domingo, 29 de maio de 2011

Vitrine, Nuno Ramos

O fazedor, de Jorge Luis Borges


Não é um escritor brasileiro, e sim argentino; contudo, é incontornável citá-lo quando se leva minimamente a sério o que se irá considerar literatura contemporânea.

Nuno Ramos


Leio o espanto.

O pão do corvo, de Nuno Ramos


A descoberta da escritura deste autor, artista plástico reconhecidíssimo, prêmio Jabuti de Literatura. O interesse veio de uma entrevista que vi na teve a cabo, em que ele era apresentado como escritor. O espanto de descobrir um literato rigoroso, com dicção própria, estilo conciso e surpreendente. Contos e microcontos tensos, prenhes de suspense. A presença do insólito mostrado de uma forma diversa, na linha do espanto, entetanto sem espalhafato, sem movimentos de prestidigitador que quer desconcertar a plateia. Prosa de traços poéticos, pesando aqui e ali a força de uma narratividade. Personagens mais próximo de esboços, muitos não nomeados. O predomínio de uma voz em primeira pessoa que conta sempre sobre sua relação com um outro e se constrói a media em que o outro rui. Não me furto a dizer que há nesse livro diversas obras-primas da narrativa curta. Pontuo as minhas: "Eu peço ao vento", "A única chance dela", "Tuas ordens". A experimentação e a beleza inconsútil de "Dentro do pátio sem luz", com seu flerte lascivo com a poesia. Curto. Curtam. 


Embaixo, colo uma resenha da VEJA, de Carlos Graieb

Até agora, o paulistano Nuno Ramos podia ser visto como um artista plástico dotado de habilidade especial para lidar com palavras. Ele havia lançado um livro em 1993, Cujo, no qual demonstrava ter ouvido afiado, talento para articular idéias e criar imagens. Na comparação, talvez deixasse envergonhado muito escritor profissional. Misto de diário e coleção de aforismos, o texto permanecia, no entanto, bastante colado ao trabalho de Ramos no ateliê. Várias páginas eram elucubrações de um escultor às voltas com vidro, areia, asfalto ou breu. Dificilmente o leitor se esquecia de estar diante de um artista cuja maior vocação era expor suas obras na galeria, e não na estante.
Com o lançamento de seu segundo livro, O Pão do Corvo,Nuno Ramos finca os dois pés na literatura. Pode-se notar, é certo, uma continuidade em relação a Cujo. Há trechos de prosa poética em que o autor se debruça com lupa sobre a matéria, analisando sua textura e sua composição, procurando dar à linguagem uma qualidade tátil. A diferença está na dose bem maior de narratividade. Nos dezessete textos curtos do novo livro, Ramos procurou fugir da "experiência pessoal" e deu maior espaço à imaginação. Há brevíssimas fábulas, como Cinza, que fala de um povo misterioso que aguarda a aniquilação pelo fogo. Em outros casos, como Ele Canta, seres fantásticos são descritos. Filosofices sobre arte e a linguagem ainda têm lugar, como em Cujo, mas seu contexto é ficcional. Um vago sabor da literatura de Franz Kafka e Jorge Luis Borges atravessa as páginas.
É difícil situar Ramos entre os autores brasileiros. Ele tem certa afinidade com um Rodrigo Naves ou uma Vilma Arêas, que exploram o microconto. Mas não se deve forçar a comparação. Nuno Ramos começa a conquistar espaço próprio.
Carlos Graieb

domingo, 8 de maio de 2011

NONSENSE e ABSURDO, conceituação literária


O que é o nonsense literário?
  
Nonsense é o não-sentido ou a falta de sentido. Um dicionário inglês-português traduz “nonsense” como disparate, tolice, asneira. Há, em inglês, uma expressão “it’s nonsense”, que corresponde a “é absurdo” em português e se contrapõe à expressão “it makes sense”, “faz sentido”.

No presente artigo me refiro não somente ao sentido comum do termo nonsense. Tratarei aqui do conceito do nonsense literário, que se caracteriza como um gênero específico, tendo suas raízes na literatura inglesa do século XIX com os escritores Lewis Carroll, autor das famosas Alices (Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho), e Edward Lear, autor de Limericks.

