sábado, 15 de agosto de 2015

LIsta de autores para Gabriel

Marginais, marginalizados, viés social
Marcelino Freire
Marçal Aquino
Fernando Bonassi
Ferréz
Luiz Ruffato
Paulo Lins
Luís Francisco Carvalho Filho
Gayrant Gallo
Ivana Arruda Leite
Ronaldo Correia de Brito
Alberto Musa


Popismos e tramas surreais

Verônica Stigger
Nelson de Oliveira
Clarah Averbuck
Andrea del Fuego
Marcelo Mirisola
Lourenço Mutarelli
Santiago Nazarian
Natércia Pontes
Fabrício Carpinejar
Ademir Assunção
Adriana Lisboa
Cecilia Gianneti
Chico Matoso
Edson Cruz
Joca Reiners Terron
Paulo Scott
Ronaldo Bressane
Alberto Martins
Patricia Melo
Evandro Affonso Ferreira



Transgressores matrizes
Rubem Fonseca
Dalton Trevisan
Valêncio Xavier
João Antônio


Transcendentes e existencialistas
Hilda Hilst
Raduan Nassar
Osman Lins
Clarice Lispector
João Guimarães Rosa

Nuno Ramos


Intimistas, feministas, autores com causa
Lygia Fagundes Telles
Caio Fernando Abreu
Marcia Denser
Beatriz Bracher
Cristóvão Tezza
Marina Colasanti
Wander Piroli
Wilson Bueno
Sérgio Santana
João Gilberto Noll
Luís Vilela
Ivan Ângelo
Silviano Santiago



Novos intimismos
Daniel Galera
Rubens Figueiredo
Adriana Lisboa
Michel Lub
João Anzanello Carrascoza
Bernardo Carvalho
Cíntia Moscovich
Tercia Montenegro
Heloisa Seixas
Paloma Vidal



Os Melhores Jovens Escritores Brasileiros segundo a revista GRANTA

Cristhiano Aguiar, da Paraíba
Javier Arancebia Contreras, de Salvador, de família chilena
Vanessa Barbara, de São Paulo
Carol Bensimon, de Porto Alegre
Miguel del Castilho, nasceu no Rio de Janeiro de pai uruguaio
João Paulo Cuenca, do Rio de Janeiro
Laura Erber, do Rio de Janeiro
Emilio Fraia, de São Paulo
Julian Fuks, de São Paulo
Daniel Galera, de São Paulo, mas morador de Porto Alegre
Luiza Geisler, de Canoas, mais nova, nasceu em 1991
Vinícius Jatobá, do Rio de Janeiro
Michel Laub, de Porto Alegre
Ricardo Lísias, de São Paulo
Chico Mattoso, nasceu na França, mas cresceu em SP
Antônio Prata, de São Paulo
Carola Saavedra, nasceu no Chile, mora no Rio
Tatiana Salem Levy, do Rio de Janeiro
Leandro Sarmatz, do Rio Grande do Sul
Antônio Xerxenesky, do Rio Grande do Sul







