segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O Globo: Resenha de ‘O homem sem conteúdo’, de Giorgio Agamben




O Globo: Resenha de ‘O homem sem conteúdo’, de Giorgio Agamben



Romero Freitas, no O Globo
O homem sem conteúdo (1970) é o primeiro livro de Giorgio Agamben. Dez ensaios compõem a obra, formando uma estrutura complexa a partir de motivos que se repetem e se sobrepõem, como numa composição polifônica. Os motivos, tomados em si mesmos, não são todos novos. O mais interessante no livro é a segurança no estilo (aos vinte e oito anos, Agamben domina totalmente a forma do ensaio) e a capacidade de articulação de materiais distintos.
Uma questão interessante que se coloca ao leitor, ao tomar contato com esse emaranhado de motivos, é pergunta pelo núcleo central da obra. Haveria, nessa partitura polifônica, um centro tonal? A resposta me parece ser positiva, pois a interdependência dos ensaios é no mínimo tão evidente quanto a sua exuberante diversidade temática. “Sem conteúdo” me parece ser a tonalidade central nessa composição. Pode-se dizer mesmo que essa expressão é mais do que uma parte em um conceito: ela é o próprio conceito. (Algo semelhante ao conceito de “sem expressão” – das Ausdrucklose – no ensaio de Benjamin sobre Goethe).
O primeiro ensaio (“A coisa mais inquietante”) retoma a crítica heideggeriana da estética enquanto ciência da subjetividade. Embora Heidegger não seja citado, é da “destruição da metafísica” que se trata quando Agamben cita Nietzsche, Hölderlin e Artaud a propósito da oposição entre arte como experiência desinteressada e arte como experiência vital. Kant teria dado expressão ao primeiro ponto de vista, ao definir o belo como “prazer desinteressado”. Nietzsche, na Genealogia da moral, zomba de Kant e contrapõe ao desinteresse estético a ideia de um interesse vital: o belo exprimiria essencialmente “uma promessa de felicidade” (como Stendhal havia dito). Ninguém sintetizou de modo mais claro essa crítica do distanciamento estético do que Antonin Artaud em O teatro e seu duplo: “O que nos fez perder a cultura foi nossa ideia ocidental da arte… À nossa ideia inerte e desinteressada da Arte, uma cultura autêntica opõe uma ideia mágica e violentamente egoísta, isto é, interessada”.
Em que pese o excelente ponto de partida para uma discussão estética (“arte como verdade” versus “arte como aparência” – uma oposição que reencontraremos, por exemplo, na crítica da Danto a Greenberg), Agamben negligencia três pontos importantes no que diz respeito a Kant e Nietzsche. 1) Kant, na sua Crítica da Faculdade do Juízo, não trata apenas da beleza como prazer desinteressado, do ponto de vista do espectador; ele também discorre explicitamente sobre o gênio como aquele que “dá a regra à arte” (§ 46), o que evidentemente corresponde ao ponto de vista do artista. 2) Também não é justo dizer que Kant ignora a questão do interesse vital da arte, pois, ao final de sua exposição, Kant define a beleza como “símbolo da moralidade” (§ 59). Pode-se certamente rejeitar o conceito kantiano de moralidade – por exemplo, em favor da ética de Espinosa – mas não se pode dizer, simplesmente, que Kant não articulou arte e moralidade. 3) Nietzsche, na Genealogia da moral, opõe de fato o desinteresse do espectador kantiano às experiências mais interessantes que os artistas têm com as obras (o exemplo de Nietzsche é o escultor Pigmaleão, que se apaixonou pela estátua que ele mesmo criou). Mas, caberia acrescentar, Nietzsche estaria de acordo com Kant quanto ao elemento de jogo que há na obra de arte. A arte é um jogo eticamente interessado, diria Nietzsche, mas ela permanece um jogo. Um jogo com aparências, no qual inclusive a distancia estética será valorizada (Cf. Gaia Ciência, §§ 54, 107, 299).
A oposição entre recepção e produção, entre o gosto e o gênio, é essencial nos três primeiros ensaios do livro (“A coisa mais inquietante”, “Frenhofer e seu duplo”, “O homem de gosto e a dialética da dilaceração”). No quarto (“A câmara das maravilhas”), as coisas se complicam um pouco (e ficam mais interessantes). Pela via da história cultural, Agamben procura se aproximar do tema “morte da arte”. O primeiro ensaio parecia fazer o elogio do produtor em detrimento do receptor. Agora, fica claro que os dois são as duas faces do mesmo “homem sem conteúdo”. “Sem conteúdo” poderia ser, antes, apenas o espectador kantiano, na medida em ele via na obra de arte apenas uma ocasião para o seu prazer estético desinteressado. Por contraste, a demanda de uma arte violentamente interessada nas questões vitais da existência parecia situar o artista num lugar além dessa posição burguesa ou decadente. Entretanto, a comparação entre a câmara das maravilhas (Wunderkammer) no pré-renascimento e a galeria de arte na modernidade lança uma sombra sobre a produção da arte moderna em geral, pois ela coloca em relevo o que se perdeu na “neutralização” ou “museificação” da arte na sociedade secularizada ou desencantada. Agamben cita um exemplo tomado de empréstimo a Huizinga: quando Dionísio, o Cartuxo, entra em uma igreja em que estão a tocar o órgão, ele é imediatamente arrebatado por uma experiência mística; seu êxtase não tem nada de “estético”, no sentido moderno do termo, pois nem lhe passa pela cabeça que essa experiência não seria possível sem o músico que executa a peça e sem o compositor que a criou.
Agamben retoma assim, de um modo original (pois parte de suas leituras de história da arte e da cultura), o tema hegeliano da autossuperação da arte. Se a arte é para nós “coisa do passado” (ein Vergangenes), como dizia Hegel nos Cursos de estética, é porque não temos mais com ela uma experiência ética imediata, como a que se percebe na história de Dionísio, o Cartuxo. Isso não significa que a arte morreu ou chegou ao fim. Significa, antes, que a arte tem na modernidade um desejo insaciável de ir sempre além de si própria, ultrapassando a sua própria essência (a representação do divino na sensibilidade) e criando um mundo fechado de formas autotélicas ou reflexivas, que se espelham numa progressão infinita. Tal é, em poucas palavras, a hipótese hegeliana sobre a arte moderna. Agamben retoma então a distinção entre o espectador e o artista, mostrando como ambos pertencem ao mesmo paradigma estético: ao artista que mergulha no jogo de espelhos da arte autônoma corresponde o espectador que contempla apenas imagens distanciadas do seu contexto vital.
A estética moderna oscilaria entre o Terror, que não pode ser representado na experiência, e a Retórica, que é onipresente no mundo cotidiano, mas já não pertence ao momento atual da história da arte. Forma e conteúdo já não remetem um ao outro. A unidade se desfaz, e, com isso, o espectador sem conteúdo se encontra com o artista sem conteúdo. Nas palavras de Agamben: “Como o espectador, frente à estranheza do princípio criativo, busca, de fato, fixar no Museu o próprio ponto de consistência, no qual a absoluta dilaceração se inverte em absoluta igualdade consigo mesma [...], do mesmo modo o artista, que fez, na criação, a experiência demiúrgica da absoluta liberdade, busca agora objetivar o próprio mundo e possuir a si mesmo. [...] Frente ao espaço estético-metafísico da galeria, um outro espaço se abre que lhe corresponde metafisicamente: aquele puramente mental da tela de Frenhofer, no qual a subjetividade artística sem conteúdo realiza, através de um tipo de operação alquímica, a sua impossível verdade”. Agamben refere-se aqui ao pintor Frenhofer, personagem de Balzac que pretendia produzir a obra de arte absoluta (um duplo perfeito da realidade, que se tornaria ele próprio real – como a estátua de Pigmaleão), mas que produziu apenas um amontoado caótico de cores e linhas, no qual apenas ele vê a imagem da perfeição pretendida. Eis, portanto, o destino da arte “sem conteúdo”: fruição “retórica”, desinteressada nas questões vitais, de um lado; criação “terrorista”, obcecada com o irrepresentável, de outro.

