terça-feira, 23 de junho de 2009

Entrevista com Ivana Arruda Leite

Entrevista da escritora Ivana Arruda Leito com Mona Dorf, por ocasição do lançamento de seu novo livro. Clique no link.


domingo, 21 de junho de 2009

Valêncio Xavier








































Link para o conto

Valêncio Xavier, matéria da Folha

05/12/2008 - 17h16
Escritor Valêncio Xavier morre aos 75 anos em Curitiba,

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Contemporâneos, segundo Massaud Moisés

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Nelson de Oliveira















Nelson de Oliveira nasceu em 1966, em Guaíra, SP. Escritor e doutorando em Letras pela USP, publicou mais de vinte livros para adultos e crianças, entre eles Naquela época tínhamos um gato (contos, 1998), Subsolo infinito (romance, 2000), O filho do Crucificado (contos, 2001, também lançado no México), A maldição do macho (romance, 2002, publicado também em Portugal), Verdades provisórias (ensaios, 2003) e O oitavo dia da semana (romance, 2005). Em 2001 organizou a antologia Geração 90: manuscritos de computador e em 2003, com os melhores prosadores brasileiros surgidos no final do século XX. Desde 2003 coordena oficinas de criação literária para escritores diletantes, com obra ainda em formação, e pessoas interessadas em aprimorar suas habilidades no uso da linguagem literária. Colabora regularmente com o jornal Rascunho (PR) e com o caderno Idéias & Livros, do Jornal do Brasil (RJ). Dos prêmios que recebeu destacam-se o Casa de las Américas (1995), o da Fundação Cultural da Bahia (1996) e duas vezes o da APCA (2001 e 2003).

Naquela época tínhamos um gato

Mas não o suportávamos. Ele cagava por toda a parte, fazia ruídos a noite toda, esparramava o lixo na calçada e arranhava as almofadas do sofá. Por isso, nos livramos dele e compramos um cão.
Era um fox-terrier branco e saudável.
No primeiro dia em que o vimos, ele nos pareceu tão belo e atraente, tão orgânico, tão cheio de si e de promessas que imediatamente toda a família, em silêncio — quase um pacto de sangue —, jurou tolerar, nele, tudo aquilo que não havíamos tolerado no gato, todos os seus possíveis excessos, manias e atavismos. Mais do que isso, nós, a partir de então, passamos a desejá-lo exatamente assim: nu, sem coleira nem regras.
Nós o amávamos e o alimentávamos. Às vezes nós o colocávamos numa grande caixa de papelão e o levávamos conosco, naqueles deliciosos passeios pelo campo que nossa família costumava organizar nos fins de semana, a cada verão. Também lhe dávamos banho todas as segundas-feiras, religiosamente, após intermináveis sessões profiláticas sentados ao sol, quando procurávamos e eliminávamos as eventuais pulgas do seu pêlo, conforme instruções do veterinário.
Fazíamos tudo isso, mas, mesmo assim, ele se recusava a nos amar, a nos seguir pelas ruas do nosso bairro, a uivar para a lua em noites de lua cheia, a perseguir os cães menores e a rosnar diante de visitas e estranhos, como todo cão costuma fazer.
Seu nome era Sansão e seus olhos eram suaves e, ao mesmo tempo, ariscos, como os de um patriarca chinês.