Cristhiano Aguiar nasceu em Campina Grande, Paraíba, e formou-se em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco. Tem 31 anos. Em 2006, publicou o livro de contos "Ao lado do muro" (Dinâmica) e em 2007 venceu o Prêmio Osman Lins de contos. Lançou, em 2010, durante a FreePorto (PE), o folheto de narrativas "Os justos", em edição artesanal pela Moinhos de Vento. É colaborador do suplemento literário Pernambuco. Editou a revista de arte e cultura pop Eita! (http://issuu.com/revistaeita) e a revista literária Crispim (www.revistacrispim.com.br). Foi curador e coordenador do Festival Recifense de Literatura e coorganizou a antologia de contos "Tempo bom" (Ed. Iluminuras). Atualmente trabalha em seu primeiro romance e em ensaios sobre literatura brasileira contemporânea. “Teresa” faz parte de Silêncio, livro de contos inédito.
Javier Arancibia Contreras nasceu em Salvador, BA, após sua família migrar do Chile durante o período de ditadura militar, mas vive desde a adolescência em Santos, SP. Escreveu os romances "Imóbile" (Editora 7Letras, 2008), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e "O dia em que eu deveria ter morrido" (Editora Terceiro Nome, 2010), premiado com uma bolsa literária do Governo do Estado de São Paulo. É também roteirista de cinema e, durante os anos em que trabalhou como repórter policial, escreveu um livro-reportagem/ensaio biográfico sobre o dramaturgo Plínio Marcos ("A crônica dos que não têm voz", Boitempo Editorial, 2002).
Vanessa Barbara nasceu em junho de 1982 no bairro do Mandaqui, em São Paulo. É jornalista, tradutora e escritora. Publicou "O livro amarelo do terminal" (Cosac Naify, 2008, prêmio Jabuti de Reportagem), o romance "O verão do Chibo" (Alfaguara, 2008, em parceria com Emilio Fraia) e o infantil "Endrigo, o escavador de umbigo" (Editora 34, 2011), ilustrado por Andrés Sandoval. Como tradutora, recentemente lançou sua versão de "O grande Gatsby" (Penguin/Companhia das Letras). É editora do site A hortaliça (www.hortifruti.org) e cronista do jornal Folha de S.Paulo. "Noites de alface" é um trecho de seu próximo romance.
Carol Bensimon nasceu em 22 de agosto de 1982, em Porto Alegre. Fez mestrado em escrita criativa na PUC-RS e viveu dois anos em Paris. Alguns de seus contos foram publicados em revistas e coletâneas. Seu primeiro livro de ficção, composto por três novelas, é "Pó de parede" (Não Editora, 2008). Em 2009, publicou pela Companhia das Letras o romance "Sinuca embaixo d’água", finalista dos prêmios São Paulo, Jabuti e Bravo!. O trecho publicado em Granta faz parte de seu novo romance, Faíscas.
Filho de pai uruguaio e mãe carioca, Miguel Del Castillo nasceu no Rio de Janeiro, formou-se em arquitetura pela PUC-Rio e mudou-se para São Paulo em 2010, onde atualmente é editor da Cosac Naify. Foi editor da revista Noz, de arquitetura e cultura, e recebeu o prêmio Paulo Britto de Poesia e Prosa com o conto “Carta para Ana”, publicado na Antologia de prosa Plástico Bolha (Editora Oito e Meio, 2010). Tem 25 anos e trabalha, atualmente, em seu primeiro livro de contos, do qual “Violeta” faz parte.
João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior e é autor dos romances "Corpo presente" (Planeta, 2003), "O dia Mastroianni" (Agir, 2007) e "O único final feliz para uma história de amor é um acidente" (Companhia das Letras, 2010), publicado também em Portugal, na Espanha e na Alemanha. Em 2007, foi selecionado pelo Festival de Hay e pela organização do festival Bogotá Capital Mundial do Livro como um dos 39 autores mais destacados da América Latina com menos de 39 anos. “Antes da queda” faz parte de seu próximo romance, a ser publicado em 2013.
Laura Erber nasceu em 1979 e mora no Rio de Janeiro. É artista visual, formada em letras, com doutorado em literatura pela PUC-Rio, foi escritora em residência na Akademie Schloss Solitude de Stuttgart e no Pen Center de Antuérpia. Publicou contos e ensaios em diversas revistas e tem quatro livros de poesia, entre eles "Insones" (7Letras, 2002) e "Os corpos e os dias" (Editora de Cultura, 2008), finalista do Prêmio Jabuti na categoria poesia. Prepara um livro sobre Ghérasim Luca pela Eduerj e, atualmente, trabalha em seu primeiro romance, "Os esquilos de Pavlov", a ser publicado pela Alfaguara em 2013.
Emilio Fraia é editor de literatura da editora Cosac Naify. Publicou no Brasil autores como Enrique Vila-Matas, Antonio Tabucchi, Macedonio Fernández e William Kennedy. Nasceu em São Paulo em 1982. Como jornalista, foi repórter das revistas Piauí e Trip. Escreveu, em parceria com Vanessa Barbara, o romance "O verão do Chibo" (Alfaguara, 2008), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura, e atualmente termina a graphic novel "Campo em branco" (Companhia das Letras) com o ilustrador DW Ribatski.
Julián Fuks nasceu em novembro de 1981, em São Paulo. Filho de pais argentinos, foi repórter da Folha de S. Paulo e resenhista da revista Cult, além de publicar contos em diversas revistas e na antologia Primos: histórias da herança árabe e judaica (Record, 2010). É autor de "Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu" (7Letras, 2004), "Histórias de literatura e cegueira {Borges, João Cabral e Joyce}" (Record, 2007), finalista dos prêmios Portugal Telecom e Jabuti, eProcura do romance (Record, 2011).
Daniel Galera nasceu em 1979, em São Paulo, mas passou a maior parte da vida em Porto Alegre. É um dos criadores da editora Livros do Mal, pela qual publicou o volume de contos "Dentes guardados" (2001). É autor dos romances "Até o dia em que o cão morreu" (Livros do Mal, 2003), adaptado para o cinema, "Mãos de cavalo" (Companhia das Letras, 2006), publicado também na Itália, na França, em Portugal e na Argentina, e "Cordilheira" (Companhia das Letras, 2008), vencedor do Prêmio Machado de Assis de Romance, da Fundação Biblioteca Nacional. Em conjunto com o desenhista Rafael Coutinho, publicou em 2010 a graphic novel "Cachalote". “Apneia” faz parte de um romance em andamento.
