quinta-feira, 19 de abril de 2012

"No horizonte do novo século - Marca da literatura brasileira", artigo de Regina Zilberman.


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4. Inovação e renovação literária
Supõe-se que o único compromisso de um autor de obras literárias, sejam elas de natureza lírica, narrativa ou dramática, seja com sua própria arte. Essa, por sua vez, pode nascer espontaneamente, mas depara-se com alguns horizontes, entre os quais se reconhece a imposição do cânone. Formatado por distintas tradições — a nacional, a internacional, a linguística, a estética —, o cânone aparece na condição de um desafio e, sobretudo, de um enigma, que o artista deve decifrar, sob pena de ser devorado, por não saber fazê-lo ou não ser bem-sucedido.

O cânone, por muito tempo, requereu sua própria reprodução. Distintos classicismos empenharam-se na afirmação de normas e paradigmas a que cabia obedecer e dar seqüência. Os modernismos e as vanguardas inverteram a ordem: o cânone aí está para ser desacatado, rejeitado e desconstruído.
O ímpeto revolucionário das primeiras décadas do século 20 pode ter arrefecido à medida que os decênios se passaram. Não desapareceu, porém, do horizonte do campo literário, induzindo cada artista, de uma parte, a inovar, se comparado com seus contemporâneos e predecessores, de outra, a renovar-se permanentemente, se examinada sua trajetória artística ao longo do tempo. Diante dessa provocação, e sobretudo quando somada ou cotejada aos desafios anteriores, não se pode negar que as novas gerações de escritores brasileiros têm apresentado inovações substanciais, sem deixar de se renovar continuamente.
Cabe mencionar primeiramente autores cujas obras inaugurais datam da década de 1960, como Dalton Trevisan, que, se de uma parte permanece fiel à forma do conto, de outra, investe ininterruptamente em uma narrativa profanadora, cortante e implacável, de que são exemplos os recentes Violetas e pavões e Desgracida, apontando para a fertilidade de seu imaginário de contista.
Foram, porém, os escritores estreantes nos anos 70, do século 20, que acompanharam a nova situação da literatura brasileira, de que os desafios aqui dispostos resultam. Chico Buarque de Holanda publicou seu primeiro romance, Fazenda modelo, em 1974, alegoria de fundo político que desmontava o “milagre brasileiro” propalado pelo regime militar. Seus investimentos literários subseqüentes foram Estorvo, de 1991, e Benjamin, de 1995, propostas, sobretudo a primeira, de linhagem experimental, sendo a cronologia movida pelo fluxo da memória e pelos distúrbios emocionais do protagonista. Dez anos depois, Buarque afina-se ao pendor intertextualista da literatura, publicando o multipremiado Budapeste, de 2004; mas o ficcionista dá novo giro à sua prosa, lançando, em 2009, Leite derramado, romance em que trava um debate com a tradição do romance brasileiro, encarnada em Machado de Assis e Oswald de Andrade. Cristovão Tezza começou a publicar seus primeiros livros nos anos 1980, tendo alcançado a maturidade desejada na primeira década do século 21. Exemplos são tanto O fotógrafo, de 2004, quanto o bem-sucedido O filho eterno, de 2007, romance em que se diluem as fronteiras entre a memória e a fantasia, e entre a história e a ficção.
Milton Hatoum talvez possa representar o melhor exemplo de inovação e impacto nos anos 1990, quando lançou o romance Relato de um certo Oriente, mescla de narrativa memorialista, metaficção historiográfica e discussão das possibilidades de representação do exotismo tropical. Dois irmãos, de 2000, e Cinzas do Norte, de 2005, dão continuidade à carreira exitosa, de repercussão internacional, a que se seguem as publicações recentes do autor: Órfãos do Eldorado, de 2008, e A cidade ilhada, de 2009.
A última década deu vazão a uma plêiade de novos talentos, podendo-se destacar os seguintes nomes, considerados sobretudo aqueles que vêm recebendo prêmios significativos em concursos de repercussão nacional: Bernardo Carvalho, de Nove noites (2002) e Mongólia (2003); Luiz Ruffato, de Eles eram muitos cavalos (2001); Miguel Sanches Neto, de Um amor anarquista (2005) e Chá das cinco com o vampiro (2010); Marcia Tiburi, de Magnólia (2005); Nuno Ramos, artista plástico e escritor, autor de Ó (2008); Maria Esther Maciel, de O livro dos nomes (2008); Amilcar Bettega Barbosa, de Deixe o quarto como está (2002) e Os lados do círculo (2004); Lourenço Mutarelli, de A arte de produzir efeito sem causa (2008); Marcelo Mirisola, de Bangalô (2003) e Animal em extinção (2008); Rodrigo Lacerda, de O mistério do leão rampante (1995), eOutra vida (2009); Michel Laub, de O segundo tempo (2006); Tatiana Salem Levy, de A chave da casa (2007).
Relacionaram-se aqui apenas ficcionistas, e tão somente criadores nascidos entre 1960 e 1980, o que corresponde a uma geração que, em 2010, oscilava entre os trinta e cinqüenta anos de idade. Logo, constituem não apenas a literatura que se faz hoje no país, mas também a que provavelmente continuará ativa nas próximas duas décadas. Ela se depara com outro desafio, o último a se mencionar nesta exposição: dar vazão a uma arte de alcance internacional, sem deixar de se revelar brasileira.
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GAZETA DO POVO. Rascunho. "No horizonte do novo séculoMarca da literatura brasileira" de Regina Zilberman.

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