quem é esse menino, se o seu pai descobrir, ele te mata, esse menino é filho de quem, cuidado que homem não presta, não pode dar confiança, não vai pra casa dele, homem gosta é de mulher difícil, tem que se dar valor, homem é tudo igual, segura esse homem, não fuxica, não mexe nas coisas dele, tem coisa que é melhor a gente não saber, não pergunta demais que ele te abandona, o que os olhos não veem o coração não sente, quando é que vão casar, ele tá te enrolando, morar junto é casar, quando é que vão ter filho, ele tá te enrolando, barriga pontuda deve ser menina, é menina.

Gregorio Duvivier 

[16.09.2013 - Folha de São Palo]

sábado, 21 de setembro de 2013

Reprodução, de Bernardo Carvalho

21/09/2013 - 03h00

'Você acha que usa a internet, mas está sendo usado por ela', diz Bernardo Carvalho


Um longo processo de percepção de Bernardo Carvalho, 53, virou urgência em seu novo romance, "Reprodução"(Companhia das Letras).


RAQUEL COZER
COLUNISTA DA FOLHA


Aos 20 anos de carreira, o autor que se firmou entre os grandes ficcionistas do país com obras como "Nove Noites" (2002) e "O Filho da Mãe" (2009) escreveu aquele que considera seu título mais político, a partir do cenário "libertário" e ao mesmo tempo "cheio de ódio" da internet.
O protagonista, identificado como "o estudante de chinês", é o que Carvalho define como um típico comentarista de sites, que reproduz informações desconexas entendidas superficialmente.
Bruno Poletti/Folhapress
O escritor Bernardo Carvalho em seu apartamento no bairro de Higienópolis
O escritor Bernardo Carvalho em seu apartamento no bairro de Higienópolis
O personagem não terá chance de comentar sites ao longo do livro, já que, na maior parte dele, estará num depoimento à polícia, após se envolver num imbróglio que não entende bem.
Sua personalidade virá à tona num diálogo do qual só se ouve sua voz, transformando-se em monólogo com toques de humor, mas incômodo.
"A literatura passou a ser pautada pelo gosto da média. Mas literatura é reflexão, não só contar uma história. Sempre tive interesse em fazer uma literatura disfuncional", diz Carvalho. Leia trechos da entrevista com o autor.
*
Folha - Não é de hoje que você questiona uma "banalização" promovida pela internet. Como essa ideia virou livro?
Bernardo Carvalho - Tive um processo longo de percepção de uma fascistização do mundo, de um jeito ambíguo, porque as pessoas criam o fascismo achando que estão encontrando a liberdade. A internet é libertária, democrática, mas também faz você entregar sua privacidade e se relacionar com corporações como se fossem Deus ou a natureza. Elas dizem: "Você não precisa pagar nada". E você se entrega acriticamente, porque a ideia de não fazer esforço é sedutora. E há o narcisismo, a exposição no Facebook, que pega um ponto central. É perverso, a conquista vai em pontos frágeis da psique, você se sente uma celebridade. Do ponto de vista político, você acha que está usando, mas está sendo usado. O livro expressa esse desconforto.
Na sua opinião, a internet apenas reflete um comportamento humano ou o reforça?
Talvez tenha acirrado algo que sempre existiu em potencial. Você não tem privacidade, mas pode ter anonimato, o que permite uma manifestação de imbecilidade sob a proteção do anonimato. Estava incomodado com isso e pensei nesse narrador que representa o ódio absoluto, o anonimato da internet. No livro há uma frase do [filósofo espanhol] Ortega y Gasset: "Todo povo cala uma coisa para poder dizer outra. Porque tudo seria indizível". O personagem tem a informação absoluta, mas nada do que ele diz quer dizer muito. Não adianta você saber um monte de coisas, ser informado na superficialidade midiática sem uma compreensão do mundo. Você só reproduz, não consegue mais produzir.
Comentaristas de sites em geral focam a política nacional, algo que não aparece abertamente no livro, com apenas uma menção às manifestações. Você evitou tratar disso?
O livro não é jornalístico, não está atado ao presente. Poderia falar de Dirceu, Mensalão, mas o central para mim hoje são os evangélicos, a religião interferindo no poder, e isso é o cerne do livro. Sobre manifestações, fui a três. A primeira, da [avenida] Brigadeiro Faria Lima [em 17/6], era classe média, bonitinha, o Brasil não estava representado ali. Dias depois teve a da [avenida] Paulista e tinha de tudo, sobretudo uma plataforma contra a corrupção, o que é estranho, porque todos são contra a corrupção. Notei um ódio no qual reconheci esse anônimo da internet. Pensei: "Não quero ser identificado como um deles nem ser governado por quem eles queiram como representante". O ícone dessa gente é Marina Silva, e não quero ser representado por ela. A terceira manifestação, contra o Feliciano, não tinha nem mil pessoas. Era um tema urgente, gravíssimo, e aí a sociedade não participou.