O livro de estreia de Luisa Geisler — Contos de mentira(Record, 2011) — foi escolhido pelo Prêmio SESC de Literatura 2010/2011 na categoria conto. No ano seguinte, o mesmo prêmio escolheu sua novela de estreia — "Quiçá" (Record, 2012) — na categoria romance. Atualmente, ela é colunista da página final da revista Capricho. Luisa nasceu em 1991 em Canoas, RS. Contudo, passa boa parte do seu tempo em Porto Alegre, estudando Ciências Sociais (UFRGS) e Relações Internacionais (ESPM/RS), e escrevendo sentada no chão do metrô.
Vinicius Jatobá nasceu em 1980, no Rio de Janeiro. É mestre em Estudos de Literatura pela PUC-Rio e estudou roteiro e direção na New York Film Academy (NYFA). Como crítico literário, colabora com os suplementos “Sabático” (O Estado de S. Paulo), “Prosa & Verso” (O Globo) e na revista Carta Capital. Participou com contos na antologia Prosas Cariocas(Casa da Palavra) e no catálogo de cinema 68 Cinema Utopia Revolução (Caixa Cultural São Paulo). Publicou ficção, crônicas e jornalismo em sites e revistas como EntreLivros, NoMínimo, Rascunho e Terra Magazine, onde foi colunista de livros e de cinema. Escreveu e dirigiu diversos curtas, entre eles "Alta Solidão" (2010) e "Vida entre os mamíferos" (2011). Trabalha em seu primeiro romance, "Pés Descalços", e finaliza a reunião de contos "Apenas o vento", de onde “Natureza--Morta” foi retirado.
Escritor e jornalista, Michel Laub publicou cinco romances, todos pela Companhia das Letras. Entre eles, "Longe da água" (2004), publicado também na Argentina (EDUCC), "O segundo tempo" (2006) e "Diário da queda" (2011), que teve os direitos vendidos para o cinema, recebeu os prêmios Brasília e Bravo/Bradesco e sairá na Alemanha (Klett-Cotta), Espanha (Mondadori), França (Buchet/Chastel) e Inglaterra (Vintage). Nasceu em Porto Alegre, em 1973, e vive atualmente em São Paulo.
Ricardo Lísias nasceu em 1975, em São Paulo. É autor de "Anna O. e outras novelas" (Globo), finalista do Prêmio Jabuti de 2008, "Cobertor de estrelas" (Rocco), traduzido para o espanhol e o galego, "Duas praças" (Globo), terceiro colocado no Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira de 2006, e "O livro dos mandarins" (Alfaguara), finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2010, atualmente sendo traduzido para o italiano. Em 2012, publicou o romance "O céu dos suicidas" (Alfaguara). Seus textos já foram publicados também na revista Piauí e nas edições 2 e 6 de Granta em português.
Chico Mattoso nasceu na França, em 1978, mas sempre viveu em São Paulo. Formado em  letras pela USP, foi um dos editores da revista Ácaro e tem textos publicados em diversos jornais e revistas. Longe de Ramiro (Editora 34, 2007), seu primeiro romance, foi finalista do prêmio Jabuti. Em 2011, publicou pela Companhia das Letras seu segundo livro, "Nunca vai embora". Também trabalha como roteirista. Mora atualmente em Chicago, onde estuda escrita dramática na Northwestern University.
Antonio Prata nasceu em 1977, em São Paulo, e tem nove livros publicados, entre eles "Douglas" (Azougue Editorial, 2001), "As pernas da tia Corália" (Objetiva, 2003), "Adulterado" (Moderna, 2009) e, mais recentemente, "Meio intelectual, meio de esquerda" (Editora 34,2010), que reúne crônicas publicadas em jornais e revistas. Mantém uma coluna às quartas no caderno “Cotidiano” do jornal Folha de S.Paulo e escreve para televisão.
Carola Saavedra nasceu no Chile, em 1973, mas aos três anos de idade se mudou para o Brasil. Morou na Espanha, na França e na Alemanha, onde concluiu um mestrado em comunicação. Vive atualmente no Rio de Janeiro. É autora do livro de contos "Do lado de fora" (7Letras, 2005) e dos romances "Toda terça" (2007), "Flores azuis" (2008 — eleito melhor romance pela Associação Paulista de Críticos de Arte) e "Paisagem com dromedário" (2010 —Prêmio Rachel de Queiroz na categoria jovem autor), publicados pela Companhia das Letras.
Tatiana Salem Levy é escritora, tradutora e doutora em estudos de literatura pela PUC-Rio. É autora do ensaio "A experiência do fora: Blanchot, Foucault e Deleuze" (Civilização Brasileira, 2011) e dos romances "A chave de casa" (Record, 2007) — vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, categoria romance de estreia, e publicado também em Portugal, França, Espanha, Itália, Turquia e Romênia — e "Dois rios" (Record, 2011), que sairá em breve em Portugal e na Itália. Nasceu em Lisboa, em 1979, e vive no Rio de Janeiro.
Leandro Sarmatz vive em São Paulo desde 2001, onde trabalhou nas editoras Abril e Ática, e atualmente trabalha na Companhia das Letras, editando, entre outros autores, Carlos Drummond de Andrade, Pedro Nava e Otto Lara Resende. É poeta, contista, dramaturgo e nasceu em Porto Alegre em 1973. Mestre em Teoria Literária, é autor da peça "Mães & sogras" (IEL, 2000), dos poemas de "Logocausto "(Editora da Casa, 2009) e dos contos reunidos em "Uma fome" (Record, 2010).
Ficcionista nascido em 1984, em Porto Alegre, Antônio Xerxenesky formou-se em letras e é mestre em literatura comparada pela UFRGS. Colabora com resenhas e críticas para diversos jornais e revistas e foi um dos fundadores da Não Editora, em 2007, por onde lançou seu primeiro romance, "Areia nos dentes", em 2008. Seu livro mais recente é a coletânea de contos "A página assombrada por fantasmas", editado pela Rocco em 2011. O texto selecionado faz parte de seu novo romance, "F para Welles".