Jamais ouvimos o seu latido durante todo o tempo em que viveu conosco. Jamais o ouvimos arrastar meias e chinelos pelas escadas, ou chafurdar na terra úmida do jardim após uma noite de chuva, ou urinar nos cantos da cozinha, ou derrubar os vasos e quebrar potes de porcelana também, coisas tão corriqueiras na vida de qualquer cão.
Pior do que isso. Além de um comportamento pouco ortodoxo, Sansão ainda possuía o inconveniente hábito de perscrutar nossas almas, de avaliar o quanto de irrequieta beleza conduzíamos em nosso interior.
Freqüentemente, durante uma conversa reservada com meu pai, ou com qualquer outro membro mais próximo da família, imaginando estarmos a sós, a portas trancadas, de repente pressentíamos um observador inoportuno analisando nossos sentimentos, nossos segredos, aquilo que de mais precioso trazemos dentro de nós. Bastava olhar sobre os nossos ombros para descobrir a acanhada presença de um cão, meio oculto na sombra de uma estante, feliz por participar de um acontecimento tão íntimo, tão particular.
Era como se ele possuísse o dom de transpor portas e paredes, apenas com a força do pensamento.
Ele existia, era sólido e palpável, mas os olhos apresentavam uma coloração terrivelmente alucinada e transparente, como se neles, mergulhado em suas pupilas quase pré-históricas, estivesse presente, muito bem aprisionado, um reflexo claro e detalhado do dilúvio universal — a catástrofe da vida, borbulhando a mais de cem graus centígrados.
Mas isso não era fácil de ser percebido, não.
Poucos de nossa família possuíam paciência e desprendimento suficientes para chegar a essa incrível porém simples constatação. Apenas quando olhávamos fixamente dentro de seus olhos, sem piscar, sem desviar um milímetro sequer do nosso ponto de interesse, por horas a fio, é que percebíamos neles o início dos tempos, a formação do céu e da terra. Durante essa procura, os pensamentos iam fluindo livremente e, ao mesmo tempo, apaziguando-se. O despertar sobrevinha, ao que parece, após uma certa fadiga do pensamento, de um desamparo finalmente aceito e assumido pelas nossas mentes. Então, tudo se iluminava e o nosso cão deixava de ser um acessório, uma parte indesejada da mobília.
Finalmente percebíamos a sua real presença entre nós.
Era a verdadeira revelação da sua essência, uma substância abstrata e dinâmica. Nela, nos perdíamos e nos deleitávamos. Por ela valia a pena suportar tudo o mais, a ausência de um latido nas manhãs de domingo, de um chinelo arrastado através da sala, de uma almofada cheia de incisões, de um passeio pelas ruas.
Todavia, bastava nos distrairmos só por um segundo e — zás! — imediatamente tudo se desvanecia diante dos nossos olhos. As sagradas escrituras e a nossa completa compreensão delas eram substituídas, no ato, pelas patéticas feições de um cão.
Ele, no mesmo instante, dava meia-volta e se recolhia em sua cesta acolchoada, sem ao menos se despedir, sem sequer, por meio de um aceno com as orelhas, com o rabo, dizer, sei o que estão sentindo, sinto o que vocês sentem, somos irmãos na dor e no conhecimento, na ilusão e no despertar, deixando, em cada um de nós, a desagradável impressão de que, talvez, um periquito teria sido bem melhor.