17/12/2012

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O africano, de JM Le Clézio



Todo ser humano é um resultado de pai e mãe. Pode-se não reconhecê-los, não amá-los, pode-se duvidar deles. Mas eles aí estão: seu rosto, suas atitudes, suas maneiras e manias, suas ilusões e esperanças, a forma de suas mãos e de seus dedos do pé, a cor dos olhos e dos cabelos, seu modo de falar, suas idéias, provavelmente a idade de sua morte, tudo isso passou para nós. 

Por muito tempo sonhei que minha mãe era negra. Inventei-me uma história, um passado, para escapar da realidade em meu retorno da África, neste país, nesta cidade onde eu não conhecia ninguém, onde me tornara um estrangeiro. Depois descobri, quando meu pai, na idade da aposentadoria, retornou para viver conosco na França, que o Africano era ele. Foi difícil admitir isso. Tive de voltar atrás, de recomeçar, de tentar compreender. Em memória disso escrevi este pequeno livro. 

O corpo. Tenho coisas a dizer deste rosto que recebi em meu nascimento. Primeiro, foi preciso aceitá-lo. Afirmar que não me agradava seria dar-lhe uma importância que ele não tinha quando eu era criança. Eu não o odiava: ignorava-o, evitava-o. Não o olhava nos espelhos. Durante anos, creio que nunca o vi. Desviava os olhos das fotos, como se alguma outra pessoa tivesse se posto em meu lugar. 




O Africano, de J. M. Le Clézio

Livros - Feira USP 2012






























































Toda Rê Bordosa, do Angeli
Contos plausíveis, de Carlos Drummond de Andrade
Martinha versus Lucrécia, de Roberto Schwarz
Mitologia dos orixás, de Reginaldo Frandi
História do pé, de J M G Le Clézio
O africano, J M G Le Clézio
Mitos, emblemas, sinais, de Carlos Ginzburg
A música do tempo infinito, de Tales Ab´Sáber
Contos reunidos, de João Antônio
Cadernos de Literatura de Adélia Prado
Cadernos de Literatura de Raduan Nassar
Minha bela putana, de Wander Piroli
Avenida Niévski, de Nikolai Gogol
Diomedes, de Lourenço Mutarelli
Formas breves, de Ricardo Piglia
Contos maravilhosos infantis e domésticos, dos irmãos Grimm
A máquina de fazer espanhóis, Valter Hugo Mãe
Ullysses, de James Joyce
Serrote,

PanAmérica, de José Agripino

Ferréz entrevista Bonassi

Dois excelentes escritores contemporâneos em diálogo

Fernando Bonassi

domingo, 28 de outubro de 2012

Ensaio sobre jogo, da revista Serrote

"Virando o jogo", de Daniel Galera para revista Serrote.


http://www.revistaserrote.com.br/2011/06/virando-o-jogo/

Rancho carne, de Daniel Galera



Blog do Daniel Galera


http://ranchocarne.org/

sábado, 18 de agosto de 2012

Ulysses e Paulo Coelho



O livro de Joyce resistiria até hoje construído em torno do vazio?