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A nova literatura brasileira: Jovem, branca, urbana e de classe média

A nova literatura brasileira: Jovem, branca, urbana e de classe média

A última geração de escritores brasileiros se distancia do exotismo e cultiva uma narrativa cosmopolita e global


Se houvesse uma hashtag do escritor brasileiro com menos de 40 anos seria homem, branco, urbano, cosmopolita e indiferente a contrastes brutais de realidades sociais. "Este é um país muito desigual", disse Antonio Prata (São Paulo, 1977), cujas histórias, que concilia com colaborações para a Folha de S.Pauloe com roteiros para a televisão, estão ambientadas em sua cidade natal e refletem, de certa maneira, o elevador social de uma das megalópoles do planeta. "Se você for a um concerto na Sala São Paulo, não verá um negro entre o público. Em toda minha vida escolar, nunca tive um colega de escola negro, embora grande parte da população seja de negros. Dedica-se à literatura apenas aquele que está alfabetizado e a maioria é de classe média para cima e vive em grandes cidades. Há, claro, exceções, como em tudo. Talvez o livro mais importante dos últimos 20 anos seja Cidade de Deus, de Paulo Lins: um negro que veio da periferia".
Se como disse o crítico literário Antonio Candido, no prólogo do famosoRaízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, uma geração se caracteriza porque "seus membros nascem, a princípio, diferentes uns dos outros e, em pouco tempo, vão parecendo-se tanto que acabam desaparecendo como indivíduos", está claro que se pode falar de uma nova literatura entre os nascidos depois dos anos 1970, muito distante do regionalismo e dos costumes dos seus antecessores, depois da independência do país. Apesar do clichê do exotismo, a diversidade e a multietnicidade associados ao gigante sul-americano, a nova narrativa brasileira poderia estar ambientada em Paris, Londres e Madri e, de fato, está. "Se escrever histórias ambientadas em outros países fosse um problema, Shakespeare não existiria", assegura Carola Saavedra(Santiago de Chile, 1973), uma das escritoras jovens mais premiadas.
Prata e Saavedra são dois dos nomes mais interessantes do panorama atual em que estariam, entre outros, João Paulo Cuenca (Rio de Janeiro, 1978), Cristhiano Aguiar (Campina Grande, 1981), a poetisa e contista Luisa Geisler (Canoas, 1991), Emilio Fraia (São Paulo, 1982) ou Laura Erber (Rio de Janeiro, 1979), vários desses considerados estrelas emergentes pela edição que a prestigiada revista britânicaGranta dedicou ao Brasil e alguns que participaram da última Feira de Frankfurt, na qual o país foi o principal convidado.
"Há um grande desejo de se distinguir, de se afastar da geração anterior", disse Cuenca, eleito como um dos 39 melhores escritores latino-americanos com menos de 40 anos pelo Hay Festival da Colômbia e autor, entre outros, de Corpo Presente (Ed. Planeta, 2002) e A Última Madrugada (Ed. LeYa, 2012), e que combina a fascinação pela cultura japonesa com o compromisso social, chegando a promover na Internet o direito de manifestação, em meio aos protestos de junho de 2013. "Não sou o único que pensa assim. O que acontece é que o restante dos meus contemporâneos não são tão sinceros quanto eu, são muito mais políticos no pior sentido da palavra", aponta, com um espanhol perfeito (seu pai é argentino), salpicado de termos cariocas.
Antonio Prata. / RENATO PARADA
Com cinco obras publicadas e traduzidas, seu universo literário move-se entre a ficção científica e o suspense, entre Philip K. Dick, Allan Poe, Murakami e Orwell, entre a obsessão pelas redes sociais e as novas tecnologias e os escritores cariocas do século passado, embora, agora, a fronteira entre a realidade e a ficção esteja borrada. Seu próximo romance, que sairá este ano, chama-se A Morte de J. P Cuenca e tem um ar autobiográfico, com reminiscências de O Terceiro Homem, clássico de Carol Reed. "Acontece em 2008, quando a polícia descobre um cadáver em um edifício ocupado no centro do Rio. Carregava minha identidade e minha certidão de nascimento. A partir daí, contratei um detetive e reconstruí a história como um trama policial", disse o autor de O Único Final Feliz Para Uma História de Amor É Um Acidente (Companhia das Letras, 2010).
"Pluralidade é a palavra chave quando se fala de estéticas contemporâneas", assegura Cristhiano Aguiar que, com um único livro de contos (Ao Lado do Muro, Ed. Dinâmica, 2006), sacudiu a cena literária brasileira, ganhando o prêmio Osman Lins de contos no ano seguinte, e agora prepara vários ensaios sobre seus contemporâneos. "As grandes cidades são um cenário privilegiado de nossa ficção, apesar de alguns escritores também abordarem temas rurais ou do interior. Cada vez com mais frequência, mistura-se a erudição com gêneros considerados menores como a fantasia, o terror e a ficção científica. Em troca, o compromisso com o questionamento e a criação de uma identidade nacional é menor, ao menos se compararmos com as gerações anteriores", conclui.
Carola Saavedra. / TOMÁS RANGEL
Essa literatura cidadã dominada, como em outros países, pela chamada autoficção, a mescla de gêneros, o auge do conto, que tem uma larga tradição, e a narrativa fragmentada e episódica, própria das redes sociais, não apenas prejudica o compromisso, característico da chamada "geração 90", surgida nos anos, com nomes como Luiz Ruffato ou o próprio Lins, depois da ditadura militar de 1964 a 1985. Também rechaça uma rica e centenária tradição literária e vive em conflito entre a identidade e o cosmopolitismo, sinal dos tempos, sobretudo em países emergentes, como o Brasil, com 75% da sua população vivendo em cidades de mais de um milhão de habitantes. "Já houve uma grande ruptura com os anos 1970, que fechou um ciclo mais ou menos clássico da ficção e da poesia do século XX", disse Cristóvão Tezza, que por idade (61) e obra (seu livro O Filho Eterno, por exemplo, foi publicado em 2007) é quase um clássico. "Nos anos 1980 e 1990, houve uma espécie de hibernação de uma geração intermediária que seguiu novos caminhos, mas foi uma transição. A característica da nova literatura é a ruptura com a tradição clássica. Reflete claramente a nova realidade econômica, política e social do Brasil. Hoje, o país é profundamente urbano e tenta dialogar com a realidade internacional", assegura.
A esse processo precisa-se somar a aparição de uma classe média de 40 milhões de pessoas, a chamada classe C, inexistente há uma década, que exige um bem-estar maior, e cuja vitalidade contrasta com a impotência com a qual os políticos enfrentam os crescentes protestos sociais. "Essa tendência universalista e cosmopolita não tem por que ser vista como algo negativo, perda de identidade ou algo semelhante. Simplesmente, as exigências de hoje são outras", aponta Tezza.
Cristhiano Aguiar / MARIO MIRANDA
Muitos críticos acreditam que a melhor literatura que agora se escreve no Brasil é a feminina, mais tridimensional e completa, mais destruidora na hora de romper tabus. Há pioneiras, como Claudia Tajes (Porto Alegre, 1963), cujos romances (Vida Dura, Louco por Homem ou A Vida Sexual da Mulher Feia) dissecam a sexualidade brasileira, com muito humor, ou Beatriz Bracher (São Paulo, 1961), com Não Falei, sobre um professor torturado durante a Ditadura Militar, que abriu caminho para as mais jovens: Carol Bensimon (Porto Alegre, 1982), Tatiana Salem Levy (Lisboa, 1979), admirada pelo britânico Ian Mc Ewan, Andrea del Fuego (São Paulo, 1975), ou a própria Saavedra, cujo livro Flores Azuis (Ed. Companhia das Letras), uma espécie de ressurreição do gênero epistolar, em pleno século XXI, foi eleito em 2008 como o melhor pela crítica paulista, e que publica no fim de março O inventário das coisas ausentes. "Não vejo diferenças quanto à qualidade da escritora nem em relação à visibilidade, a não ser nos prêmios literários, nos quais a proporção costuma ser de oito homens para duas mulheres", disse Saavedra. "Estamos em um momento ótimo. Não porque a literatura está melhor agora que há 20 anos, mas porque é uma época bastante favorável para os autores, publica-se mais e inclusive há incentivos para traduções. No entanto, devemos lidar com um problema muito sério que é a falta de leitores. E para isso, seria urgente uma mudança em todo o sistema educacional do país".