O protagonista cita os "colunistas" da mídia, que, nota-se, alimentam o ódio dele. Pensou em alguém específico?
Isso resume várias pessoas. É uma grosseria de pensamento, gente que fala como se falasse com crianças. O problema não é ser colunista de direita, é o tipo de argumento primário e fácil de ser derrubado. O negócio é no grito porque é insustentável. E isso produz best-sellers no Brasil. Há uma espécie de inconsequência política que está no discurso desse personagem. A burrice era privada, mas agora é pública.

O modo como diz isso ao leitor é incômodo, nesses diálogos que surgem como monólogos. Por que optou por essa forma?
A literatura passou a ser pautada pelo gosto da média. Mas literatura é reflexão, não só produto de consumo, não só contar uma história. Tem um elemento de rebeldia, de criação. Não sei se incomoda, mas esse livro me deu prazer de fazer e me dá prazer de ler. Há uma coisa engraçada no discurso do ódio. Não tenho clareza do que o livro representa, mas é algo político como nunca fiz, tem um humor que nunca tive. Sempre fui contra a literatura política, atrelada, mas desta vez tinha uma urgência. O livro não busca uma solução. É uma visão trágica das camadas de possibilidades.

Faz 20 anos que você lançou seu primeiro livro, 'Aberração'. Como compara o escritor que é hoje àquele de 1993?
Quando comecei, queria tentar uma literatura que não reconhecia à minha volta. Minha literatura sempre teve uma coisa de briga, de ser do contra, mas também sempre tive a ambição natural de querer ser lido. Hoje vejo uma estruturação da recepção da literatura, baseada numa hegemonia do gosto e das vendas. Isso reduz no mercado a brecha de uma experimentação, a chance de erro, uma herança anglo-saxã, na qual experimental é um livro malfeito. A infantilização do público tem a ver com a internet e também com uma literatura que entrega o que você quer. Sempre quis criar algo disfuncional, isso continua comigo.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Trabalho científico - link

http://porvir.org/porfazer/usp-lanca-curso-online-sobre-producao-de-artigo-cientifico/20130806

sábado, 20 de julho de 2013

Falácias sobre literatura, de Michel Laub (Folha de SP)