MARCELO TÁPIA
ESPECIAL PARA A FOLHA
Folha de São Paulo, 17 de agosto de 2012.

Pois é: "Ulysses" está na ordem do dia, novo de novo. O relato sobre o dia 16 de junho de 1904 vivido por Leopold Bloom, Stephen Dedalus e Molly Bloom reaparece questionado em seu "conteúdo". Numa frase: toda a vida e a vida toda cabem nas horas de "Ulysses".

Noventa anos depois de publicado, o livro resistiria por um fator que lhe fosse externo, algo como um "fetiche do difícil", construído em torno do vazio?


A questão está no que se quer encontrar no romance-marco do século 20. Ele não foi feito para ser entretenimento fácil -embora seja divertido- ou de utilidade relativa a carências do leitor, sejam elas quais forem.

Mas nele se encontram o homem comum, a morte, o amor, o ódio, o sexo, o adultério, a carne, a perda de um filho, a razão, o delírio, a mudança, a culpa, a descoberta, a grande aventura do mundo. É difícil e fácil como o mundo, pois criado à semelhança dele.

"Estilo" e "conteúdo" são indissociáveis no texto de Joyce. Nele, a linguagem também é personagem: para cada capítulo, um narrador, um modo de contar e de criar; para o todo, obras, formas, fatos, pensamentos que se cruzam.

Homero e referências díspares de toda a história literária convivem em "Ulysses".

Num dia em que aparentemente pouco acontece, há a chance de um tempo marcante, eterno, que tudo contém. Nele há espaço para um café da manhã, para um enterro, para um sabonete com aroma de limão siciliano.

Para o "pai de todos", por vezes imponente, por vezes uma lânguida flor flutuante; para todo o corpo da mulher, o topete do amante, os carnívoros palitando a dentuça, a cama, a lembrança, o reencontro, a alma, a transmutação, o pai, o filho e o espírito santo.

Como escalar o cume desse dia? Com coragem e alegria. Há diversos meios de acesso; a jornada desafiadora traz recompensas.

Para enxergar as graças de "Ulysses", não se pode caber em si: é preciso enfrentar o indefinido, às vezes indecidível. E, como que por um buraco de fechadura, um mundo excitante, uma história imensa, até aparece, revelando-nos como pode ser imortal o emaranhado da consciência, o enredo da vida e da escrita.

Para evocar uma opinião célebre, leiam-se versos da "Invocação a Joyce", de Jorge Luis Borges, aqui traduzidos: "Que importa nossa covardia se há na terra/um só homem valente,/[...]que importa minha geração perdida,/esse espelho vago,/se teus livros a justificam.[...] Eu sou todos aqueles que teu obstinado rigor resgatou. Sou os que não conheces e os que salvas".

Marcelo Tápia, poeta e tradutor, é doutor em teoria literária pela USP, diretor da Casa Guilherme de Almeida e organizador do Bloomsday em São Paulo.

domingo, 8 de julho de 2012

20 melhores escritores brasileiros - Revista Granta


Revista Granta anuncia os 20 melhores escritores brasileiros durante Flip

Mariane Zendron
Do UOL, em Paraty (RJ)
A revista de literatura Granta anunciou na tarde desta quinta-feira (5), em Paraty, os 20 melhores jovens autores brasileiros. Essa é a primeira vez que a revista de língua inglesa, uma das mais respeitadas do mundo, divulga uma lista com autores do Brasil. Aqui, a Granta é publicada pelo selo Alfaguara, que pertence à editora Objetiva.
Os vinte escritores são Cristhiano Aguiar, Javier Arancibia, Vanessa Barbara, Carol Bensimon, Miguel Del Castillo, João Paulo Cuenca, Laura Erber, Emilio Fraia, Julián Fuks, Daniel Galera, Luisa Geisler, Vinicius Jatobá, Michel Laub, Ricardo Lísias, Chico Mattoso, Antônio Prata, Carola Saavedra, Tatiana Salem Levy, Leandro Sarmatz e Antônio Xerxenesky.
O evento para divulgar os nomes, realizado na Casa da Cultura da cidade fluminense, contou com a presença do editor da Granta inglesa, John Freeman, Roberto Feith, diretor-geral da editora Objetiva, e Marcelo Ferroni, editor de Granta em português e do selo Alfaguara. “Trata-se de uma coletânea vibrante, diversa e moderna,” disse Feith. “[A lista] indica nomes que irão construir o mapa da literatura brasileira”. A primeira livraria a vender a Granta com textos dos autores nacionais será a Livraria da Vila em Paraty para depois serem distribuídas a outras livrarias do Brasil.
Para chegar aos 20 nomes, os sete jurados – Beatriz Bracher, Benjamim Moser, Cristovão Tezza, Italo Moriconi, Manuel da Costa Pinto, Marcelo Ferroni e Samuel Titan Jr – avaliaram 247 textos inéditos. Os autores que concorreram precisavam ter, obrigatoriamente, menos de 40 anos e já contarem com textos previamente publicados por alguma editora. “Tudo foi decido por votação e consenso. Houve algumas discussões acaloradas, mas tudo foi resolvido tranquilamente”, falou o jurado Marcelo Ferroni.
Desde 1983, a cada dez anos, Granta publica um número intitulado “Os Melhores Jovens Escritores Britânicos”. Cada edição da Granta reúne textos inéditos de ficção e não ficção de nomes como Julian Barnes, Mario Vargas Llosa, Milan Kundera, Gabriel García Márquez e Joyce Carol Oates.