Há muitos estudiosos que se dedicaram à pesquisa dessa literatura que influenciou grandemente a literatura moderna do século XX. Vários movimentos literários, como, por exemplo, o Dadaísmo e o Surrealismo, têm algumas de suas raízes no nonsense vitoriano. Joyce buscou o ponto de partida para o seu Finnegans Wake no personagem Humpty Dumpty de Através do Espelho. Os intrigantes diálogos de Alice têm chamado a atenção de filósofos como Sartre e Deleuze e outros em suas reflexões sobre a linguagem.

Segundo Tigges há quatro características que formam a essência do nonsense.

A primeira e mais importante citada pelo pesquisador é que no nonsense há uma constante tensão entre presença e ausência de sentido; e para que um texto seja considerado nonsense, deve manter o equilíbrio entre esses dois pólos até o final (p. 51). Tigges cita também Baacke nesse contexto: “o nonsense permanece sempre, enquanto ligado à linguagem, com pistas de sentido” (p. 33). Por isso o nonsense é mais do que um puro jogo de palavras e também difere da literatura realista ou mimética, onde pode haver uma tensão entre diferentes possibilidades de atribuição de sentido ao texto, mas não uma tensão entre sentido e ausência de sentido (p. 87). Já para Ávila a meta máxima do nonsense seria abolir o sentido, o que revela-se praticamente impossível, se se lida com palavras. O vezo da significação, da evocação e elaboração de sentido já está por demais arraigado na linguagem. O que se tenta fazer no nonsense é driblar o sentido, por meio da justaposição de sentidos parciais e opostos, do solapamento e embaralhamento das várias camadas comunicativas. Não se podendo evitar a criação de sentido, tenta-se evitar seu assentamento a todo custo (p. 115-116).

Caso houvesse esse assentamento do sentido, de que fala Ávila, ocorreria a síntese ou o fim da tensão que, para Tigges, é justamente a característica básica do nonsense, e que este mantém empregando artifícios como, por exemplo, o uso de conclusões arbitrárias nos textos (p. 59) ou omitindo um point2 (p. 57).

A segunda característica que Tigges menciona é que “o nonsense nunca é lírico no sentido real da palavra – não expressa os sentimentos pessoais do autor nem sentimentos comuns por sua boca” (p. 53). Na verdade a única emoção do gênero nonsense, e ao mesmo tempo característica marcante sua, é o isolamento, conforme afirma Tigges (p. 54). Os personagens da literatura nonsense são extremamente solitários; é, via de regra, um indivíduo que se encontra frente a todo um grupo. Isso acontece com Alice, tanto no espaço do país das maravilhas quanto no do outro lado do espelho. Ela precisa se defender contra uma multidão de seres estranhos.

Mas essa solidão não é expressa de modo lírico ou romântico; não leva o leitor à comoção. O nonsense prescinde do emocionalismo. A natureza dessa solidão é a incomunicação, ou seja, a solidão se dá pela incapacidade

(...)

O nonsense e o absurdo

Para falar sobre Kafka no contexto do nonsense literário há que se fazer, primeiramente, uma delimitação clara entre os conceitos de nonsense e de absurdo, termos estes freqüentemente considerados sinônimos, não somente em seu uso cotidiano, popular, mas também por estudiosos da literatura, conforme demonstra Tigges. Ele cita, por exemplo, Haight, para quem “o absurdo é a palavra-chave dos escritores nonsense. Seu cânone inclui Carroll, Lear, Borges, Beckett, Joyce, Ionesco, Rabelais e Aristófanes” (p. 126). Comenta ainda que Byron, Carroll e Lear e a literatura nonsense em geral seriam precursores dos escritores do absurdo, dentre os quais Flaubert, Jarry, Kafka, Ionesco, Beckett, Pinter seriam os principais expoentes (p. 126).

Tigges faz uma distinção sucinta entre os dois conceitos: “No nonsense a linguagem cria a realidade, no absurdo a linguagem representa uma realidade sem sentido” (p. 128). Essa diferenciação fica mais clara quando ele cita Ede, para quem:

os dramaturgos do absurdo se voltaram predominantemente para sentidos
extralingüísticos, ‘usando a linguagem minimamente e então unicamente para
revelar suas imperfeições’, enquanto no nonsense ‘palavras freqüentemente
exercem um poder criativo similar àquele concedido à linguagem em algumas
culturas primitivas’ (p. 129).