FONTE: EL PAIS
Link AQUI

sábado, 11 de abril de 2015

Sobre Dalton Trevisam




http://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,livro-de-ensaios-sobre-dalton-trevisan-ganha-edicao-ampliada,1667653

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Garimpo


Garimpo, de Beatriz Bracher

segunda-feira, 17 de março de 2014

Respostas de Alcir Pécora (Folha de São Paulo - 23-2-2014)

Respostas de Alcir Pécora

Professor de teoria literária da Unicamp e autor de "Máquina de Gêneros" (Edusp)
É possível apontar tendências da produção literária contemporânea?
Acho que a produção é bem dispersiva e pouco marcante, em qualquer tendência
que se observe. O que mais existe é, por assim dizer, um genérico de literatura, que
se expande muito, em várias direções, inflaciona a vida de signos, mas não tem
caráter decisivo como experiência ou como experimento.

Quais seriam suas principais qualidades e deficiências?
Já pela resposta anterior, estou mais preparado para falar dos defeitos. Na poesia,
há predomínio do gosto evocativo, sentimental, sentencioso e generalizante, pois
se trata mais de uma "ideia geral" (esse horror, como dizia o Eduardo Coutinho),
de um clichê confessional e de intimidade do que de experiência. Na prosa, há
muita narrativa sobre narrativa, que refere livros e vidas dos autores célebres, as
quais funcionam como piscadelas cúmplices para o leitor amigo capaz de
identificar as referências.
Ou seja, resumindo, na poesia, a praga é o kitsch, falta de fibra e de objetividade;
na prosa, o romanesco ralo, batido, com remissões ostensivas ao "mundo dos
livros" e à cultura de fachada.
Nos livros melhores- justamente os que se apresentam como exceções às
tendências –, permanece o compromisso com o novo (pois este é uma exigência
invencível do próprio campo da literatura) e com a verdade (com questões levadas
a sério, como experiência de viver e pensar o real).

A Feira de Frankfurt e os programas da política do livro mantidos pelo
governo (bolsas de tradução, bolsas de criação, criação de festivais)
trouxeram resultados significativos para a produção artística?
Esse tipo de iniciativa, à qual acrescentaria as festas e os prêmios literários cada vez
maiores e mais comuns, têm efeitos eventuais para a profissionalização do escritor
e para o incremento do mercado livreiro. Ou seja, pode favorecer quem faz da
literatura um negócio, mas os resultados mais comuns se resumem à publicidade

em favor de alguns autores de umas poucas editoras, o que pode gerar um cânone
de ocasião, por assim dizer, tirado da manga para um evento oficial e finito ali
mesmo.
A meu ver, a produção artística, em termos de nível médio, só é realmente afetada
pela qualidade do sistema educacional do país.
A perspectiva de aceitação no mercado exterior norteia de alguma
forma o tipo de literatura que se está produzindo? O jovem autor
escreve pensando no exterior?
"Jovem" já é uma categoria do negócio e não da literatura: trata-se de colocar
novos produtos na praça identificados a um novo público consumidor. Como
categoria do negócio, ela vai aonde vai o negócio, e, portanto, é crível a figura desse
"jovem" em busca de um padrão que vença no "exterior".
Mas duvido um pouco dessa abertura do exterior para a literatura brasileira. Essa
possibilidade deve permanecer um nicho de poucos, justamente aqueles
agenciados por grandes editoras, ou então de uns poucos autores já conhecidos,
entre eles o famigerado Paulo Coelho. Acho que o momento de curiosidade maior
pelo Brasil já passou. Ásia e África parecem estar mais na cena desse mercado
"exótico" do que o Brasil.
Existe uma "globalização" dos temas?
Eu li outro dia um livro brasileiro que imitava o Dan Brown, assim como li outros
que imitavam o Vila-Matas. Me lembro daquele projeto "Amores Expressos", que
colocava autores nacionais em cenários estrangeiros e buscava dar-lhes rumos
internacionais. Assim, há qualquer esforço de globalização de temas, mas na
prática ocorre apenas a adoção de estereótipos literários internacionais, os quais
acabam suscitando pouco interesse desse mercado globalizado.
O que o mercado globalizado da literatura pede, em geral, é o contrário do que já
pode ter por si mesmo. Isto é, pede o pitoresco e exótico locais, ou então narrativas
com testemunhos de experiências de minorias marginalizadas ou situadas em
zonas conflagradas e pouco conhecidas. Na primeira alternativa, Jorge Amado é
mais "globalizado" do que qualquer autor brasileiro contemporâneo que eu
conheça. Na segunda, há pouca coisa a ser oferecida pelo Brasil, pois a exclusão
social é grande a ponto de testemunhos de experiência direta raramente alcançar
versão escrita, quanto mais literária. Quando ocorre, dá-se muito mais na música
popular ou no documentário jornalístico que na literatura. Até a moda praiana,
produzida na favela, tem mais sentido de encaixe no mercado globalizado que a
literatura brasileira.

A literatura contemporânea inova em algum sentido? Ela renova
formas, gêneros? Como?
A literatura contemporânea, no Brasil ou fora dele, raramente inova, pois vive um
impasse radical. De um lado, já não consegue fazer a epopeia da construção
nacional, pois a circulação internacional do capital minou as bases do Estado-
nação; de outro, não cola como valor estético suficientemente duradouro, pois seu
programa, geralmente associado a reivindicação de direitos, tende a ser imediatista
e relativo a grupos restritos.
Acho que a Teoria tem ocupado a centralidade cultural que era da literatura. Os
grandes nomes da cultura, hoje, com rara exceção, são de pensadores, teóricos,
não de escritores.