Imagens da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) 2012

Foto 26 de 31 - Os escritores Alexandre Pimentel e Silvia Castrillon na Mesa Zé Kleber (5/7/12)Adriano Vizoni/Folhapress
Veja abaixo as biografias dos 20 autores brasileiros escolhidos para a Granta:
Cristhiano Aguiar nasceu em Campina Grande, Paraíba, e formou-se em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco. Tem 31 anos. Em 2006, publicou o livro de contos "Ao lado do muro" (Dinâmica) e em 2007 venceu o Prêmio Osman Lins de contos. Lançou, em 2010, durante a FreePorto (PE), o folheto de narrativas "Os justos", em edição artesanal pela Moinhos de Vento. É colaborador do suplemento literário Pernambuco. Editou a revista de arte e cultura pop Eita! (http://issuu.com/revistaeita) e a revista literária Crispim (www.revistacrispim.com.br). Foi curador e coordenador do Festival Recifense de Literatura e coorganizou a antologia de contos "Tempo bom" (Ed. Iluminuras). Atualmente trabalha em seu primeiro romance e em ensaios sobre literatura brasileira contemporânea. “Teresa” faz parte de Silêncio, livro de contos inédito.
Javier Arancibia Contreras nasceu em Salvador, BA, após sua família migrar do Chile durante o período de ditadura militar, mas vive desde a adolescência em Santos, SP. Escreveu os romances "Imóbile" (Editora 7Letras, 2008), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e "O dia em que eu deveria ter morrido" (Editora Terceiro Nome, 2010), premiado com uma bolsa literária do Governo do Estado de São Paulo. É também roteirista de cinema e, durante os anos em que trabalhou como repórter policial, escreveu um livro-reportagem/ensaio biográfico sobre o dramaturgo Plínio Marcos ("A crônica dos que não têm voz", Boitempo Editorial, 2002).
Vanessa Barbara nasceu em junho de 1982 no bairro do Mandaqui, em São Paulo. É jornalista, tradutora e escritora. Publicou "O livro amarelo do terminal" (Cosac Naify, 2008, prêmio Jabuti de Reportagem), o romance "O verão do Chibo" (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil "Endrigo, o escavador de umbigo" (Editora 34, 2011), ilustrado por Andrés Sandoval. Como tradutora, recentemente lançou sua versão de "O grande Gatsby" (Penguin/Companhia das Letras). É editora do site A hortaliça (www.hortifruti.orge cronista do jornal Folha de S.Paulo. "Noites de alface" é um trecho de seu próximo romance.
Carol Bensimon nasceu em 22 de agosto de 1982, em Porto Alegre. Fez mestrado em escrita criativa na PUC-RS e viveu dois anos em Paris. Alguns de seus contos foram publicados em revistas e coletâneas. Seu primeiro livro de ficção, composto por três novelas, é "Pó de parede" (Não Editora, 2008). Em 2009, publicou pela Companhia das Letras o romance "Sinuca embaixo d’água", finalista dos prêmios São Paulo, Jabuti e Bravo!. O trecho publicado em Granta faz parte de seu novo romance, Faíscas.
Filho de pai uruguaio e mãe carioca, Miguel Del Castillo nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em arquitetura pela PUC-Rio e mudou-se para São Paulo em 2010, onde atualmente é editor da Cosac Naify. Foi editor da revista Noz, de arquitetura e cultura, e recebeu o prêmio Paulo Britto de Poesia e Prosa com o conto “Carta para Ana”, publicado na Antologia de prosa Plástico Bolha (Editora Oito e Meio, 2010). Tem 25 anos e trabalha, atualmente, em seu primeiro livro de contos, do qual “Violeta” faz parte.
João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior e é autor dos romances "Corpo presente" (Planeta, 2003), "O dia Mastroianni" (Agir, 2007) e "O único final feliz para uma história de amor é um acidente" (Companhia das Letras, 2010), publicado também em Portugal, na Espanha e na Alemanha. Em 2007, foi selecionado pelo Festival de Hay e pela organização do festival Bogotá Capital Mundial do Livro como um dos 39 autores mais destacados da América Latina com menos de 39 anos. “Antes da queda” faz parte de seu próximo romance, a ser publicado em 2013.
Laura Erber nasceu em 1979 e mora no Rio de Janeiro. É artista visual, formada em letras, com doutorado em literatura pela PUC-Rio, foi escritora em residência na Akademie Schloss Solitude de Stuttgart e no Pen Center de Antuérpia. Publicou contos e ensaios em diversas revistas e tem quatro livros de poesia, entre eles "Insones" (7Letras, 2002) e "Os corpos e os dias" (Editora de Cultura, 2008), finalista do Prêmio Jabuti na categoria poesia. Prepara um livro sobre Ghérasim Luca pela Eduerj e, atualmente, trabalha em seu primeiro romance, "Os esquilos de Pavlov", a ser publicado pela Alfaguara em 2013.
Emilio Fraia é editor de literatura da editora Cosac Naify. Publicou no Brasil autores como Enrique Vila-Matas, Antonio Tabucchi, Macedonio Fernández e William Kennedy. Nasceu em São Paulo em 1982. Como jornalista, foi repórter das revistas Piauí e Trip. Escreveu, em parceria com Vanessa Barbara, o romance "O verão do Chibo" (Alfaguara, 2008), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e atualmente termina a graphic novel "Campo em branco" (Companhia das Letras) com o ilustrador DW Ribatski.
Julián Fuks nasceu em novembro de 1981, em São Paulo. Filho de pais argentinos, foi repórter da Folha de S. Paulo e resenhista da revista Cult, além de publicar contos em diversas revistas e na antologia Primos: histórias da herança árabe e judaica (Record, 2010). É autor de "Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu" (7Letras, 2004), "Histórias de literatura e cegueira {Borges, João Cabral e Joyce}" (Record, 2007), finalista dos prêmios Portugal Telecom e Jabuti, eProcura do romance (Record, 2011).