Tigges também comenta que “o absurdo é (...) a forma artística que exprime falta de sentido, que é contrário ao propósito do nonsense de evitar completa ausência de sentido”, (p. 130) conforme já mencionei acima. Tigges cita ainda Hinchliffe, para quem o drama absurdo “desafia a audiência a fazer sentido do non-sense”. E quando a própria linguagem é absurda, teria o objetivo de mostrar o desgaste desta como parte do universo humano igualmente deteriorado (p. 130). Tigges checa, em um quadro comparativo dos diversos gêneros próximos ao nonsense, o absurdo com relação às quatro características do nonsense arroladas por ele: a tensão entre sentido e a sua ausência ocorreria às vezes no absurdo; a falta de emoção não seria característica do absurdo; o caráter de jogo também não; a linguagem criando a realidade poderia ocorrer às vezes (p. 137).

Resumindo poderíamos dizer que o absurdo tem um referente ancorado na realidade, ou seja, ele procura expressar a falta de sentido em que se encontra o mundo, ou, nas palavras de Tigges, ele “representa um universo sem sentido” (p. 137), de modo que os textos absurdos desafiam o leitor à reflexão sobre a vida, o mundo, enfim, a atribuir sentido ao texto a partir de referentes externos a ele. Já o nonsense brinca com o sentido/ não-sentido no âmbito da própria linguagem, chamando a atenção unicamente sobre ela, sem recurso a um referente externo. Nesse sentido pode-se dizer que os textos nonsense são fechados em si. Mas não discordo também de Byrom e de Haight mencionados acima, para quem os escritores do absurdo se encontram na tradição da literatura nonsense, pois além da diferenciação estabelecida por Tigges entre os dois gêneros, há pontos em comum entre eles, o que justamente procurarei demonstrar na obra de Kafka, comumente vista como pertencente ao absurdo. Até mesmo para os que não conhecem a fundo a obra de Kafka, o já ratificado adjetivo kafkiano relaciona-se a algo incompreensível, absurdo enfim. Em sua ampla recepção tem sido destacado o aspecto do absurdo na obra de Kafka. Como exemplo gostaria de mencionar aqui o livro de título Cronistas do Absurdo, de Leo Gilson Ribeiro, que contém um ensaio sobre Kafka, dentre outros.
(...)

[Fragmentos do ensaio "A narrativa de Kafka nas bordas do nonsense", de Rosvitha Friesen Blume, brilhante análise sobre o nonsense e o absurdo.]

LINK com artigo integral. 

Orelha para Nada mais foi dito nem perguntado

As treze histórias de Nada mais foi dito nem perguntado parecem ter saído sozinhas dos fóruns, das barras dos tribunais, e se transferido num passe de mágica para as páginas do livro.

Tanta autonomia, tanta vida própria -- como se dispensassem um autor --, é precisamente o principal mérito delas ou do estilo de seu criador, o advogado criminalista, que agora se revela escritor, Luís Francisco Carvalho Filho.

São pequenos contos retirados do universo forense e criminal: interrogatórios de delegacias, análises de processos, julgamentos, defesas, acusações. São parábolas da Justiça: narrativas curtas que reproduzem, com "realismo insubornável" -- para usar o que Otto Maria Carpeaux dizia das descrições de Kafka -- toda a eloqüência literário-teatral inerente ao discurso jurídico e ao próprio sistema penal.

São mesmo pequenas peças de teatro, histórias substantivas, cujos títulos (não à toa) são sempre um substantivo -- "Perna", "Injúria", "Cigarro", "Pederasta" etc. --, e cujo desenrolar se dá em forma de diálogos concisos, tensos e rápidos, num tom que vai do patético ao cômico.

Interessante perceber a argúcia estética com que o olhar observador do advogado se transfigura em golpe de vista literário -- só o narrador como este criado por Luís Francisco, a partir de tanta experiência vivida, pode ser o juiz isento, imparcial, tão almejado pela Justiça, o "não-eu" do realismo, preocupado apenas em apresentar um sinônimo da realidade concreta.

A Justiça fracassa. A literatura não fracassa, eis o que se pode, desde logo, depreender dos pequenos contenciosos judiciais que constituem os enredos dessas histórias deliciosas de ler. A narrativa de Luís Francisco encerra em sua estrutura dramática o questionamento das contradições internas da lei e da Justiça: discute o que é relevante e irrelevante para a busca da verdade ou da correção na dinâmica dos julgamentos e das condenações de homens defeituosos por homens defeituosos.

