segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Resenha para antologia GERAÇÃO ZERO ZERO, de Nelson de Oliveira


Beatriz Resende resenha antologia 'Geração Zero Zero'

Geração Zero Zero: Fricções em rede, organização de Nelson de Oliveira. Editora Língua Geral, 408 páginas. R$ 45
Por Beatriz Resende
Nelson de Oliveira tem exercido papel fundamental na divulgação e promoção da literatura brasileira contemporânea. Jogando sua rede de tempos em tempos, vai colhendo novos autores, especialmente os que praticam a prosa de ficção e se destacam dentre os que surgem. Assim, ao mesmo tempo em que desenvolve sua já premiada carreira como escritor, organiza antologias decisivas, chegando agora à terceira: “Geração Zero Zero: Fricções em rede”. 

“Geração 90: Manuscritos de computador” (Boitempo), dedicada aos contistas brasileiros que começaram a publicar no final do século passado, foi a primeira a ligar o texto a seu suporte ou forma de produção. Ali, tratava de autores que já começaram a escrever diretamente em um computador. O elenco é admirável e muitos deles se tornaram senão parte do cânone, autores consagrados pela crítica e pelos leitores. No conto “Céu negro”, de Rubens Figueiredo, incluído ali, começava a ser gestado o mais recente e excelente romance do autor, “Passageiro do fim do dia”. Na apresentação do livro, Nelson de Oliveira constatava que em sua seleção de 16 homens e uma mulher os “excêntricos” não participavam, perguntando-se se a “literatura não seria uma forma de arte restrita aos donos do poder e aos que vivem sob sua guarda”. 

Talvez por este estranhamento diante do poder constituído na república das letras, Nelson de Oliveira tenha optado por escolher como peneira, no momento seguinte, o que considerou transgressão em volume intitulado “Geração 90: Os transgressores” (Boitempo). Foi justamente esta designação que provocou mais polêmica em torno da antologia. De que transgressão se tratava? Depois da vanguarda modernista, do desejo oswaldiano de construir uma vida igual à arte, acirrando a proposta de arte igual à vida, transgressão tornou-se termo tão complicado quanto é, neste momento, contemporâneo. Só que o próprio organizador se colocara a salvo ao afirmar, na apresentação, que as classificações funcionam como piadas em festas chatas: na falta de assunto, alegram o ambiente. 

Nesta última seleção, elaborada na segunda metade no século XXI, quando novos autores tiveram não só tempo e oportunidade de aparecer como ocasião e experiência para amadurecerem, o impulso classificatório continua. No processo de catação em terreno formado pelos ficcionistas brasileiros que estrearam na primeira década do novo milênio, o escritor optou pelo “reconhecimento de padrões” ou “regularidade”. Na seleção dos 21 autores do volume entrou em cena um corte temporal: o lançamento no mundo editorial a partir de 2000. Esse corte não corresponde a uma homogeneidade na faixa etária. Tirando Maria Alzira Brum Lemos, sem idade declarada, os mais velhos são o jornalista e contista José Rezende Jr. (1959), que pouco tem a ver com eventuais propostas da geração Zero Zero, e Marne Lúcio Guedes (1960), pouco conhecido, vindo do mundo dos roteiristas e dramaturgos — sua escrita confirma a origem — com o primeiro livro de contos publicado em 2008. Os mais jovens são Daniel Galera, o que é surpreendente por sua sólida carreira e os prêmios importantes que traz na mochila; Walther Moreira Santos, que ainda tem tempo de amadurecer; e Tony Monti, tributário da linguagem da web, o que não é forçosamente mal (são todos de 1979). Dois outros critérios teriam influído: a vida no espaço da web e, nos diz Nelson, o triunfo do bizarro: “há pelo menos um forte ponto de contato entre todos os autores (...): o bizarro.” 

O cyberespaço é importante em alguns casos. Ana Paula Maia colocou os capítulos de seu romance “A guerra dos bastardos” em seu blog e passou da busca por editores à publicação em uma de nossas importantes blockbusters. Foi a participação na web que ajudou João Filho a pular de Bom Jesus da Lapa (BA) para uma mesa na FLIP. Exemplos de como a web pode ser positiva e influente. Mas vários autores não parecem ter especial encanto pela internet. 