Existe ainda no Brasil literatura "regional"? A origem geográfica é
determinante na literatura que se produz? 
Sinceramente não sei. Talvez haja. O Rio Grande de Sul, em especial, preza muito a
sua face gaucha. Sei que, em diferentes universidades do país, há disciplinas sobre
literaturas regionais. Seja como for, o mercado de livros é muito centralizado. S.
Paulo e Rio monopolizam a produção, a circulação, a distribuição etc., de modo
que, de alguma maneira, o Brasil é grande, mas vive encolhido.
Não apenas o "regional", mas a maior parte do que é produzido fora desse eixo fica
fora do acesso público nacional. É uma perda tremenda. Uma produção menos
determinada pelas modas editoriais, mais vincada em experiências reais seria
sempre um respiro, mesmo que não chegasse a ser grande. Nisso, não apenas a
música, mas o cinema tem se saído melhor: Pernambuco, por exemplo, tem uma
produção séria e de alcance internacional.
No que toca à segunda questão, a origem geográfica pode ser determinante ou não,
mas a literatura não admite determinação a priori, de nenhuma espécie. Por
exemplo, já que falamos em Pernambuco: Cabral ser pernambucano pode ser
importante para a sua literatura, mas é consideração que apenas podemos fazer a
partir da forma já efetivamente produzida. Antes, não.

A literatura produzida atualmente no país é política?
Está muito longe da política, embora, por vezes, se finja oportunisticamente de
política: li vários livros recentes que referem guerrilhas ou sequestros, mas elas
aparecem apenas como fait divers. Política ali é apenas uma tentativa de criar uma
aura séria ou histórica para a diversão fácil.



Em literatura, não existe característica determinante a priori. Não é como uma
língua já existente, ou uma variante de fala prevista nela. Ser política ou atribuir-

lhe qualquer essência particular apenas pode ser relevante depois que a forma
particular é efetuada. Antes disso, a literatura apenas pode ser pensada como
intervenção imprevista. Depois disso, quanto melhor ela for, mais ela é
autodeterminada em seus próprios termos.


A identidade nacional era, de uma forma ou outra, um tema sempre
presente em nossa ficção. Isso se perdeu? Essa questão deixou de ser
central?
Não é apenas questão de "identidade" nacional – identidade era apenas uma das
possibilidades de pensar os acontecimentos vividos com relativa urgência. A
questão, até por volta dos anos 60/70, a forma literária era central na interpretação
do país, parecia central na criação consistente de uma comunidade imaginária que
respondia por ele ou por seus destinos. Hoje, essa urgência interpretativa perdeu
fôlego para a representação de um pequeno espetáculo de si, de grupos de leitores
ou de comunidades mais restritas, com gostos e perspectivas a priori homogêneos,
ainda que disseminados pelo mundo. Quero dizer, enfim, que não me parece que
seja na literatura, na linguagem da invenção, que se trava, hoje, a batalha das
contradições do real ou da busca de suas alternativas mais consistentes.
Essa centralidade obtida em decorrência do fortalecimento do estado-nação é um
ciclo terminado, em função mesmo do enfraquecimento do Estado-nação no
contemporâneo. Isto posto, não entendo que seja possível qualquer retorno à
situação histórica anterior, nem acho que nos cabe qualquer nostalgia da
brasilidade perdida. Cabe, sim, à literatura buscar descobrir uma nova centralidade
para si no cerne da vida social. É isso ou conformar-se a um papel lateral,
secundário na cultura.
A minha opção, pessoalmente, é pela relevância decisiva da literatura. Mas criar
uma nova centralidade implica, a meu ver, em tirá-la desse "entre-lugar" no qual se
reduz à expressão de grupos de semelhantes ou de próximos, ou à produção e
consumo de entretenimento pop, no qual a crítica e o compromisso com o novo
não têm papel.
Reforçar a crítica, capaz de formular critérios adequados de análise das obras em
particular, e considerar as obras sob pressão do legado cultural mais exigente são,
para mim, as melhores pistas para uma retomada de seu lugar de força na cultura.
A chamada autoficção, voltada para o próprio eu, para a própria
experiência, parece ser um dos mais fortes motes da produção literária
dos últimos anos. Alguns estudos apontam uma exacerbação da
subjetividade, que seria vista como um valor de autenticidade. Como
avalia essa questão? Quais implicações disso na literatura brasileira?
Em geral, a única autenticação no gênero que tem sido chamado de autoficção no
Brasil é a da vulgaridade: uma exposição despudorada de uma falsa subjetividade,
construída para consumo imediato e obsceno em larga escala.
Claro, falando genericamente, pode-se dizer que toda ficção é "auto", ou seja, toda
invenção se associa à produção de uma subjetividade (não à sua representação
inerte ou transparente), mas o que tenho lido na esfera do que se autonomeia de
autoficção está bem mais próximo da falsificação da experiência e da história como
espetáculo vulgar.
Como as formas de interação via redes sociais se manifestam na
literatura que se produz hoje?
Formalmente, talvez na ideia de capítulos em pedacinhos, de literatura em
fragmentos, como os scrapbooks de adolescentes americanos: esse é um dos
modelos populares de literatura hoje. Há também um modo de compor o livro
inteiro nessa disposição segmentada: um capítulo sobre uma coisa, outro sobre
outra, o terceiro sobre outra, até que ao final se juntam no mesmo enredo de
última hora. É uma espécie de fecho de editor: como os capítulos têm passinhos
curtos, os caminhos se articulam tarde demais, às pressas, fora do tempo
construído por eles.
Mas o pior da interação redes sociais-literatura talvez seja a ideia de se escrever
para próximos, de estabelecer contato entre "amigos". Nesses termos, é mínima a
preocupação com o domínio técnico da língua, do assunto ou com o rigor da
criação, o que implica demanda do novo, sem o que não há literatura. Por isso
mesmo, é nula a demanda crítica, e quando um crítico se apresenta diante da obra,
ele acaba por assumir a condição de "intruso", como diz o crítico italiano Alfonso
Berardinelli.
Talvez um termo de Tony Judt esclareça melhor o assunto, pois a literatura sob o
influxo das redes sociais está balizada por "subjetividades expandidas" mais do que
pelo esforço de criação de objetos novos, que resistem a uma interpretação já dada
e partilhada. Ora, um aparelhamento ostensivo de gente que deve necessariamente
concordar entre si, rezar a mesma missa dos pares, nada tem a ver com uma ideia
importante de literatura. Enquanto tal, ela é produção de um artefato basicamente
estranho, de assimilação difícil, de acontecimento único, de criação de uma forma
que suscita necessariamente um ato livre de juízo.
Existe uma desagregação do romance como forma convencional –pela
fragmentação, pela intervenção gráfica?
Embora a fragmentação exista, como já comentei antes, o gênero do romance
(equivocadamente totalizado pelo modelo do romance naturalista francês) sempre
foi uma forma livre, aberta a experimentações gráficas e ao que mais a prosa
admita. Na Itália, por exemplo, nunca houve esse modelo do romance realista
totalmente articulado entre si. Nas outras literaturas, dá-se igualmente o caso: de
Sterne a Machado, de Huysmans a Joyce, de Proust a Broch, o que neles pode ser
chamado de romance convencional?
Tendo isso em mente, não vejo grandes experimentações gráficas atuais - ao
menos, não no que signifique participação do experimento no cerne do romance –,
mas apenas formas decorativas do livro. Quer dizer, há muito livro decorativo, com
páginas em várias cores, com tipologia alternada e alterada, mas a narrativa
propriamente é linear, quadrada, escrita embora aos pedacinhos.
Antologias, coletâneas temáticas, seletas de escritores e outras
iniciativas que partem do mercado editorial são frutíferas? Beneficiam
a produção? 
São iniciativas úteis para a divulgação do trabalho deste ou daquele autor

