segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Antologias simbolizam a era do marketing literário


18/12/2010 - 10h17

Antologias simbolizam a era do marketing literário

PAULO WERNECK
EDITOR DA ILUSTRÍSSIMA
O subtítulo de uma das polêmicas antologias "Geração 90"pretendia explicar a origem comum entre os escritores ali reunidos: "Manuscritos de computador". Na década seguinte, foco da antologia "Zero Zero", o computador de fato se mostraria central --ironicamente, não para a produção, mas para o marketing literário.
Com a polêmica, logo foi abandonada a defesa dos motes das antologias "Geração 90"("manuscritos de computador" e "os transgressores"). Adotou-se o argumento sem pejo de que se tratava de "marketing", igual ao das "grandes editoras". Por que não? As antologias seriam obras de vanguarda que se valeriam das armas do capitalismo para subvertê-lo.
A ideia de que escritores e outros intelectuais devem fazer seu marketing é um consenso que se impôs na década de 2000, não apenas no Brasil. Hoje é rotina vermos elogios recebidos sendo "retuitados". A apreciação de textos volta e meia se resume ao sinistro gesto de "curtir" do Facebook, atualização do sinal que os antigos romanos usavam para salvar a pele de um desgraçado das garras de um leão.
Marketing é para editoras e livrarias, não para autores e críticos. Escritores que se escoram no marketing não subvertem o capitalismo, apenas o reiteram e negam o exercício da crítica. Para ter verdade crítica, uma antologia deve identificar movimentos, vetores, sensibilidades compartilhadas por um grupo. É preciso um ensaio de peso, uma revista, um manifesto que justifiquem o batismo de uma nova geração literária.
Escrito por extenso, o título da nova antologia guarda perigosa semelhança com "lero-lero". Embora inclua bons escritores, poderia ter sido montada a partir do que os organizadores "curtiram" no Facebook.
Eis aí uma receita para fabricar "gerações" literárias. Já aguardamos a "Geração 10", que virá em 2020.
Mais do que estimular a difusão da literatura contemporânea, escritores e críticos travestidos de "enfants terribles" marqueteiros acabam por ajudar a transformá-la numa espécie de gênero à parte, que em breve só vai interessar a quem o pratica --como já aconteceu, em outros momentos, com o cinema e a poesia no Brasil.

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