Já a ideia de uma bizarrice em comum pode ser instigante. Evidencia-se nos contos originalíssimos (e divertidos) de Andrea Del Fuego, mas é apenas ilusória nos personagens de Ana Paula Maia. Única representante do Rio de Janeiro na convocação predominantemente paulista, a autora traz, como sempre, um universo de homens duros, deformados, de gigantes abobalhados, de cães destroçados. Mas num mundo de homens que devem matar sempre que possível e aos quais nada detém, como no conto do livro, essa realidade exacerbada torna-se crítica, política, e não bizarra. A verdade é que o organizador ficou nos devendo a explicação de conceito tão provocativo. 

Um mérito da antologia é os textos terem sido escritos para a publicação, e o ineditismo na coletânea é um valor oferecido ao leitor. Significa também prestígio e confiança no organizador que retribui gentilmente com mais um critério a nortear as escolhas: “esta não é uma seleção dos melhores contos da geração Zero Zero, mas dos melhores autores”. É com esta generosidade às vezes excessiva que nós, os defensores dos novos escritores, abrimos flanco para questionamentos que podem fazer sentido. 

Toda antologia, toda seleção tem, e deve ter, a marca de seu organizador. Essas são as melhores. A questão do gosto existe e assumi-la é o melhor argumento contra a universalidade dos cânones, contra a afirmação de uma poética única, ditada por seu criador. Mas afirmar que os escolhidos são os melhores é calar a crítica de que muitas vezes precisam. Soa complacente, modernidade liquida. Podemos incluir um autor justamente pela diferença, ou pelo aspecto polêmico, ou por que sinaliza em direção a algo que ainda não se realizou. Isto é próprio da referência ao autor contemporâneo, entendido como aquele que respira o mesmo ar que nós, pode ler os mesmos livros, ver os mesmos filmes, ir às mesmas exposições, aceitar ou recusar tudo isso. Expor os novos autores à fricção que a crítica literária deve provocar também é tarefa de uma seleção dessa importância. 

“Geração Zero Zero” é um mapeamento sério e competente do que tem sido publicado em prosa de ficção nos últimos anos. Porém, sem afirmações como as que o próprio Nelson identifica como de consagração, deixaria mais espaço à evidência da multiplicidade e de propostas estéticas contraditórias. Nem todos os melhores estão no livro, nem poderiam. Sinto falta sobretudo de algumas jovens mulheres, como a romancista Carol Bensimon e a exímia contista e romancista Paloma Vidal, ambas blogueiras, inclusive com a experiência recente de Paloma ao colocar na web um texto dramático apresentado no site “Teatro para alguém”. Mas isso é gosto meu. 

Por outro lado, é tempo de assinalar que autores com escrita da qualidade das de Daniel Galera e Carola Saavedra não deveriam se deixar seduzir tanto pelo mainstream. 

Outros autores confirmam a constância de uma ficção original e de qualidade como Lourenço Mutarelli ou Carlos Henrique Schroeder e Paulo Scott, que já estão criados. Mas há surpresas, mesmo em autores que já tiveram oportunidade de afirmar a importância de sua criação. Verônica Stigger, antenada e maleável, opta pela prática, que vem se mostrando especialmente rentável, das escritas cênicas, e dá a “Mancha” uma forma dramatúrgica que pode ser lida de múltiplas maneiras. E o romancista Santiago Nazarian surpreende novamente em uma de suas bissextas incursões na escrita do conto. Com “Eu sou a menina deste navio”, Santiago parte da conflituosa situação de uma relação homoafetiva entre um capitão e um menino (o filho do cozinheiro) no interior de um navio. Sopram então no navio fantasma, ocupado por Sebastião, Gonzalo e Alonso, ares de “A tempestade”, e o garoto se torna o shakespeareano jovem herdeiro Fernando ou o etéreo e assexuado Ariel. Atravessa a narrativa a fabulação das lendas, de relatos fundacionais, para culminar numa poética do fantástico a que não falta nem mesmo Próspero, com seu ímpeto narrativo, varrendo a tradição literária para dentro da ficção atual. Uma beleza. 

Ao final, fica uma dúvida: não seria esta seleção uma ótima experiência de livro online, no modelo da antologia “Enter”, de Heloisa Buarque de Hollanda, que existe apenas no mundo virtual? Os textos com links para os blogs e revistas virtuais de seus autores formariam uma publicação a ser facilmente acessada em múltiplos espaços e tempos diversos, a preços módicos. Uma forma ainda mais efetiva de promover “fricções em rede”.
BEATRIZ RESENDE é crítica literária, coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ


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