Daniel Galera nasceu em 1979, em São Paulo, mas passou a maior parte da vida em Porto Alegre. É um dos criadores da editora Livros do Mal, pela qual publicou o volume de contos "Dentes guardados" (2001). É autor dos romances "Até o dia em que o cão morreu" (Livros do Mal, 2003), adaptado para o cinema, "Mãos de cavalo" (Companhia das Letras, 2006), publicado também na Itália, na França, em Portugal e na Argentina, e "Cordilheira" (Companhia das Letras, 2008), vencedor do Prêmio Machado de Assis de Romance, da Fundação Biblioteca Nacional. Em conjunto com o desenhista Rafael Coutinho, publicou em 2010 a graphic novel "Cachalote". “Apneia” faz parte de um romance em andamento.
O livro de estreia de Luisa Geisler — Contos de mentira(Record, 2011) — foi escolhido pelo Prêmio SESC de Literatura 2010/2011 na categoria conto. No ano seguinte, o mesmo prêmio escolheu sua novela de estreia — "Quiçá" (Record, 2012) — na categoria romance. Atualmente, ela é colunista da página final da revista Capricho. Luisa nasceu em 1991 em Canoas, RS. Contudo, passa boa parte do seu tempo em Porto Alegre, estudando Ciências Sociais (UFRGS) e Relações Internacionais (ESPM/RS), e escrevendo sentada no chão do metrô.
Vinicius Jatobá nasceu em 1980, no Rio de Janeiro. É mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio e estudou roteiro e direção na New York Film Academy (NYFA). Como crítico literário, colabora com os suplementos “Sabático” (O Estado de S. Paulo), “Prosa & Verso” (O Globo) e na revista Carta Capital. Participou com contos na antologia Prosas Cariocas(Casa da Palavra) e no catálogo de cinema 68 Cinema Utopia Revolução (Caixa Cultural São Paulo). Publicou ficção, crônicas e jornalismo em sites e revistas como EntreLivros, NoMínimo, Rascunho e Terra Magazine, onde foi colunista de livros e de cinema. Escreveu e dirigiu diversos curtas, entre eles "Alta Solidão" (2010) e "Vida entre os mamíferos" (2011). Trabalha em seu primeiro romance, "Pés Descalços", e finaliza a reunião de contos "Apenas o vento", de onde “Natureza--Morta” foi retirado.
Escritor e jornalista, Michel Laub publicou cinco romances, todos pela Companhia das Letras. Entre eles, "Longe da água" (2004), publicado também na Argentina (EDUCC), "O segundo tempo" (2006) e "Diário da queda" (2011), que teve os direitos vendidos para o cinema, recebeu os prêmios Brasília e Bravo/Bradesco e sairá na Alemanha (Klett-Cotta), Espanha (Mondadori), França (Buchet/Chastel) e Inglaterra (Vintage). Nasceu em Porto Alegre, em 1973, e vive atualmente em São Paulo.
Ricardo Lísias nasceu em 1975, em São Paulo. É autor de "Anna O. e outras novelas" (Globo), finalista do Prêmio Jabuti de 2008, "Cobertor de estrelas" (Rocco), traduzido para o espanhol e o galego, "Duas praças" (Globo), terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira de 2006, e "O livro dos mandarins" (Alfaguara), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010, atualmente sendo traduzido para o italiano. Em 2012, publicou o romance "O céu dos suicidas" (Alfaguara). Seus textos já foram publicados também na revista Piauí e nas edições 2 e 6 de Granta em português.
Chico Mattoso nasceu na França, em 1978, mas sempre viveu em São Paulo. Formado em  letras pela USP, foi um dos editores da revista Ácaro e tem textos publicados em diversos jornais e revistas. Longe de Ramiro (Editora 34, 2007), seu primeiro romance, foi finalista do prêmio Jabuti. Em 2011, publicou pela Companhia das Letras seu segundo livro, "Nunca vai embora". Também trabalha como roteirista. Mora atualmente em Chicago, onde estuda escrita dramática na Northwestern University.
Antonio Prata nasceu em 1977, em São Paulo, e tem nove livros publicados, entre eles "Douglas" (Azougue Editorial, 2001), "As pernas da tia Corália" (Objetiva, 2003), "Adulterado" (Moderna, 2009) e, mais recentemente, "Meio intelectual, meio de esquerda" (Editora 34,2010), que reúne crônicas publicadas em jornais e revistas. Mantém uma coluna às quartas no caderno “Cotidiano” do jornal Folha de S.Paulo e escreve para televisão.
Carola Saavedra nasceu no Chile, em 1973, mas aos três anos de idade se mudou para o Brasil. Morou na Espanha, na França e na Alemanha, onde concluiu um mestrado em comunicação. Vive atualmente no Rio de Janeiro. É autora do livro de contos "Do lado de fora" (7Letras, 2005) e dos romances "Toda terça" (2007), "Flores azuis" (2008 — eleito melhor romance pela Associação Paulista de Críticos de Arte) e "Paisagem com dromedário" (2010 —Prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor), publicados pela Companhia das Letras.
Tatiana Salem Levy é escritora, tradutora e doutora em estudos de literatura pela PUC-Rio. É autora do ensaio "A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze" (Civilização Brasileira, 2011) e dos romances "A chave de casa" (Record, 2007) — vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, categoria romance de estreia, e publicado também em Portugal, França, Espanha, Itália, Turquia e Romênia — e "Dois rios" (Record, 2011), que sairá em breve em Portugal e na Itália. Nasceu em Lisboa, em 1979, e vive no Rio de Janeiro.
Leandro Sarmatz vive em São Paulo desde 2001, onde trabalhou nas editoras Abril e Ática, e atualmente trabalha na Companhia das Letras, editando, entre outros autores, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e Otto Lara Resende. É poeta, contista, dramaturgo e nasceu em Porto Alegre em 1973. Mestre em Teoria Literária, é autor da peça "Mães & sogras" (IEL, 2000), dos poemas de "Logocausto "(Editora da Casa, 2009) e dos contos reunidos em "Uma fome" (Record, 2010).
Ficcionista nascido em 1984, em Porto Alegre, Antônio Xerxenesky formou-se em letras e é mestre em literatura comparada pela UFRGS. Colabora com resenhas e críticas para diversos jornais e revistas e foi um dos fundadores da Não Editora, em 2007, por onde lançou seu primeiro romance, "Areia nos dentes", em 2008. Seu livro mais recente é a coletânea de contos "A página assombrada por fantasmas", editado pela Rocco em 2011. O texto selecionado faz parte de seu novo romance, "F para Welles".