Nelson de Oliveira

Luís Vilela

Vilela

Noite feliz

Entre, Pai. Entre, Mãe. Entre, Joaquim. Vô Zeca. Vó Mariquinha. Tio Nunes. Rosa. Que bom, que bom que vocês vieram - eu estou tão feliz. Vai ser uma noite linda. Vai ser a noite mais bela de todas. Vamos, sentem, ocupem seus lugares.
E o Pretinho? Por que o Pretinho não veio? Você também devia ter vindo, Pretinho. Aí eu te pegava e te punha no colo - você era tão macio, tão quentinho. Miau... miau... Que saudades, Pretinho...
Sentem, sentem. A senhora está tão bonita com esse vestido, Mãe. Vô, o senhor não larga seu cigarrão de palha, hem? E o senhor, Tio Nunes, cuidado, não vai contar aquelas piadas bobagentas. Vó Mariquinha, sabe que a senhora fica muito elegante com esse coque? E a Rosa? Sempre com esse sorriso... Joaquim, quantos anos, hem? Quantos anos... Muita água passou debaixo da ponte...
E o senhor, Pai? O senhor está tão sério; tão calado. Por que o senhor me olha assim? Por que o senhor não fala nada comigo? Fale, Pai; fale alguma coisa. Não fique me olhando assim. Vocês todos, parem de me olhar desse jeito. Por favor. Meu Deus, meu Deus... Tem dó de mim... Eu não queria isso, juro que eu não queria...
Não! Não e não! Onde está sua fibra, menina? Minha fibra? Minha fibra está aqui - ora, bolas. Pensaram que eu fosse fraquejar? Pois estão muito enganados. Quem vos fala é a Aristotelina - a Lina. Há meses que eu venho planejando essa noite; pensam que eu vou desistir agora? Nunca.
Será uma noite única. Será uma noite sem igual. Nem todas as luzes de todas as casas juntas da cidade brilharão mais do que esta casa nesta noite de Natal. Nem todas as luzes de todas as ruas... Ai, Lina, você é impagável; parece que você nunca saiu do palco. Não saí mesmo: você sabe, uma vez atriz...
Joaquim, lembra daquele Natal em que eu te pedi uma porção de lâmpadas - eu ia iluminar toda a casa, ia fazer um colar de lâmpadas - e aí você me trouxe... Ah, meu Deus... Você me trouxe meia dúzia, Joaquim, meia dúzia de lâmpadas! Então eu falei: o que eu vou fazer com meia dúzia de lâmpadas? O que eu vou fazer? Aí você... Você falou... Eu não lembro... O que você falou?... Eu não lembro... Minha memória... Minha cabeça...
Noite feliz, noite feliz, o Senhor, Deus de amor, pobrezinho, nasceu em Belém. Não foi fácil: cada garrafa, um posto. Naquele maior, o sujeito: para quê? Eu: não é da sua conta. Ele: se eu não souber, eu não posso vender. Eu, então: é para tirar a cera do assoalho, assoalho de tábuas, casa antiga. Antipático. Depois, no último posto, o rapazinho: e aí, vó, vai virar motorista agora? Vou, eu vou fazer uma viagem pro céu. Então me leva com você, que a coisa aqui na terra tá braba. Mas ele foi gentil, ele foi atencioso.
Os sinos, eles estão batendo. Missa da meia-noite. Onze e quarenta e cinco. Quinze minutos. Nunca houve ninguém tão só. Nunca alguém, nesse mundo, se sentiu tão só. Nem se eu estivesse - só eu, só eu de gente - nem se eu estivesse lá num deserto de Marte ou lá numa cratera da Lua. Se o telefone tocasse. Se o telefone tocasse, talvez...
Chega. É hora. A meia-noite se aproxima. Vamos. Noite feliz, noite feliz, o Senhor... Uma garrafa aqui; assim. Outra aqui... Agora essa... Mais essa... E essa... Pronto. Que cheiro forte... Podia ser o cheiro de jasmim que antigamente, nas noites de verão, entrava pela janela aberta e inundava esta sala onde todos nos reuníamos e conversávamos e éramos felizes...
Meia-noite. Pego esta caixa; tiro um fósforo; risco e... Eis! O fogo!

Luiz Vilela

quarta-feira, 10 de junho de 2009

O maníaco do olho verde, de Dalton Trevisan


























Houve, no decurso do século XX, um considerável incremento na importância dada aos meandros do processo constitutivo de esferas cotidianas - universos particulares construídos a partir de inter-relações lingüístico-econômico-culturais - como componentes indeléveis na elaboração do discurso histórico de um determinado povo ou recorte temporal. Isso quando o próprio foco de análise não repousa sobre uma dessas esferas.

É justamente sobre as idiossincrasias dessa teia de universos que se debruça Dalton Trevisan em seu mais novo livro: O Maníaco do Olho Verde. Através dos 26 contos que compõem o volume, o leitor tomará caso com as querelas de um viciado em craque, imerso, por dívida, na criminalidade; às investidas sequiosas de um padrastro tarado; os malogros de um fulano que se envolve com a ex-mulher de um policial, entre outras desgraças possíveis. A condição de desgraça eminente parece, na verdade, conferir alguma unidade às histórias postas, que tratadas com a devida dose de escárnio, se isentam de qualquer busca de pureza através da sobreposição de elementos sórdidos, comuns às investidas de tal natureza.











Aristóteles

Poética, de Aristóteles

Clarice Lispector

Link para alguns livros online.

PARA ENCONTRAR EBOOKS

























[Encontrei este link fuçando no google. Não sei se está ativo, mas fica a dica.]

Márcia Denser
















LISTA DOS MELHORES LIVROS DE CONTOS

Por Márcia Denser

Uma revista pediu a vinte escritores brasileiros (eu incluída) a lista dos dez melhores livros de contos. Escritos em qualquer época, em qualquer língua. No fundo é aquela bibliografia de sustentação do escritor - os livros que ele relê – e que possui um caráter quase imutável, permanente, eterno. Falando francamente nem sempre posso atender a esse tipo de solicitação – e para mim já são muitas, vocês nem imaginam – contudo alguma mola secreta deve ter sido acionada porque parei, pensei puxa, dez livros de contos? eu me amarro em livros de contos! De forma que uma hora depois estava feito.