19/07/2013 - 03h00

Falácias sobre a literatura


1. "A ficção melhora a vida das pessoas." -- Duvido que ler Céline ajude um funcionário de banco a trabalhar com mais eficiência, arrumar uma namorada ou parar de beber.
2. "Há muita inveja no meio literário." -- Sim (dizem), mas com os amigos é o contrário. Torcemos para que seus livros sejam bons, porque dilemas éticos dão certa preguiça: em algum momento precisaremos decidir se os elogiamos hipocritamente, talvez em público, ou deixamos a amizade avinagrar.1. "A ficção melhora a vida das pessoas." -- Duvido que ler Céline ajude um funcionário de banco a trabalhar com mais eficiência, arrumar uma namorada ou parar de beber.
3. "Quem lê best-sellers acaba passando para obras mais complexas." -- Só se fizer um esforço que no começo parece inútil, o que a maioria não está disposta a fazer. Por que enfrentar textos que soam árduos e/ou incompreensíveis? Só porque alguém --quase sempre uma pessoa mais velha, solitária, pobre e sem carisma-- diz que haverá uma recompensa ao final?
4. "O maior pecado de um escritor é ser chato." -- Contrariando o item anterior, há um prazer específico, que pode ser intenso e viciante, em emergir de um monólogo introspectivo de 900 páginas --às vezes em prosa opaca, sem enredo, humor ou concessões-- como um sobrevivente.
5. "Tudo já foi dito." -- Pegue alguns dos temas que estão por aí --polícia moral de Twitter, por exemplo-- e conte quantas boas histórias foram publicadas a respeito.
6. "Todos os modos de dizer já foram tentados." -- Assim como cada pessoa tem um timbre de voz, cada autor é capaz de ser bom ou idiota à sua maneira.
7. "A linguagem é capaz de tudo." -- Apenas dentro dos próprios limites. Um cheiro só pode ser descrito com metáforas e associações, que não são e nem mesmo definem o cheiro em si.
8. "O texto ficcional é autônomo." -- Dá para acreditar nisso, como no Papai Noel da isenção, mas a referência de toda escrita é a memória do seu autor, que não necessariamente é a memória de coisas vividas. Só uso a palavra "casa" porque sei o que é uma casa --já morei numa, já entrei em outras tantas, já vi fotos e filmes e ouvi relatos a respeito--, e isso também é autobiografia.
9. "Não há muitos livros sobre futebol no Brasil." -- Frase repetida a cada lançamento de obra sobre o tema.
10. "Há poucos estudos acadêmicos sobre literatura contemporânea." -- Frase repetida a cada notícia de estudo do gênero.
11. "Há cada vez menos espaço para resenhas." -- Ok se desconsiderarmos a invenção da internet.
12. "Escrever contos exige tanto sacrifício quanto escrever romance." -- Sei que é um gênero difícil e tal, mas estou usando critérios objetivos: os anos de dedicação e concentração, os casamentos terminados, os remédios para a lombar.
13. "O escritor é um trabalhador como qualquer outro." -- Diga isso para um cortador de cana.
14. (A falácia oposta, de que se trata de um habitante das esferas elevadas da compreensão humana, é ainda pior: no mínimo, porque gera metáforas do tipo artista no fio da navalha/no olho do furacão/à beira do abismo.)
15. Frase de Henry James, se não me engano, que poderia ser a resposta à preferência atual --muito apreciada em cursos de escrita criativa-- por concisão, contenção e exatidão: "Adjetivos e advérbios são o sal e o açúcar da literatura".
16. (Dá para dizer algo parecido contra outras regras da moda: as que vetam personagens escritores, narradores em primeira pessoa, metalinguagem, capítulos curtos, romances políticos e enredo policial, livros despretensiosos ou que se levam a sério, autores que mendigam popularidade fazendo listinhas.)
17. (Queria aproveitar para falar umas verdades sobre a crítica, os cadernos de cultura, as políticas governamentais de incentivo ao livro, as editoras, os tradutores, os revisores e preparadores, sem contar os leitores e alguns colegas e também meus inimigos e seus familiares, mas o espaço está terminando e melhor deixar para outra).
18. Raduan Nassar numa entrevista à "Veja", 1997, resumindo a importância do que foi dito nos parágrafos acima: "Eu gosto mesmo é de dormir (...). É um momento de magia quando você, só cansaço, cansaço da pesada, deita o corpo e a cabeça numa cama e num travesseiro. Ensaio, prosa, poesia, modernidade, tudo isso vai para o brejo quando você escorrega gostosamente da vigília para o sono".
(Fabio Braga/Folhapress)
Michel Laub é escritor e jornalista. Publicou cinco romances, entre eles "Diário da Queda" (Companhia das Letras, 2011). Escreve a cada duas semanas, sempre às sextas-feiras, na versão impressa da "Ilustrada"

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Infográfico do escritor brasileiro


Por qeu escrever (ou: o escritor brasileiro, esse chato)