Todo um universo de linguagem, fatos e episódios desconhecido do cidadão comum sai das misteriosas e tediosas salas de audiência e ganha vida nas histórias desta coletânea. A lei e a Justiça são mostradas aqui no âmago da sua ferida, no que têm de dor e humor, de cacoete e de representação. Os personagens criados pelo escritor -- caricaturas de juízes, advogados, réus, funcionários, investigadores, delegados etc. -- São a expressão mesma dos vícios e paradoxos de um sistema fragilizado, quase falido na sua atuação nos seus duvidosos critérios de interpretação.

Os finais incompletos de todos os contos -- em que nada mais há para ser dito, em que perdura a interrogação, a demora, a inconclusão -- são a confirmação estética de que a Justiça não passa de impossibilidade -- impossibilidade de expressão e de realização.

Enquanto em Kafka o desfecho é, em qualquer caso, que somos fatalmente culpados e condenados à morte, à qual todas as criaturas são condenadas, na literatura de Luís Francisco Carvalho Filho -- e eis aí mais um aspecto da importância histórico-literária de seu texto -- estamos, a maioria de nós, brasileiros, condenados não apenas à morte fatal. A nossa condenação tem o agravante da desigualdade, da insensibilidade, da corrupção da falta de inteligência -- estamos condenados ao nada, ao silêncio aterrador da falta de possibilidade.

Marilene Felinto



[Orelha/introdução de Marilene Felinto para o livro de contos de Luís Francisco Carvalho Filho. Concisa e perspicaz análise desse livro interessantíssimo, que mira numa linguagem sintética, na forma de esquetes/cenas  (com direito à rubricas introdutórias) o "drama" da justiça, com a formalidade de um discurso revelador dos julgamentos que mira contradições do Brasil contemporâneo.]

quinta-feira, 5 de maio de 2011

domingo, 1 de maio de 2011

Autores reagem a comentários de críticos em debate no IMS

Um debate entre os críticos Alcir Pécora e Beatriz Resende publicado no último dia 4 pelo blog do Instituto Moreira Salles irritou escritores brasileiros e desencadeou em blogs e redes sociais uma discussão à qual a própria Beatriz reagiu esta semana anunciando no Facebook que não vai mais escrever sobre literatura contemporânea, da qual se tornou na última década uma das mais conhecidas pesquisadoras no país: “Me enchi desses autores contemporâneos. Vou voltar para o velho Lima, Machado, Guimarães Rosa. Não tem erro e não chateiam ninguém. Se quiser ser moderna, falo de Sarah Kane e outros mortos que já sossegaram o ego.”

É também recorrendo ao campo semântico da encheção e seus variantes mais ou menos polidos que escritores reagem às acusações de compadrio feitas durante o debate do IMS e resumidas de modo mais expressivo por Pécora na frase “O espaço da literatura virou o lugar das tias”, referência a um clima de congratulamento mútuo que predominaria no meio literário nacional.
— Tias tomam chá e bufam como eles bufavam lá — diz Marcelino Freire, ganhador do Prêmio Jabuti em 2006 pelo livro “Contos negreiros” (Record). — Nós vamos à luta, promovendo encontros, discussões, antologias, revelando gente nova e boa. Ave nossa! Que preguiça! Turma de amigos há em tudo que é lugar. Mas não venham para cima da gente, insinuando armações, máfias. Caralho! Enfim. Digo: estou sem saco.

Em contraste com a cordialidade das “tias” mencionadas por Pécora, Beatriz falou em “gangues” de escritores que se formam para “pegar” outros autores: “um autor que entrou nessa [de] vítima da gangue e não está respondendo bem é o Santiago Nazarian. Ele começou magnificamente, mas de repente algumas gangues dizem ‘ele não é da nossa turma, xô com o Santiago’, aí como reagir a isso? ‘Então já que não sou mesmo disso vou fazer literatura infantojuvenil’”, disse, numa alusão aos últimos livros de Nazarian, cheios de zumbis e bichos falantes. 

Em seu blog, Nazarian respondeu: “Eu vejo exatamente o oposto; nos primeiros livros eu me preocupava mais em ser aceito, em escrever um livro sério, ser considerado um escritor; com o tempo, percebi que não valia mesmo a pena e procurei fazer apenas o que eu gosto, me divertir, chutar o balde e ir atrás do meu universo realmente — e o que eu sempre gostei foi de garotos andróginos e jacarés assassinos, ora”. 