A lista:

1 - Todos os Fogos, o Fogo de Júlio Cortázar.
Este livro é a suma da contística cortazariana - e JC contista se insere entre os melhores do mundo na literatura contemporânea – sobretudo quanto ao exercício duma técnica refinadíssima posta a serviço da originalidade, o que dá textos como A auto-estada do sul, Senhorita Cora, A Ilha do Meio-Dia, o conto título.
2 - Ficções de Jorge Luís Borges.
Bom, este é outro. Suma da contística borgiana que, por sua vez, é um dos melhores do mundo, etc. Maravilha da ficção posto que escrita em forma de ensaios. Apócrifos. Hilariantes. Impagáveis. Divinos.
3 - Música Para Camaleões de Truman Capote.
Neste livro, TC, talvez sem o saber (sem premeditar), dá o melhor de si, confiramMojave, Pequenos Ataúdes,Um dia de trabalho ou Olá, Desconhecido: simplesmente brilhantes!
4 - Nove Histórias de J.D. Salinger.
Quando se é mais jovem, mais inexperiente, se gosta mais. Depois, hum, nem tanto. Salinger tem umas obsessões, umas exclusões, um jeito ianque e judeu demais de ser mascarado. Mas continua terrivelmente eficiente, podem apostar. Irretocável. Foi a "tecnologia do futuro" em matéria de diálogos. Ainda é. Foi também a evolução de Hemingway que, devido a J.D., saiu da minha lista.
5 - Feliz Ano Novo de Rubem Fonseca.
Zé Rubem é, de longe, o grande contista brasileiro contemporâneo. Beneficiando-se da leitura acumulada dos"tough writers" - os escritores durões - constitui o esplendor da nossa prosa urbana em sua intensidade máxima. A merda que, graças ao mercado editorial, depois só produziu romances idiotas, vazios, tijolaços cheios de nada. Desses que só servem para escorar os outros livros na estante. Meu Zé, meu Rubem.

6 - O Aleph de Jorge Luís Borges.
Por que nessa coletânea se inclui aquele que considero a obra-prima de JLB: O Imortal.
7 - Três Contos de Gustave Flaubert.
A leitura de Herodíade é absolutamente necessária para qualquer um que se julgue escritor.
8 - Alguém Que Anda Por Aí de Júlio Cortázar.
Um dos últimos do grande mestre. Experimente Queríamos tanto a Glenda e o conto título. Dum refinamento abissal.
9 - Notas da Arrebentação de Marcelo Mirisola.
Mirisola é o grande prosador brasileiro que surge nos anos 90, genial, intuitivo. Sua proeza maior? Elevar o clichê, o banal, todo o lixo verbal produzido pela cultura de mercado à categoria de fenômeno estético. Por mim, o sujeito já podia quebrar o lápis e parar!
10 - Histórias dos Mares do Sul de Somerset Maugham.
Para quem gosta de literatura, a escolha é óbvia. Pensem em Chuva, Mackintosh,Honolulu! Mas para quem não gosta, azar, não vou ter saco de explicar!

Muita gente vai estranhar as ausências de William Faulkner – meu favorito mas um desastre como contista – e James Joyce por Retrato dum artista quando jovem, seu único livro de contos – que não inclui mesmo porque não quero me fazer de besta, nem posar de culta.

Caio Fernando Abreu


















Encontrei na internet este link para baixar o livro de Caio Fernando Abreu, Os dragões não conhecem o paraíso. Obviamente aconselho a comprá-lo (impossível não encontrar algum livro do Caio Fernando Abreu em um sebo. Prefira os contos, sempre.). Neste livro está "Linda, uma história horível", e está um conto muito bonito que indico a quem irá analisar o autor: "Mel & girassóis".



Daniel Galera

























Para baixar o livro de contos, Dentes Guardados, de Daniel Galera, há vários links. Basta clicar abaixo. O formato é .pdf.


terça-feira, 2 de junho de 2009

Amor cristão

























Amor é a mordida de um cachorro pitbull que levou a coxa da Laurinha e a bochecha do Felipe. Amor que não larga. Na raça. Amor que pesa uma tonelada. Amor que deixa. Como todo grande amor. A sua marca.

Amor é o tiro que deram no peito do filho da dona Madalena. E o peito do menino ficou parecendo uma flor. Até a polícia chegar e levar tudo embora. Demorou. Amor que mata. Amor que não tem pena.