desconhecido ou não, ou para dar acesso a peças consideradas mais importantes
de um autor, segundo determinados critérios estéticos ou outros. Mas nada disso
beneficia diretamente a qualidade da produção. Como poderia, quando a
divulgação é um ato isolado, um evento ocasional, descolado da formação do
leitor?
Repito o que disse antes: o procedimento eficaz a ser adotado para favorecer a
produção literária é a qualificação do sistema educacional do país. Pode não
garantir nenhuma obra-prima, pois esta não tem explicação, nem cumpre hora
marcada pra acontecer, mas é apenas a força do processo educacional que garante
o peso relativo da cultura no país.
As oficinas de criação literária, que abundam nos últimos anos,
"moldam" a literatura que se produz hoje?
No Brasil, acho que não. Essas oficinas não são tão correntes nem tão prestigiosas
como nos Estados Unidos, onde têm presença marcante nas Universidades e nos
estudos literários. Aqui, os cursos são oferecidos de maneira amadora, quase como
aulas particulares de reforço de redação.
Que espaço tem a poesia hoje, na produção e no mercado? Pode
ganhar mais espaço após o sucesso surpreendente da edição da poesia
completa de Leminski no ano passado?
O espaço é pequeno e dificilmente deixará de continuar pequeno. No Brasil,
evidentemente, a situação é muito pior que nos países europeus, uma vez que é
mínimo o tamanho do público com formação cultural bem sedimentada, apto a
interpretar diversos registros da experiência e da linguagem.
Leminski foi um caso isolado de ajuste de uma campanha publicitária altamente
profissional com uma poesia de viés pop, que casou bem com a internet e com as
sentenças de sabedoria prática e auto-ajuda para jovens. A melhor poesia de
Leminski não se reduz a isso, mas, no conjunto, é uma poesia que admite esse
recorte. Nesses termos, é mais um exemplo da facilitação geral que sinal de uma
mudança boa de rumos. 