O escritor brasileiro é homem e branco. Ele tem diploma universitário, mora no eixo Rio-São Paulo, tem 50 anos. O protagonista de seu romance é homem, branco, com diploma universitário, mora em metrópole etc. etc. Dos nossos autores, 36% trabalham como jornalistas. As profissões mais comuns dos protagonistas da literatura brasileira são, pela ordem, escritor, criminoso, artista, estudante e jornalista. As histórias se passam nas últimas três décadas.
Ou seja: o assunto da literatura brasileira é o escritor brasileiro e seu mundinho, sua juventude e atual meia-idade, reimaginadas dramaticamente. É o resumo curto e grosso da pesquisa feita pela professora Regina Dalcastagnè, da UNB. Analisou 258 romances de 165 escritores diferentes, dos últimos 15 anos, de editoras variadas. É mostra significativa. Rendeu um infográfico impactante.
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Regina conclui que não há no campo literário brasileiro uma pluralidade de perspectivas sociais - nossos livros não incluem gente de várias cores, classes, religiões, idades. Bidu. É e sempre foi assim. A ausência mais escancarada em nossa literatura, personagens negros, tem razão bem concreta: não há negros nas redações, na academia, nas posições de comando do País.
Nossos livros não são mais discriminatórios do que nossa sociedade não ficcional. Em 56% dos romances, todos os personagens são brancos. A pesquisa crava: 36% dos escritores são jornalistas. Bem, tirando jornalista, poucos brasileiros têm português legível. Encaixar uma frase na outra, respeitar concordâncias, economizar nas vírgulas e tal. E Dashiell Hammett recomendou: escreva sobre o que você conhece. Donde que temos jornalistas escrevendo sobre jornalistas. Um bando de rato de redação se imaginando como herói: uma vez na vida, a notícia sou eu!
Bem, eu sou exatamente o perfil do romancista brasileiro, quase cinquenta, branco etc., e obviamente não quero ler sobre mim, nem em versão romantizada, e muito menos realista. Nem todo autor brazuca é jornalista, mas o fato é que os temas e abordagens se repetem. A pesquisa explica a desconexão de muitos, e a minha, com a literatura brasileira atual. Me recomendam este e aquele autor nacional. Compro, leio quinze páginas e despacho pro sebo, com exceções muito pontuais.
A pesquisa explica o meu, o nosso problema. Não é com o País de origem dos autores. É com o universo ficcional e existencial dos autores e personagens. Não queremos saber dos problemas de jornalistas e escritores profissionais, dos senhores letrados de classe média e meia-idade, suas neurinhas, fantasias e infidelidades. Simplesmente não é tão interessante assim. E pior ainda quando vira policial noir de butique, com direito a um assassino, uma garota de programa e um milionário assassinado. Sai pra lá, neurótico professor de literatura em Boston! Vade retro, safo repórter de jornal popular!
Ficção exige imaginação e encantamento; um tanto de história, outro de jornalismo; e variedade, hoje festins pantagruélicos, amanhã snacks para devorar aos nacos. Em todo lugar o gênero "problemas sexuais-existenciais da classe média intelectualizada" tem longa tradição. Na Europa e Estados Unidos, garante prêmios, convites para lecionar e confete em festivais literários. É o favorito de escritores que não vivem de escrever. Ganham a vida como professores, quase sempre. Quem sabe faz, quem não sabe ensina... não, sacanagem: tá cheio de professor por aí que manda muito bem. O problema é quando os escritores começam a escrever para impressionar outros escritores (e, aliás, isso vale para músicos, pintores, arquitetos e qualquer atividade criativa).
Escrever em tempo parcial não precisa ser problema. Muitos usam bem as conexões acadêmicas e mesadinhas variadas, de fundações, esse e aquele programa governamental etc. Aliás, falta de tempo e dinheiro para escrever frequentemente foi bem estimulante. James Joyce, para pegar o mais celebrado autor do século passado, criou Ulysses num miserê de dar gosto, exilado mundo afora, com uma mulher que zoava suas pretensões literárias, e dois filhos pequenos pra criar. Na outra ponta, a fábrica de best-sellers Stephen King pariu Carrie quando morava em um trailer e labutava como zelador, datilografando até altas horas, os nenês chorando.
No Brasil, literatura também é segunda profissão, ou hobby mesmo. Faça as contas: um autor ganha uns três reais por exemplar vendido, e as tiragens aqui raramente passam de 3.000 exemplares. Então, não importa muito sobre o que o escritor brasileiro vai escrever, e muito menos se vai escrever bem. Muito pouca gente vai ler. Dito isso, podemos fazer melhor. Escrever bem é técnica, e escrever divinamente é talento e suor, mas a prova dos nove é escrever sobre a realidade. A pesquisa de Regina explicita que o assunto da ficção brasileira é o umbigo do seu autor, um coroa diletante.
Não é problema localizado, mas talvez aqui seja um pouco mais agudo. Me parece que em todo lugar, cada vez mais os escritores estão escrevendo sobre seu mundinho particular, fantasias de aventura e consumo, revisitando seus livros e filmes e artefatos culturais prediletos. A cultura de celebridade instantânea da internet acentua o problema: vivemos escrevendo e lendo sobre devaneios narcisistas, não sobre a realidade. Boa parte do que passa por literatura é como essas fotos supostamente displicentes, mas cuidadosamente planejadas e retocadas, que as pessoas colocam em seus perfis no Facebook.
Hammett, padroeiro do escritor preguiçoso, estava errado. A literatura que importa não é sobre o que autor conhece, mas sobre o desconhecido - e sobre não conseguir desviar o olhar.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ilustrada - Folha de S. Paulo - 14.2.2012