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Meu tio Roseno, a cavalo


[Meu tio Roseno, a cavalo, de Wilson Bueno. A beleza dessa prosa tão sul, e tão Brasil. Sigo na garupa desse tio, que na garupa do cavalo, vaga por paisagens gaúchas e vive aventura com índios, mortos, circenses, sempre com o pensamento na filha de singular nome dado por uma cigana - Andradazil - que nascerá, e conforme profecia e desejo seu será uma guerreira messiânica. Tio Roseno, que deveria ser "Rosendo", já que muda de nome no livro cada vez que é citado. Os volteios poéticos da prosa de Wilson Bueno flui e soa roseano, e talvez seja a chave para o nome do tio à cavalo, já que "Guimarães" significa justamente cavalo de combate. Andradazil, sua donzela-guerreira, sua Diadorim?

Wilson Bueno, no entanto, não se entrega aos neologismos, seus caminhos são os termos populares, orais, mastigados no sertão de baixo, nos pampas, no entre fronteiras: Paraguay e Argentina. É um livro curto (84 páginas) e eu o leio lento, fruindo a paisagem, as imagens, o pensamento, no ritmo às vezes trote outras de galope, sonoras patas cantantes de Wilson Bueno, eu viajo na garupa do tio Roseno.]

Fragmento

Coaxante, mirim se esfalfa o grulhar da saparia. até o Zaino afina as ventas, arisco, investigando o ar com o focinho, inquietos os cascos esperimentando o andado do chão. Há por perto a lagoa da Gruxuvira, mutante, provisória sempre, alimentada em exclusivo das águas das chuvas, a cada hora e a cada vez. Roseante, o cavaleiro, parece sente do cavalo o sangue fluir. Pelo lado de dentro das coxas, que encostam à barrigueira, chega a lhe adivinhar o suor ainda não vertido, e também seus humores, ao todo do corpo enganchado nele feito a ostra e a entranha. (p. 23).

Recado do nome, de Ana Maria Machado


João Guimarães Rosa, aliás, utiliza diversos anagramas por sua obra afora. Por exemplo: Mauriss Aragão, Sá Araújo Negrim, Romaguari Sães (v. Ave, palavra). E , em Tutameia, esconde-se pelo meio do índice: as iniciais dos títulos dos quatro prefácios formam seu prenome em alemão (Hans), havendo apenas dois contos que fogem à ordem alfabética que regula os títulos, e se colocam em seguida ao da letra J ("João Porém, o Criador de Perus"); "Grande Gedeão" e "Reminisção", justamente suas iniciais, JGR. Assinalando o ponto de ruptura da ordem alfabética, fica um aviso no índice: Hiato: intruge-se JGR lá nas campinas. Ainda a respeito de exploração de seu próprio nome, vale citar trecho de uma carta sua a Curt Meyer-Clason: "O que digo é sincero, nada demagógico, poderia jurá-lo pelo corcel do jagunço Riobaldo, os quais, indissolúveis, vêm a ser um Weihs Mahr ('cavaleiro combatente' ou 'cavalo de combate') - que, conforme vejo num léxico etimológico, e passando por Wimara, Guimara, foi o primitivo nome de Guimarães".


Para quem um dia se aventurar a ler Guimarães Rosa, minha dica é passar antes por esse livro que é um dos estudos mais extraordinários e geniais que podem existir. Digo isso, porque ele explodiu minha cabeça, sobre a grandeza de Rosa, mas também sobre a capacidade de sentidos dessa arte que tanto admiro e que me possibilitou meu ganha pão: a Literatura.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

A xícara, de Dan Alves Pereira


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Resenha de Como funciona a ficção, por Flora Sussekind


Flora Süssekind resenha Como funciona a ficção, de James Wood

Há uma dimensão quase farsesca no pragmatismo crítico de James Wood. Se é que se pode chamar de “crítica” uma reaplicação anacronizante e redutora (em geral, sem qualquer crédito) de categorias e perspectivas analíticas alheias como a que move o livro “Como funciona a ficção”. Algo, de fato, soa falso desde a epígrafe auto-irônica, evocando culinária (mas, com nobreza, via Henry James), e a introdução tratando o próprio ensaio de “manual” e “livrinho”. Pois, geminada a esse topos da despretensão, ao didatismo do guia de apreciação literária, que se deseja, em (condescendente) linguagem terra-a-terra, de algum uso para o leitor comum, há uma primeira pessoa fortemente impositiva, e incapaz de autoproblematização, conduzindo tanto a exibição de uma espécie de florilégio do cânone moderno, quanto um elogio pouco velado à própria capacidade de distinguir o “engenhoso” do “realmente interessante” e de resolver “de forma prática” as questões teóricas fundamentais sobre a ficção a que a “teoria literária e a crítica acadêmica”, a seu ver, não teriam chegado a responder “muito bem”.