Para o escritor Sérgio Rodrigues, a crítica ao compadrio tem “sabor de anteontem”, como ele escreveu em seu blog Todoprosa  — especialmente se entendida como uma censura aos escritores de São Paulo que deram a si mesmos o título de “Geração 90” (caso do próprio Marcelino, Nelson de Oliveira, André Sant’Anna, Marçal Aquino etc), num esforço assumido de chamar atenção para a própria produção num momento em que a discussão literária do país parecia modorrenta.

— Eles foram em frente, alguns amadureceram bem, outros não, e soa como uma fuga do assunto desqualificá-los com base no marketing, aliás bastante esperto, que eles usaram para se lançar — afirma Rodrigues.

Joca Terron, autor de “Do fundo do poço se vê a lua” (Companhia das Letras), prefere inverter o sentido dos comentários de Pécora e Beatriz:

— E o papel de tais representantes da crítica como curadores ou jurados dos grandes prêmios literários brasileiros, não faz parte desse desejo de participação contraditório com o papel de quem se arroga tanta isenção?

A impressão de uma crise geral do campo literário, que Pécora expôs no início do debate e procura desenvolver no artigo publicado nesta edição do Prosa & Verso, também foi questionada em comentários como o do escritor Vinicius Castro, que contestou a escolha de Paul Auster e Bernard Schlink como exemplos da banalidade da literatura que hoje seria mais incensada: “se quiser bater no peito e dizer que não há nada interessante na literatura atual, que fale daqueles autores realmente respeitados. [Roberto] Bolaño, DFW [David Foster Wallace], [W.G.] Sebald, [Javier] Marías, [J.M.] Coetzee, [Haruki] Murakami, [Mathias] Enard.”

Professor da UFBA e mediador da comunidade “Prosa contemporânea 2.0” no Orkut, Antonio Marcos Pereira acha que o debate e as reações a ele revelam dificuldades atuais da crítica, mas também dos autores:
— Se a crítica, mesmo consideradas suas nuances, não encontra nada para acolher, é a sua falência que está sendo também atestada, ou a redução de sua função ao meramente reativo ou reacionário, à conservação pura e simples — diz. — O negócio é saber o que se busca tanto com esse desejo de chancela crítica, pois não é diálogo com a crítica o que se busca. O que vejo todo dia são autores putos com resenhas negativas, e morreu o papo. Há um desejo de autonomia criativa total (o que todos têm, num certo sentido), e garantia de aplauso absoluto, sob a forma do reconhecimento da crítica (o prestígio, o capital simbólico e, eventualmente, as premiações partindo daí) e do público (com as vendas, a fama e a fortuna).
Autor de “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” (Companhia das Letras), João Paulo Cuenca propõe também um olhar duplo sobre o caso:

— Respeito a opinião do Pécora sobre a inexistência da literatura contemporânea, e acho que isso me dá direito a acreditar que ele não existe. Eu sei que eu existo. Então a gente pode discutir isso: se eu existo, se ele existe, mas sem que isso signifique que a gente se odeia. É uma discussão de ideias. Tem uma coisa no panorama literário e intelectual brasileiro que é a incapacidade de aceitar o contraditório, a opinião do outro. Tudo vira uma rinha de galos passional.




Alcir Pécora e os impasses da literatura

Alcir Pécora e os impasses da literatura

No dia 4 de abril o blog do Instituto Moreira Salles publicou um debate entre os críticos Alcir Pécora e Beatriz Resende. As declarações de ambos no encontro deixaram inquietos os autores brasileiros e opiniões diversas sobre o assunto movimentaram blogs e redes sociais. A discussão ganhou tamanha proporção que Beatriz reagiu anunciando, no Facebook, que não escreveria mais sobre literatura contemporânea, sua área de pesquisa há mais de uma década: “Vou voltar para o velho Lima, Machado, Guimarães Rosa. Não tem erro e não chateiam ninguém.” Na capa do Prosa deste sábado, Alcir Pécora avança um pouco mais no assunto discorrendo sobre o que ele chama de situação de crise da literatura atual. Num longo artigo, aponta impasses e falhas, como por exemplo a tendência dos escritores em menosprezar o domínio técnico e objetivo da arte. A opinião de escritores e críticos sobre o debate iniciado no blog do IMS está numa reportagem de Miguel Conde. 