Amor é você esconder a arma em um buquê de rosas. E oferecer ao primeiro que aparecer. De carro importado. De vidro fumê. Nada de beijo. Amor é dar um tiro no ente querido se ele tentar correr.

Amor é o bife acebolado que a minha mulher fez para aquele pentelho comer. Filhinho de papai. Lá no cativeiro. Por mim ele morria seco. Mas sabe como é. Coração de mãe não gosta de ver ninguém sofrer.

Amor é o que passa na televisão. Bomba no Iraque. Discussão de reconstrução. Pois é. Só o amor constrói. Edifícios. Condomínios fechados. E bancos. O amor invade. O amor é também o nosso plano de ocupação.

Amor que liberta. Meu irmão. Amor que sobe. Desce o morro. Amor que toma a praça. Amor que de repente nos assalta. Sem explicação. Amor salvador. Cristo mesmo quem nos ensinou. Se não houver sangue. Meu filho. Não é amor.

[in Rasif – mar que arrebenta, de Marcelino Freire, Editora Record, 2008.]

"Para Iemanjá"


in Rasif, mar que arrebenta.

[Marcelino Freire lê o conto/oração que abre o livro Rasif, mar que arrebenta, de 2008.]

"Belinha"

"Mataram o salva-vidas"



in Angu de sangue.

[O autor, Marcelino Freire lê seu conto "Mataram o salva-vidas"]

"Homo erectus"


in BaléRalé, de Marcelino Freire

[Animação feita por Rodrigo Burdman num conto de Marcelino Freire. Locução de Paulo César Pereio. São Paulo, Brasil 2009]

"Trabalhadores do Brasil"

"Totonha"


in Contos negreiros, de Marcelino Freire.

[Marcelino Freire lê "Totonha", conto do seu livro vencedor do Jabuti, Contos negreiros.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Clarice Lispector

Ele me bebeu

É. Aconteceu mesmo.

Serjoca era maquilador de mulheres. Mas não queria nada com mulheres. Queria homens.

E maquilava Aurélia Nascimento. Aurélia era bonita e, maquilada, ficava deslumbrante. Era loura, usava peruca e cílios postiços. Ficaram amigos. Saíam juntos, essa coisa de ir jantar em boates.

Todas as vezes que Aurélia queria ficar linda ligava para Serjoca. Serjoca também era bonito. Era magro e alto.

E assim corriam as coisas. Um telefonema e marcavam encontro. Ela se vestia bem, era caprichada. Usava lentes de contato. E seios postiços. Mas os seus mesmos era lindos, pontudos. Só usava os postiços porque tinha pouco busto. Sua boca era um botão de vermelha rosa. E os dentes grandes, brancos.

Um dia, às seis horas da tarde, na hora do pior trânsito, Aurélia e Serjoca estavam em pé junto do Copacabana Palace e esperavam inutilmente um táxi. Serjoca, de cansaço, encostara-se numa árvore. Aurélia impaciente. Sugeriu que dessem ao porteiro dez cruzeiros para que ele lhes arranjasse uma condução. Serjoca negou: era duro para soltar dinheiro.

Eram quase sete horas. Escurecia. O que fazer?

Perto deles estava Affonso Carvalho. Industrial de metalurgia. Esperava o seu Mercedes com chofer. Fazia calor, o carro era refrigerado, tinha telefone e geladeira. Affonso fizera quarenta anos no dia anterior.

Viu a impaciência de Aurélia que batia com os pés na calçada. Interessante essa mulher, pensou Affonso. E quer carro. Dirigiu-se a ela:

- A senhorita está achando dificuldade de condução?

- Estou aqui desde as seis horas e nada de um táxi passar e nos pegar! Já não agüento mais.

- Meu chofer vem daqui a pouco, disse Affonso. Posso levá-los a alguma parte?

- Eu lhe agradeceria muito, inclusive porque estou com dor no pé.

Mas não disse que tinha calos. Escondeu o defeito. Estava maquiladíssima e olhou com desejo o homem. Serjoca muito calado.

Afinal veio o chofer, desceu, abriu a porta do carro. Entraram os três. Ela na frente, ao lado do chofer, os dois atrás. Tirou discretamente o sapato e suspirou de alívio.

- Para onde vocês querem ir?

- Não temos propriamente destino, disse Aurélia cada vez mais acesa pela cara máscula de Affonso.

Ele disse:

- E se fôssemos ao Number One tomar um drinque?