A crítica universitária e a reflexão teórica não à toa aparecem como antagonistas desde as primeiras páginas de seu manual. Mas antagonistas que funcionam como desconfortáveis pontos cegos de um crítico que procura deslizar com estilizada naturalidade, e sem maiores paradas reflexivas, pelas questões de narrativa e teoria da ficção que mal deixa virem à tona em seu texto. “Quando um estilo se decompõe, se aplaina num gênero”, diz Wood, a certa altura, sobre o realismo comercial. Se haveria o que discutir nas noções woodianas de estilo, realismo e gênero, há algo nessa observação que parece se voltar contra seu autor. Quando a crítica se decompõe, e perde a reflexividade que a define, pode se aplainar em florilégio e manual. Assim como conceitos e questões, descontextualizados, perdem força cognitiva e viram vocabulário vip para leitores cultivados.

É assim que extrai de Erich Auerbach a noção de mescla de estilos e a concepção de mimesis (que não chega, porém, a definir de fato em momento algum) por meio das quais procura definir o realismo moderno; é em Chklovski, e em suas considerações sobre a imagem poética, que (sem dizer) procura ancorar, mas em sentido oposto ao da desfamiliarização, um elogio à metáfora, “pequena explosão de ficção dentro da ficção”, que “cria um estranhamento e logo em seguida faz uma conexão”; as observações sobre ponto de vista presentes em “Como funciona a ficção” apontam, por sua vez, diretamente para Wayne Booth; e é de estudiosos como Ann Banfield, Genette e Roy Pascal, dentre outros, que toma emprestada (mas achatando-a) a discussão sobre o estilo indireto livre, que parece guiar suas considerações sobre aproximação e distância focal entre autor e personagem. Mesmo quando os empréstimos são óbvios, não há qualquer discussão dos estudos modernos e contemporâneos mais relevantes sobre narratologia e ficção. Wolfgang Iser ou Mieke Bal, para ficar em dois exemplos de leitura obrigatória em qualquer universidade, não recebem sequer referência em nota.

Resta apenas a admiração meio vaga por Barthes e Chklovski. E, dado curioso, e certamente não gratuito, não há qualquer menção, por parte de Wood, em todo o livro, a Dorrit Cohn, professora em Harvard, como ele, e uma das mais importantes estudiosas atuais dos modos narrativos de representação da consciência. O silêncio, nesse caso, parecendo se aproximar de certa ironia (igualmente meio velada) com relação a John Updike, que o antecedeu como resenhista literário na revista “The New Yorker”. Pois se a dualidade e os jogos focais entre narrador e personagem são fundamentais à visão woodiana de ficção narrativa, não parece haver lugar para mais de um ponto de vista em sua prática crítica. Ou para maiores flexibilidades e indeterminações na voz didático-autoral que figura para si mesmo no ensaio em que, paradoxalmente, tematiza o estilo indireto livre.

O procedimento-guia de todo o livro é, também, sempre idêntico. Sugerem-se temas interligados — narrativa, olhar, personagem, detalhe, diálogo, empatia, consciência, realismo e assim por diante — e, sem maiores investigações históricas ou conceituais, passa-se a algum tipo de exercício de “close reading” no qual, mais do que iluminar analiticamente os trechos escolhidos, em sua maioria verdadeiros lugares comuns da crítica moderna (Flaubert, Virginia Woolf, Henry James, Kafka, Tolstoi), procura-se ressaltar sobretudo a voz de mestre, a “capacidade de ver e relatar o que vê” do crítico. Uma visão da qual se procura excluir o “projeto literário contemporâneo”, como se refere a ele o crítico. À exceção de um ou outro exemplo já canônico, como Saul Bellow, a cuja obra James Wood tem se dedicado regularmente. O que não deixa de ser curioso, sobretudo num crítico dedicado desde jovem ao jornalismo literário, primeiro nos suplementos ingleses, depois nos EUA, na “The New Republic” e atualmente na “The New Yorker”. Ao lado do impasse teórico-reflexivo, a contemporaneidade parece se apresentar como um segundo ponto cego que poderia forçá-lo a repensar conceitos, procedimentos narrativos, a redefinir o horizonte ficcional com o qual se defronta, embate que certamente desestabilizaria o seu ensaísmo, que, em vez de pautado em naturalidades e certezas-padrão, exporia o seu “leitor comum” a uma desfamiliarização com potencial crítico bem maior do que o oferecido pelo guia recém lançado pela Cosac Naify.


Como funciona a ficção, de James Wood. Tradução de Denise Bottmann. Editora Cosac Naify, 232 páginas. R$ 49.


*FLORA SÜSSEKIND é crítica literária, pesquisadora da Fundação Casa de Rui Barbosa, professora de teoria do teatro da UNI-Rio e autora de “A voz e a série” e “O Brasil não é longe daqui”, entre outros.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Vários livros comprados numa só tacada


"No horizonte do novo século - Marca da literatura brasileira", artigo de Regina Zilberman.