Outro artigo na edição é "Os inúmeros caminhos de um rio", no qual a antropóloga Cecília Campello do Amaral Mello mostra a estreita e rica relação que a população ribeirinha tem com o Xingu, uma harmonia que pode desaparecer caso a construção da usina de Belo Monte se concretize, lembra ela. 

O crítico José Castello fala sobre "Vesúvio", livro de poesia de Zulmira Ribeiro Tavares (Companhia das Letras); Marcelo Moutinho comenta "Amor sem fim", de Ian McEwan (Companhia das Letras); Bernardo Kocher escreve sobre "Comunista de casaca: a revolucionária vida de Friedrich Engels", de Tristram Hunt (Record) e Ivo Barroso mostra aos leitores que Herman Melville, além de criador do monumental romance "Moby Dick", foi grande também nos contos, como os reunidos em "O violinista e outras histórias" (Arte & Letra). 

Impasses da literatura contemporânea, por Alcir Pécora


Num debate recente com a crítica Beatriz Resende, organizado pelo Instituto Moreira Salles, expus minha impressão de que o campo literário se encontra hoje numa situação de crise, observável pela relativa perda da capacidade cultural da literatura de se mostrar relevante, não apenas para mim, mas para muitos que estão comprometidos com a cultura: como se alguma coisa se introduzisse nela (sem eventos violentos) e a tornasse inofensiva, doméstica. Um vírus de irrelevância, por assim dizer.
Não gostaria de defender uma tese cabal sobre a fraqueza atual da literatura, mas me agrada a ideia de explorar, tão fundo quanto possa, esse lugar de crise da expressão. Tento formular sucintamente a seguir, em diferentes ordens de argumentos, alguns dos impasses que percebo na literatura contemporânea.
Ocorre, hoje, uma impressionante expansão das narrativas no cerne da própria existência. Antes mesmo de existir como evento, a ação já se apresenta como narrativa, como ocorre nos reality show, em que as pessoas, antes de agir, representam ou narram a ação que lhes cabe. Ocorre também na multidão que fala pelos blogs e pelas redes sociais, ou se monitoram pelos celulares, de modo que a ação ou a conversa é sempre exibição/narração da conversa. É como se o mundo inteiro fosse virtualidade narrativa antes de ser existência particular, e principalmente como se todo mundo fosse interessante o bastante para ser visto/lido. Esse é um dos pontos não negligenciáveis que parecem retirar a prioridade ou a exclusividade da narração do narrador literário. É um problema basicamente de inflação simbólica. 


Escrever literatura, para mim, entretanto, é um gesto simbólico que traz uma exigência: a de ser de qualidade. Literatura mediana é pior que literatura ruim, pois, mais do que esta, denuncia a falta de talento e a frivolidade. A literatura decididamente ruim pode ser engraçada, ter a graça do kitsch, do trash, da paródia mesmo involuntária e grosseira: pode ter a graça perversa do rebaixamento. Já a literatura mediana não serve para nada. É a negação mesma da literatura, cuja primeira exigência é a de se justificar (justificar a própria presença) face aos outros objetos de cultura. E o que eles exigem é que você os supere, que se apresente como novo ou não dê as caras por lá.