- Eu adoraria, disse Aurélia. Você não gostaria, Serjoca?

- É claro, preciso de uma bebida forte.

Então foram para a boate, a essa hora quase vazia. E conversaram. Affonso falou de metalurgia. Os outros dois não entendiam nada. Mas fingiam entender. Era tedioso. Mas Affonso estava entusiasmado e, embaixo da mesa, encostou o pé no pé de Aurélia. Justo no pé que tinha calo. Ela correspondeu, excitada. Aí Affonso disse:

- E se fôssemos jantar na minha casa? Tenho hoje escargots e frango com trufas. Que tal?

- Estou esfaimada.

E Serjoca mudo. Estava também aceso por Affonso.

O apartamento era atapetado de branco e lá havia escultura de Bruno Giorgi. Sentaram-se, tomaram outro drinque e foram para a sala de jantar. Mesa de jacarandá. Garçom servindo à esquerda. Serjoca não sabia comer escargots e atrapalhou-se todo com os talheres especiais. Não gostou. Mas Aurélia gostou muito, se bem que tivesse medo de ter hálito de alho. Mas beberam champanha francesa durante o jantar todo. Ninguém quis sobremesa, queriam apenas café.

E foram para a sala. Aí Serjoca se animou. E começou a falar que não acabava mais. Lançava olhos lânguidos para o industrial. Este ficou espantado com a eloqüência do rapaz bonito. No dia seguinte telefonaria para Aurélia para lhe dizer: o Serjoca é um amor de pessoa.

E marcaram novo encontro. Destava vez num restaurante, o Albamar. Comeram ostras para comerçar. De novo Serjoca teve dificuldade de comer as ostras. Sou um errado, pensou.

mas antes de se encontrarem, Aurélia telefonou para Serjoca: precisava de maquilagem urgente. Ele foi à sua casa.

Então, enquanto era maquilada, pensou: Serjoca está me tirando o rosto.

A impressão era que ele apagava os seus traços: vazia, uma cara só de carne. Carne morena.

Sentiu mal-estar. Pediu licença e foi ao banheiro para se olhar ao espelho. Era isso mesmo que ela imaginara: Serjoca tinha anulado o seu rosto. Mesmo os ossos - e tinha uma ossatura espetacular - mesmo os ossos tinham desaparecido. Ele está me bebendo, pensou, ele vai me destruir. E é por causa do Affonso.

Voltou sem graça. No restaurante quase não falou. Affonso falava mais com Serjoca, mal olhava para Aurélia: estava interessado no rapaz.

Enfim, enfim acabou o almoço.

Serjoca marcou encontro com Affonso para de noite, Aurélia disse que não podia ir, estava cansada. Era mentira: não ia porque não tinha cara para mostrar.

Chegou em casa, tomou um banho de imersão com espuma, ficou pensando: daqui a pouco ele me tira o corpo também. O que fazer para recuperar o que fora seu? A sua individualidade?

Saiu da banheira pensativa. Enxugou-se com uma toalha enorme, vermelha. Sempre pensativa. Pesou-se na balança: estava com bom peso. Daí a pouco ele me tira também o peso, pensou.

Foi ao espelho. Olhou-se profundamente. Mas ela não era mais nada.

- Então - então de súbito deu uma bruta bofetada no lado esquerdo do rosto. Para se acordar. Ficou parada olhando-se. E, como se não bastasse, deu mais duas bofetadas na cara. Para encontrar-se.

E realmente aconteceu.

No espelho viu enfim um rosto humano, triste, delicado. Ela era Aurélia Nascimento. Acabara de nascer. Nas-ci-men-to.

Clarice Lispector


in A via-crucis do corpo

Verbete: Gestalt



1. Rubrica: psicologia.
teoria que considera os fenômenos psicológicos como totalidades organizadas, indivisíveis, articuladas, isto é, como configurações
2. Rubrica: artes pásticas.
posicionamento que afirma serem a carga emocional e os conceitos estéticos atributos de uma obra de arte e não do seu espectador.
al. Gestalt 'forma, formato'; a teoria foi concebida pelos psicólogos alemães Max Wertheimer (1880-1943), Kurt Koffka (1886-1941) e Wolfgang Köhler (1887-1967); o emprego em psic data do final do sXIX
[Obs. Em discurso tenso, usa-se com maiúsculas e com o plural alemão Gestalten; dada à existência de derivados portugueses, é lícita a forma aportuguesada guestalte, bem como a dos seus derivados.]

