domingo, 24 de maio de 2009

A VERDADEIRA TRAGÉDIA


Jamais esquecerei aquele 11 de setembro. Quando acordei, estranhei que Hugo ainda estivesse em casa. Normalmente, ele já teria tomado banho, feito o café e saído para o trabalho. Mas não, ainda estava lá, sentado na sala, de camisa esporte.
- Precisamos conversar – ele disse.
- Fala – respondi com a boca seca.
- Eu estou indo embora.
Sem querer ouvir o resto, levantei-me e fui à cozinha. Debrucei-me sobre a pia com o corpo tremendo. Pensei em pegar uma faca.
- A chave está na mesinha – ele disse lá da sala.
Foi a última vez que ouvi sua voz. Soube depois que, nesse mesmo dia, aconteceu um acidente terrível em Tóquio ou Nova Iorque. Um avião egípcio bateu numa torre e derrubou uma antena de televisão. Não sei direito como foi a tragédia, mas duvido que tenha sido pior do que a minha.

Ivana Arruda Leite

Ao homem que não me quis

5 comentários:

  1. Ao ler "A verdadeira tragédia", lembrei automaticamente do prof. Eduardo falando sobre a necessidade que o leitor tem de construir/imaginar os demais dados da história.
    Fiquei pensando: a pessoa que "foi largada" pelo marido não explicou nada sobre o relacionamento (se estava morno ou congelado) - só há uma sugestão de que estava desgastado quando ela menciona que nem via o marido antes de ele sair de casa...
    O que me intrigou é o fato de que o egoísmo/ individualidade é tratado de forma que faça o leitor refletir (pelo menos, o mais reflexivo) - então, acho que há pelo menos de certa forma um toque de moralização aqui também.
    Eu e as moralizações...rsrsrsrs

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  2. Ivana Arruda Leite desenvolve neste conto um tema central em sua criação, a relação afetiva homem/mulher. Trabalha com economia, diálogos curtos dentro de uma narrativa linear, reduzindo a trama ao embate do casal. O foco em primeira pessoa privilegia a perspectiva da protagonista, reforçando a trama intimista, o "drama" da separação, e a violência contida, muito próximo do melodrama. Em Ivana, as relações humanas, o prosaico da vida tem espaço privilegiado, e não o choque, a espetacularização da violência. Ainda assim, uma marca frequente da autora é a ironia, presente neste conto, no fato do "drama pessoal" (a partida do homem amado) suplantar o evento que marca a entrada real da humanidade no século XXI, a queda das torres gêmeas do World Trade Center. "A verdadeira tragédia" do título reforça a ironia, pois os maiores eventos se apequenam para protagonista diante de seu drama íntimo.

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  3. Ao ler, achei que o foco seria a atitude tão individualista da protagonista ao considerar a "própria tragédia" como uma tragédia maior que a de um desastre (que, apesar de não estar explícito, deve ter matado várias pessoas).

    Algo que também me chamou a atenção é que não tinha conseguido relacionar o desastre do conto com o desastre na vida real do 11 de setembro - então, após ler o comentário do professor, pensei - a protagonista tenta minimizar a situação do desastre de avião para supervalorizar o próprio (atitude comum na sociedade - autopiedade excessiva).

    Acredito mesmo que essa ironia tem como objetivo levar o leitor à percepção do quanto os humanos são ridículos/egoístas, pois o conto coloca o leitor numa situação de espectador de uma cena que pode acontecer (ou já aconteceu) com qualquer um - e "quem está de fora" sempre é mais racional do que aquele que está vivenciando a situação.

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  4. Resumidamente, a partir do estudo do conto, são levantadas as seguintes características:
    a) Narrador - personagem: Prevalece o descritismo ao retratar a realidade.
    b) Tema – relação afetiva homem/mulher.
    c) Quanto à forma – a autora se preocupa com o envolvimento emocional do leitor, utiliza a comparação e emprega vocabulário fácil, sem adjetivos.
    Enfim, o conto é expresso com tanta coerência interna, que nos dá a impressão de realidade. Além da característica básica em sua construção, a economia dos meios narrativos.

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  5. À dor do indivíduo que fala, nada se compara.
    Quem melhor do que a vítima para contar sua tragédia? A narrativa em primeira pessoa não só condensa narração e ação, como maquia a influência do autor no texto, dando voz à personagem que pode reportar-se diretamente ao leitor, e com este criar uma relação de empatia.
    O efeito irônico, característica estilística deste conto, reside na comparação da tragédia privada fictícia (abandono pelo ser amado) com a pública (o ataque terrorista de 11/09/2001), fato verídico de maior repercussão no século XXI e, portanto presente na memória contemporânea, cuja importância é deliberadamente deturpada e reduzida pelo drama particular reportado.

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