(...)
4. Inovação e renovação literária
Supõe-se que o único compromisso de um autor de obras literárias, sejam elas de natureza lírica, narrativa ou dramática, seja com sua própria arte. Essa, por sua vez, pode nascer espontaneamente, mas depara-se com alguns horizontes, entre os quais se reconhece a imposição do cânone. Formatado por distintas tradições — a nacional, a internacional, a linguística, a estética —, o cânone aparece na condição de um desafio e, sobretudo, de um enigma, que o artista deve decifrar, sob pena de ser devorado, por não saber fazê-lo ou não ser bem-sucedido.

O cânone, por muito tempo, requereu sua própria reprodução. Distintos classicismos empenharam-se na afirmação de normas e paradigmas a que cabia obedecer e dar seqüência. Os modernismos e as vanguardas inverteram a ordem: o cânone aí está para ser desacatado, rejeitado e desconstruído.
O ímpeto revolucionário das primeiras décadas do século 20 pode ter arrefecido à medida que os decênios se passaram. Não desapareceu, porém, do horizonte do campo literário, induzindo cada artista, de uma parte, a inovar, se comparado com seus contemporâneos e predecessores, de outra, a renovar-se permanentemente, se examinada sua trajetória artística ao longo do tempo. Diante dessa provocação, e sobretudo quando somada ou cotejada aos desafios anteriores, não se pode negar que as novas gerações de escritores brasileiros têm apresentado inovações substanciais, sem deixar de se renovar continuamente.
Cabe mencionar primeiramente autores cujas obras inaugurais datam da década de 1960, como Dalton Trevisan, que, se de uma parte permanece fiel à forma do conto, de outra, investe ininterruptamente em uma narrativa profanadora, cortante e implacável, de que são exemplos os recentes Violetas e pavões e Desgracida, apontando para a fertilidade de seu imaginário de contista.
Foram, porém, os escritores estreantes nos anos 70, do século 20, que acompanharam a nova situação da literatura brasileira, de que os desafios aqui dispostos resultam. Chico Buarque de Holanda publicou seu primeiro romance, Fazenda modelo, em 1974, alegoria de fundo político que desmontava o “milagre brasileiro” propalado pelo regime militar. Seus investimentos literários subseqüentes foram Estorvo, de 1991, e Benjamin, de 1995, propostas, sobretudo a primeira, de linhagem experimental, sendo a cronologia movida pelo fluxo da memória e pelos distúrbios emocionais do protagonista. Dez anos depois, Buarque afina-se ao pendor intertextualista da literatura, publicando o multipremiado Budapeste, de 2004; mas o ficcionista dá novo giro à sua prosa, lançando, em 2009, Leite derramado, romance em que trava um debate com a tradição do romance brasileiro, encarnada em Machado de Assis e Oswald de Andrade. Cristovão Tezza começou a publicar seus primeiros livros nos anos 1980, tendo alcançado a maturidade desejada na primeira década do século 21. Exemplos são tanto O fotógrafo, de 2004, quanto o bem-sucedido O filho eterno, de 2007, romance em que se diluem as fronteiras entre a memória e a fantasia, e entre a história e a ficção.
Milton Hatoum talvez possa representar o melhor exemplo de inovação e impacto nos anos 1990, quando lançou o romance Relato de um certo Oriente, mescla de narrativa memorialista, metaficção historiográfica e discussão das possibilidades de representação do exotismo tropical. Dois irmãos, de 2000, e Cinzas do Norte, de 2005, dão continuidade à carreira exitosa, de repercussão internacional, a que se seguem as publicações recentes do autor: Órfãos do Eldorado, de 2008, e A cidade ilhada, de 2009.
A última década deu vazão a uma plêiade de novos talentos, podendo-se destacar os seguintes nomes, considerados sobretudo aqueles que vêm recebendo prêmios significativos em concursos de repercussão nacional: Bernardo Carvalho, de Nove noites (2002) e Mongólia (2003); Luiz Ruffato, de Eles eram muitos cavalos (2001); Miguel Sanches Neto, de Um amor anarquista (2005) e Chá das cinco com o vampiro (2010); Marcia Tiburi, de Magnólia (2005); Nuno Ramos, artista plástico e escritor, autor de Ó (2008); Maria Esther Maciel, de O livro dos nomes (2008); Amilcar Bettega Barbosa, de Deixe o quarto como está (2002) e Os lados do círculo (2004); Lourenço Mutarelli, de A arte de produzir efeito sem causa (2008); Marcelo Mirisola, de Bangalô (2003) e Animal em extinção (2008); Rodrigo Lacerda, de O mistério do leão rampante (1995), eOutra vida (2009); Michel Laub, de O segundo tempo (2006); Tatiana Salem Levy, de A chave da casa (2007).
Relacionaram-se aqui apenas ficcionistas, e tão somente criadores nascidos entre 1960 e 1980, o que corresponde a uma geração que, em 2010, oscilava entre os trinta e cinqüenta anos de idade. Logo, constituem não apenas a literatura que se faz hoje no país, mas também a que provavelmente continuará ativa nas próximas duas décadas. Ela se depara com outro desafio, o último a se mencionar nesta exposição: dar vazão a uma arte de alcance internacional, sem deixar de se revelar brasileira.
(...)
GAZETA DO POVO. Rascunho. "No horizonte do novo séculoMarca da literatura brasileira" de Regina Zilberman.

Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

Estudando os contistas pós-utopicos ou as novas formas
da Literatura Brasileira.

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