Fazer a lição de casa do ofício de escritor, ser esforçado, tampouco basta, como não basta ter vontade de fazer. Não adianta ser apenas um trabalhador, pois não se trata de adquirir direitos trabalhistas. Estou tentando dizer que escrever é muito competitivo. Boris Groys fala muitíssimo bem do assunto. Você escreve em língua portuguesa, então tem de se defrontar com vivos e mortos. Com os contemporâneos e com Vieira, Gregório, Machado, Rosa etc. Não há meio de não medir forças: a literatura exige a demonstração de força: não há como fazer apenas para participar.
O atual democratismo inflacionário das representações, que mencionei, tende a menosprezar o domínio técnico. Para mim, é um erro, desde que literatura, como toda arte, é em primeiro lugar techné , técnica, produção objetiva. Não basta ser conhecimento, tem de produzir o que não é, o que não há. Sem produção, não há arte: não há nenhum outro valor simbólico, de representação, que substitua o objeto. De outra maneira, a literatura está no campo da composição, em nenhum outro. Não há atitude, comportamento ou opção ideológica que permita saltar sobre os mecanismos da composição. Acho o menosprezo da produção objetiva, em favor do volume expressivo e representativo um grande atalho falho da produção contemporânea. Assim, para mim, rigor técnico significa a radicalidade construída dentro do discurso. Atitude resolve o problema do roqueiro, não resolve a questão da literatura.
Ocorre certo triunfalismo da produção contemporânea, que enfaticamente se nega a pensar seus impasses, ou enxerga neles apenas má vontade gratuita, tirania acadêmica ou conservadorismo crítico. Acho que essa recusa de sequer considerar a ideia de impasse tem qualquer coisa de cegueira deliberada. É como se o presente se absolutizasse e não mais admitisse um legado cultural como patamar exigente de rigor para a sua produção. No entanto, a condição da crítica e da criação é justamente a referência a um tempo que não é exclusivamente o do presente, mas o tempo de longa duração da obra da arte. Literatura pode ser descrita como o que resiste às disputas exclusivas do presente para existir como problema por muito tempo. Ela não tem como se fingir de recém-nascida, livre para não ter memória e amar integralmente a si própria como invenção de grau zero. Perdida a noção de herança cultural, perde-se a de crítica, de autocrítica e naturalmente a de criação. 


Uma variante desse argumento é o seguinte: uma parte dessa cena contemporânea de crise existe por não haver qualquer disposição para a crise. Quem critica parece um vilão, um estraga-prazer, um intrometido. Quem critica as obras, ainda mais se faz isso com argumentos insistentes, tem qualquer coisa de indecente, de impróprio. Mas, por vezes, a insistência chata é fundamental para pensar um pouco melhor. Não se vai muito longe com um discurso que não admite contraditório, com um discurso de animação de parceiros. Mesmo em casos de parceria, sem alguma disposição para encarar a desafinação, não se vai longe: nessas condições, não há orquestra capaz de desconfiar de si mesma e exigir mais de seus membros. Espanta, pois, ver a intolerância para a crítica, como se fosse alguma traição pessoal. De onde vem essa ideia de parentesco traído? Pessoalmente, não vejo por que o crítico tem de ser animador, parceiro, divulgador ou chancela do escritor. Ele tem de apontar problemas no objeto, pois são problemas do objeto o interesse principal da arte, como da literatura.

Em termos de experiência pessoal de leitura, quase sempre (nem sempre, mas quase sempre) acho mais prazer textual, literário, em ler teóricos do que, por exemplo, ficcionistas ou poetas contemporâneos. Ou, de outra forma, a crise contemporânea me parece mais patente nos textos críticos dos que nos de ficção e de poesia. Acho que o que está acontecendo é muito mais do que uma crise de bons autores: é como se a literatura, entendida como ficcionalização autônoma, estivesse esvaziada. Poucos autores de literatura contemporânea me dão mais vontade de ler como teóricos tão diferentes entre si como Rorty, Davidson, Cavell, Agamben, Renato Barilli, Perniola, Sloterdijk, Jonathan Lear, Blanchot, Magris, Martha Nussbaum, Boris Groys... Há muita gente interessante pensando o contemporâneo e pensando literatura. Fico imaginando se essa não será uma forma de literatura disfarçada. Uma nova máscara da literatura.

Mas por que esse menor poder literário dos autores face aos teóricos? Isso aparece para mim como uma evidência, digamos, sentimental, afetiva, mas as suas razões não são claras. Mesmo em termos de domínio técnico de língua, entre os que citei —-, as invenções linguísticas de Rorty, com suas violentas trocas de vocabulário, ou as situações-limite da “teoria de passagem”, em Donald Davidson, por exemplo —-, me parecem mais radicais como invenção ficcional do que a narrativa dos tantos escritores mais ou menos conformados no esquema da prosa realista do século XIX.