Pra frente Brasil
Interesse estrangeiro e boa safra levam editoras a ampliarem catálogo de ficcionistas nacionais
RAQUEL COZERCOLUNISTA DA FOLHA

Poucos escritores não gostariam de passar pelo dilema que atormentou Andrea del Fuego, 37, no fim do ano passado: avaliar ofertas de mais de cinco editoras para decidir qual publicaria seu novo romance. Quem levou foi a Companhia das Letras, que planeja o título para abril.

Dias atrás, foi a vez de Edney Silvestre, 62. Com dois livros pela Record, recebeu propostas de mais duas casas para sua nova ficção. O valor de adiantamento de direitos autorais chegou a seis dígitos, fenômeno raro para um romance nacional. Escolheu a Intrínseca, que planeja "Vidas Provisórias" para agosto.

Os casos acima ainda são exceções. Ao contrário do que já ocorria com a não ficção nacional, títulos isolados de ficção não costumam gerar disputas -especialmente quando os autores são relativamente novos na área, como Del Fuego e Silvestre.

Mas os exemplos são simbólicos do momento que a literatura nacional vive hoje, com a ampliação do interesse das editoras pelo que se produz atualmente no país.

O novo romance de Silvestre junta-se ao de Letícia Wierzchowski na estreia da Intrínseca na ficção nacional -o da gaúcha, ainda sem título, está previsto para junho.

A Companhia das Letras deve dobrar seu número de romances nacionais neste ano. Será mais de um por mês, podendo alcançar o total de 16, se Chico Buarque e Milton Hatoum entregarem os seus.

A Record, casa das que mais investem em nacionais, costuma chegar a 20 ao ano.

Com as contratações das editoras Heloisa Jahn e Marta Garcia, que na Companhia das Letras trabalharam grandes obras nacionais, a Cosac Naify planeja aumentar a frequência de sua ficção brasileira, que nunca foi regular.

"Vamos nos organizar assim que a Marta começar a trabalhar com a gente, no dia 18. Queremos reservar espaço para seis ficções de autores nacionais contemporâneos por ano", diz a diretora editorial Florencia Ferrari.

A Globo, que tem no catálogo só infantojuvenis entre os ficcionistas nacionais em atividade, vem sondando nomes. Já fez alguns convites.

REFLEXO

Considerando que a ficção feita hoje no país não costuma vender mais que poucos milhares de cópias, impressiona o interesse de um mercado que se acostumou a comercializar centenas de milhares de seus best-sellers.

Para editores, o olhar internacional fez casas nacionais perceberem a importância de oferecer um catálogo de autores locais. O interesse estrangeiro foi estimulado pelo anúncio do Brasil como convidado de honra em 2013 da Feira de Frankfurt, maior evento editorial do mundo.

"Somos um raro caso de país que não consome a literatura local. O bom editor sabe que isso é anomalia e aposta na mudança", diz a agente literária Luciana Villas-Boas, que atende 40 autores, incluindo Edney Silvestre.

Luciana, que por 15 anos foi diretora editorial da Record, é também personagem desse cenário. Em 2012, ao abrir sua agência, chamou atenção ao declarar foco na produção nacional, enquanto o mercado ansiava por aquisições estrangeiras.

Acabou se antecipando a outras agências, como a de Marianna Teixeira Soares, ex-Rocco e Ediouro, hoje com 20 autores. As agências se tornaram mais um filtro para seleção de nomes por editoras.

"Sempre buscamos nacionais por uma questão de prestígio", diz Otávio Marques da Costa, publisher da Companhia das Letras, "mas é inegável que há uma boa safra".

