domingo, 31 de maio de 2009

A última tentação do monge (Uma fábula Nô)
























Havia um lago, um mestre e um monge. Os aviões aterrissavam em pistas de gelatina. Havia uma serpente gulosa, devoradora de maçãs. E havia uma linda mulher, que estava sempre chapada de LSD.

O mestre disse ao monge para não beber da água verde-jade daquele lago. Estava contaminada.

Ambos caminharam dias e noites pelas colinas que rodeavam o lago. Sol escaldante e lua fria. Leve farfalhar de leques. Neve de papel picado.

A serpente disse ao monge que o mestre estava mentindo. As águas eram límpidas e a mulher banhava-se todas as tardes em seu leito.

O monge cortou a serpente ao meio com sua espada.

Agora, eram duas serpentes.

A areia bebeu as últimas gotas de água do cantil e os cactos mudaram-se para outro deserto, a milhas e milhas. O monge resistiu à tentação das serpentes. E a linda mulher ofereceu o leite dos seus seios e as macieiras derramaram seus frutos na areia. Mas o monge mirava em silêncio o mestre impávido em posição de lótus. Dia após dia, o mestre parecia uma caligrafia cada vez mais apagada. O monge firmava os olhos com dificuldade para enxergar a silhueta esvoaçante, emoldurada pelo manto azul-pálido.

A mulher tentou convencê-lo a beber o leite dos seus seios. As duas serpentes trouxeram cestas cheias de maçãs.

O mestre se apagava mais e mais aos olhos do monge. Uma folha de papel de arroz, pálida, quase transparente, um bloco de vidro sem reflexos.

Quando o monge tombou na areia, a mulher chorou e o mestre bebeu suas lágrimas. Depois, mergulhou nas águas verde-jade do lago.

Agora, eram dois mestres.

Ademir Assunção

in Conto até dez.

2 comentários:

  1. A ambientação, do meu ponto de vista, parece onírica - please, me corrija profs.
    Além de as descrições/situações nos remeterem à bíblia em Genesis (criação do mundo), tudo parece muito simbológico e parece sugerir que o homem comum (monge),ao resistir às naturais tentações/limitações da vida, consegue atingir uma condição equivalente a do mestre ("Agora, eram dois mestres").

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  2. A ambientação, do meu ponto de vista, parece muito onírica (please, me corrija profs), pois, além de nos remeter à bíblia (Genesis), também é muito simbólica.
    A mim, o enredo pareceu sugerir que o homem comum (monge), ao conseguir enfrentar as tentações/limitações da vida, conseguiu alcançar uma condição superior igual a do mestre ("Agora, eram dois mestres").

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