A grande conquista da literatura do século XIX foi a sua autonomia ficcional, que se traduz basicamente por se tornar simbolicamente representativa do mundo ou expressiva do sujeito psicológico que a constitui. Quer dizer, restrição do âmbito técnico da imitação e hipersimbolização do real ou da subjetividade deram aos ficcionistas o seu estatuto contemporâneo. Neste início de século XXI, o processo se amplificou vertiginosamente: a identidade psicológica original em sua relação com o mundo hostil da mercadoria e não a distinção da própria invenção, enquanto invenção engenhosa, pretende ser a fonte da qualificação autoral. Será que dá para ser assim? Quem ainda acredita em representatividade, fora da discussão dos próprios critérios de representação? Quem jura ainda pela invenção da narrativa fora da construção de uma metalinguagem que coloque seus fundamentos sob crítica? Contar histórias, enfim, cansou? E poesia contemporânea, por que é quase sempre kitsch? Qualquer subjetividade pode ser um direito, mas parece igualmente expressão de banalidade.


Também, quando alguém diz que um autor é representativo, já não imagino boa coisa. Fosse bom, problematizaria a representação, a identidade “nossa”, do “eu”, a própria ideia de identidade; nos obrigaria a retroceder para fora de nossa experiência comum. Ou mesmo nos expulsaria do poético, envelheceria de um golpe os lugares comuns da invenção. Ele teria complicado o mundo representado, e destruído a subjetividade expressa. Mas quem está fazendo isso? Afora alguns poucos ficcionistas e poetas importantes, acho que outros estão fazendo essa bagunça melhor do que eles.

Enfim, são palpites que partilho aqui, não uma tese. Não quero advogar qualquer fim da literatura, mas não quero me poupar de discutir a sua relevância e pertinência no contemporâneo. A minha esperança é que a exposição crítica, a rudeza do trato — o chão duro da fricção, como dizia Wittgenstein — ajude a coisa a andar.


23.04.2011

ALCIR PÉCORA é crítico literário e professor da Unicamp

LINK, O Globo.

Ficção, compadrio e as tias – Beatriz Rezende e Alcir Pécora

Neste terceiro debate da seção “Desentendimento”, os críticos literários Beatriz Rezende e Alcir Pécorarefletem sobre a literatura brasileira contemporânea. A mediação ficou a cargo de Paulo Roberto Pires, editor da revista serrote. A cada mês, o leitor encontrará no blog um debate em vídeo em que os convidados apresentam opiniões divergentes sobre um tema proposto pela revista serrote.
Blocos I e II
Ao pensar sobre o panorama da literatura contemporânea não apenas brasileira, Alcir Pécora afirma que o americano Paul Auster é um autor medíocre, que vive “da tentativa canhestra de parecer engajado”. Pécora refere-se especificamente ao romance Invisível, em que Auster estaria reelaborando questões como o “colonialismo de má consciência” ou “refazendo lugares-comuns e produzindo um romanesco do incesto”. Em seguida, o alemão Bernhard Schlink é visto com reservas pelo crítico. Seu famoso livro O leitor operaria um tema grave (o nazismo) para criar, no fundo, uma história detetivesca permeada por clichês. Esses são dois exemplos em que Pécora identifica um esgotamento do discurso ficcional.
No bloco seguinte, Beatriz Rezende chama a atenção para o risco de comparar autores de origens literárias diferentes, uma vez que haveria um confronto desigual de produção. E diz acreditar não ser mais possível haver uma literatura nacional, uma vez que o escritor está sempre sujeito a contaminações de diversas técnicas e linguagens. Já Pécora reafirma ver a impossibilidade de criação de uma nova literatura. E desautoriza o rótulo Geração 90 atribuído a um grupo de escritores paulistas, já que seus autores não teriam promovido uma ruptura verdadeira com modelos anteriores.
Blocos III e IV
Depois das restrições feitas à Geração 90 e ao corporativismo entre os escritores brasileiros, o terceiro segmento avança esse debate. Ambos os críticos condenam a ausência do embate de ideias entre os autores e a relação de cumplicidade que mantêm. “O lugar da literatura virou o lugar das tias”, diz Pécora. Para Beatriz Rezende, além de alguns grupos combinarem elogios mútuos, chegam a formam “gangues”, que podem isolar um escritor da mídia.
No quarto bloco, os debatedores refletem sobre um tema crucial: a oposição entre estímulos para o consumo de livros e mecanismos para a formação de leitores. O papel da crítica e da universidade para pensar a literatura contemporânea é o tema que fecha o encontro.
LINK para o Instituto Moreira Salles com polêmica do Alcir Pécora.

Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

Estudando os contistas pós-utopicos ou as novas formas
da Literatura Brasileira.

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