Dicionário Eletrônico Houaiss



{Wikipedia} Gestalt:

Wertheimer pôde provar experimentalmente que diferentes formas de organização perceptiva são percebidas de forma organizada e com significado distinto por cada pessoa. Basearam nisso a idéia de que o conhecimento do mundo se obtém através de elementos que por si só constituem formas organizadas. O todo é mais do que a soma das partes que o constituem. Por exemplo: uma cadeira é mais do que quatro pernas, um assento e um encosto. Uma cadeira é tudo isso, mas é mais que isso: está presente na nossa mente como um símbolo de algo distinto de seus elementos.

Lavoura arcaica

"
Adaptação por Luís Fernando Carvalho de Lavoura arcaica, romance de Raduan Nassar.

Dez anos

     De dez em dez anos acontece uma desgraça na minha vida. Uma bomba relógio com precisão terrorista. Sempre perto do meu aniversário, sempre nas datas redondas. A última foi o mês passado, quando fiz cinqüenta anos.
     O telefone tocou e eu reconheci na hora.
     - Quem está falando? - Luís perguntou sabendo que era eu.
     - Com quem quer falar? - respondi sabendo que era ele.
     - A Alzira, por favor.
     - Não está me reconhecendo?
     - Claro que estou, como vai? - assim mesmo, como se nos falássemos a toda hora.
     De dez em dez anos Luís me procura.
     - Os primeiros cinqüenta já se foram, - ele disse tentando disfarçar a emoção - agora só falta metade.
     - Quem merece viver cem anos? - perguntei.
     Ele insistiu num encontro. Eu não queria. O que ainda havia para ser dito?

     Quando cheguei ao restaurante, ele já estava lá. Os cabelos mais brancos, as costas curvadas, Luís agora usava óculos. O mesmo homem elegante de sempre. Ele me abraçou e disse que eu não mudara nada nos últimos dez anos. Agradeci a gentileza e chamei-o de mentiroso. Sei bem o estrago que o tempo faz numa mulher. 
     Todo orgulhoso, ele contou do filho, que é médico e mora nos Estados Unidos. 
     - Fernando está com trinta anos, é cirurgião plástico. - De repente, tomado por uma vergonha repentina, mudou de assunto: - e você, ainda mora sozinha?
     - Que jeito.
     - Por que não arruma companhia? Sua casa é tão grande.
     - Minha solidão preenche a casa inteira. Ela fica até pequena.
     Luís deu risada do meu sarcasmo.
     - Você precisa de alguma coisa? - quis saber antes de nos despedirmos.
     - Eu estou bem, não se preocupe.
     Dois dias depois, Fernando me ligou dando a notícia da morte do pai.
     - Ele sabia que ia morrer? Estava doente? - talvez por isso tenha insistido tanto no encontro.
     - Doença nenhuma. Papai estava forte como um touro.

     Quanto tempo ainda viverei sem que o telefone toque e seja ele me dando os parabéns, achando que estou cada vez mais moça?
     E eu que pensei que, depois da morte de Marcos, nada mais me abatesse.

     Eu tinha quarenta anos quando perdi meu filho. Um caminhão entrou desgovernado no campinho de futebol e atropelou cinco meninos. Marcos foi o único que morreu.

     Quando Luís ligou para me cumprimentar pelo aniversário (ele só liga nas datas redondas) ficou sabendo da morte do filho que ele nem chegou a conhecer. Nunca lhe contei quem era o pai.
Neste dia, eu me lembro, ele estava muito feliz. Fernando acabara de entrar na faculdade de Medicina.
     Quando fiz trinta anos, Luís me procurou e nós nos tornamos amantes. O casamento dele com Maria Amélia não ia bem. "Você é a mulher da minha vida, a única que amei de verdade". Eu sempre soube disso. Nosso caso durou pouco. Terminamos sem que ele soubesse que eu estava grávida.
     Aos vinte, quando pensei que ele fosse me pedir em casamento, casou-se com Maria Amélia. "Ela está esperando um filho meu, me perdoa".
     Eu tinha dez anos quando Luís mudou-se para a minha rua.

Ivana Arruda Leite

Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

Estudando os contistas pós-utopicos ou as novas formas
da Literatura Brasileira.

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