A editora agora busca ampliar as vendas. "Barba Ensopada de Sangue", de Daniel Galera, saiu há dois meses com 8.000 cópias, mais do dobro da tiragem média de romances nacionais, que costumam demorar anos a esgotar. Já vendeu mais de 11 mil.

Embora a ficção adulta de autores em atividade não seja o centro das compras de livros por governos estaduais e federal, que tendem a preferir clássicos e infantojuvenis, ela tem surgido nas listas.

O maior programa do gênero, o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), investiu R$ 75 milhões, entre aquisição e distribuição, na edição de 2013. "Pó de Parede" (Não Editora), de Carol Bensimon, foi um dos contemplados, com 29 mil cópias.

Os governos selecionam títulos por meio de comissões de especialistas e costumam comprá-los com descontos de até 90%. Para as editoras, vale pela quantidade, bem superior à que os títulos alcançam em vendas nas livrarias.

LINK

domingo, 6 de janeiro de 2013

Como naquele conto de Cortázar











Continuidad de los parques
      Había empezado a leer la novela unos días antes. La abandonó por negocios urgentes, volvió a abrirla cuando regresaba en tren a la finca; se dejaba interesar lentamente por la trama, por el dibujo de los personajes. Esa tarde, después de escribir una carta a su apoderado y discutir con el mayordomo una cuestión de aparcerías volvió al libro en la tranquilidad del estudio que miraba hacia el parque de los robles. Arrellanado en su sillón favorito de espaldas a la puerta que lo hubiera molestado como una irritante posibilidad de intrusiones, dejó que su mano izquierda acariciara una y otra vez el terciopelo verde y se puso a leer los últimos capítulos. Su memoria retenía sin esfuerzo los nombres y las imágenes de los protagonistas; la ilusión novelesca lo ganó casi en seguida. Gozaba del placer casi perverso de irse desgajando línea a línea de lo que lo rodeaba, y sentir a la vez que su cabeza descansaba cómodamente en el terciopelo del alto respaldo, que los cigarrillos seguían al alcance de la mano, que más allá de los ventanales danzaba el aire del atardecer bajo los robles. Palabra a palabra, absorbido por la sórdida disyuntiva de los héroes, dejándose ir hacia las imágenes que se concertaban y adquirían color y movimiento, fue testigo del último encuentro en la cabaña del monte. Primero entraba la mujer, recelosa; ahora llegaba el amante, lastimada la cara por el chicotazo de una rama. Admirablemente restallaba ella la sangre con sus besos, pero él rechazaba las caricias, no había venido para repetir las ceremonias de una pasión secreta, protegida por un mundo de hojas secas y senderos furtivos. El puñal se entibiaba contra su pecho, y debajo latía la libertad agazapada. Un diálogo anhelante corría por las páginas como un arroyo de serpientes, y se sentía que todo estaba decidido desde siempre. Hasta esas caricias que enredaban el cuerpo del amante como queriendo retenerlo y disuadirlo, dibujaban abominablemente la figura de otro cuerpo que era necesario destruir. Nada había sido olvidado: coartadas, azares, posibles errores. A partir de esa hora cada instante tenía su empleo minuciosamente atribuido. El doble repaso despiadado se interrumpía apenas para que una mano acariciara una mejilla. Empezaba a anochecer.
    Sin mirarse ya, atados rígidamente a la tarea que los esperaba, se separaron en la puerta de la cabaña. Ella debía seguir por la senda que iba al norte. Desde la senda opuesta él se volvió un instante para verla correr con el pelo suelto. Corrió a su vez, parapetándose en los árboles y los setos, hasta distinguir en la bruma malva del crepúsculo la alameda que llevaba a la casa. Los perros no debían ladrar, y no ladraron. El mayordomo no estaría a esa hora, y no estaba. Subió los tres peldaños del porche y entró. Desde la sangre galopando en sus oídos le llegaban las palabras de la mujer: primero una sala azul, después una galería, una escalera alfombrada. En lo alto, dos puertas. Nadie en la primera habitación, nadie en la segunda. La puerta del salón, y entonces el puñal en la mano. la luz de los ventanales, el alto respaldo de un sillón de terciopelo verde, la cabeza del hombre en el sillón leyendo una novela.

de "Final de juego", Julio Cortázar 1956. © 1996 Alfaguara

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