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Ypacaraí é aqui

Londres está cheia de porcos. Nas ruas, há bois boiando. E vacas que vão entrando pelas casas. É preciso fechar as cercas. Espantá-las da praça.
Falo, aqui, de uma Londres sul-americana. Onde a água, longe da Trafalgar Square, é pura lama. Poética. Como ir pela estrada, em viagem, e sentir cheiro de terra. Primitiva.
Foi o que eu fiz. Seguindo, de alguma forma, os passos do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (autor do clássico Eu, Supremo, morto em abril deste ano). Explico: Londres é Nueva London, vilarejo que conheci quando visitei o Paraguai em maio para participar da 2ª. Feira Internacional do Livro.
A saber: a comitiva ia parando. Até chegarmos à cidade de coronel Oviedo, onde a feira acontecia, a alguns quilômetros da capital, Assunção. Tudo uma vista parecida com o Nordeste do Brasil. Se a pobreza era física, era espiritual o calor humano. Temperatura: 28, à sombra.
Em 2003, fiz viagem semelhante a Bogotá. Foi por causa disso, inclusive, que me convidaram a voltar para mais uma reunião de escritores da nova geração. Esquecida. Aqui no Brasil faz tempo que não acontece um encontro similar. Uma comunhão de "los hermanos”. Quando acontecerá? Existe evento desse tipo no Chile e no Peru e na Bolívia. E no Brasil nadica. Nossa vocação é inglesa, sei lá. Francesa. Há quem tenha torcido a língua quando falei: "Estou indo ao Paraguai”. Por que não Paris? Portugal? Polônia?
Freqüento até velório, se for preciso. Para levantar defunto, recito um conto. Subo aos tamancos. Da Festa Literária Internacional de Parati até o Haiti, podem me chamar que eu vou. Pô! Que clausura é essa a do escritor? Na redoma? No chá da ABL, por que não servir um pouco de marijuana?
Chegamos. Almoçamos na casa do governador de Caaguazú. Como se aqui, um a um, fôssemos recebidos no palácio do Alckmin. Todas as honrarias à prosa e à poesia. Escritor é coisa importante, quem diria? Houve discurso de boas-vindas. E desabafos improvisados. Como o do poeta e embaixador equatoriano Francisco Suescum:
- Se não tomarmos cuidado, eles vão nos "borrar" do mapa.
Eles, os americanos. E os países ricos. O Brasil aqui incluído, fiquei com essa impressão. O Mercosul não existe. O que existe é desintegração. Velhas melodias em guarani. Um balé boliviano me fez chorar. Escondido. Somos mesmos intelectuais subdesenvolvidos. Lembrei do mercado editorial lá em Pernambuco. Um povo caduco a viver de UBE. E a publicar livros chinfrins. Quixeramobins e Tocantins. O Paraguai e sua terra vermelha me encheram de tristeza. Assim, Cuñataí.
Não quis dizer do meu drama para o escritor José Manuel Pérez, que me convidou. Ou para o organizador do evento, o obstinado poeta Fernando Pistilli. Ambos anfitriões de primeira. Eu é que já carregava comigo essa desilusão brasileira. Que a gente vai fingindo não existir. Porque somos teimosos. E vamos até o fim.
O negócio é simular um sorriso diplomático e ir atirando para todos os lados. Com os pés no teclado, haveremos de fazer a revolução. Seguindo o exemplo de Monica Bustos, em cujas mãos está o futuro fértil da literatura paraguaia.
Foi exatamente quando eu estava cansado de ver páginas empoeiradas e escritores que ainda posam de terno e gravata e autoras de alma penteada que Bustos me apareceu.
- Meu sobrenome, na verdade, é Busto. Mas coloquei um "S" para provocar.
Ela, uma jovem de 21 anos que me fez lembrar a gaúcha Clarah Averbuck. Acompanhada da avó, mostrava o seu Leão morto. Repito o nome: Leão morto. Eu disse: Leão morto. Um romanção de umas quatrocentas páginas (escrito aos 15 anos) que ela vendia e divulgava em uma das barracas.
"¿Qué se necesita para ser feliz?", pergunta ela no começo do primeiro parágrafo. Sem esperar pela resposta, é claro.
- Por isso eu mesma abri uma editora, a Cria Cuervos (por onde publicou, idem, o seu livro de contos Complexo de bustos).
Diz ela: "A gente cria urubus para depois eles pularem em cima da nossa carcaça".
É a luta, companheira.
Foi com a Monica Bustos que a feira me revelou o seu melhor frescor e me revigorou a esperança. Em quê? Voltei para o Brasil e fui direto à reunião do Movimento Literatura Urgente, a saber: manifesto assinado por mais de 180 escritores (www.literatura-urgente.com.br) que reivindica a definição de políticas públicas para o fomento ao trabalho de poetas, prosadores e ensaístas. Não se engane: aqui também precisamos, e muito, progredir. Feito o capim e a lama que alimentam os porcos e as vacas e os bois de Nueva London.
Logo ali, junto ao lago azul de Ypacaraí.
Marcelino Freire

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Hora de alimentar serpentes



Marina Colasanti fala sobre Hora de alimentar serpentes. Global. São Paulo. 2013.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Milton Hatoum

"O escritor não transcreve a vida, inventa a vida"


Milton Hatoum, o escritor brasileiro de origem libanesa, veio a Lisboa conversar com o poeta sírio Adonis na Gulbenkian. Falaram de política, mas sobretudo como a literatura e a poesia podem fazer a ponte entre Ocidente e Oriente

Aos 61 anos, o escritor brasileiro Milton Hatoum não tem pressa. Na era em que os livros parecem ser fabricados em série, publicou apenas seis em quase 25 anos de carreira - e escreve-os à mão.

Vencedor dos prémios Jabuti e Portugal Telecom de literatura defende que o escritor tem de ter coragem para escrever e mais ainda para ficar em silêncio.

Ele, que acredita nos bons leitores, diz que é assustador ver um presidente culto como Barack Obama em visita ao Brasil citar Paulo Coelho e não Machado de Assis ou Clarice Lispector.

Sobre o Brasil e o futuro do país do futuro? Votou em Dilma Rousseff - "as outras opções eram assustadoras" - e acha que ela vai ganhar de novo. As manifestações nas ruas da cidades brasileiras eram contra tudo: "O que a imensa maioria queria era uma política pública mais eficaz, porque há dinheiro para isso."

Costuma dizer que "um dos enigmas da literatura é a passagem da experiência para a linguagem" - justamente o tema da conferência que veio fazer na Fundação Gulbenkian, em Lisboa. É possível desvendar este enigma?

O enigma nunca é decifrado. Na literatura, o estético, como disse o Borges [o escritor argentino Jorge Luis Borges], é o lugar do enigma. O que é fascinante na literatura é justamente esta possibilidade de inventar aquilo que poderia ter existido ou aquilo que pode existir. O enigma que nunca é decifrado irradia possibilidades de leitura e de interpretação. Esta é a verdade da literatura, é a verdade das relações humanas, não é uma verdade científica nem das respostas definitivas. Ao contrário, ela coloca questões o tempo todo. No meu romance Dois Irmãos (lançado há 12 anos com mais de 140 mil cópias no Brasil e que agora vai ser adaptado para a televisão), o grande enigma é saber quem é o pai do narrador.

O grande desafio do escritor é transformar a sua experiência em linguagem. Todo mundo tem uma experiência, que pode ser mais rala, mais livresca, que pode ser uma experiência de leitura, de vida aventureira ou não. A questão da literatura é como isto se transforma em linguagem. A imaginação, que é o que para mim dá força à literatura, tem que traduzir esta experiência. O valor da arte está ligado à força da imaginação.

Escreve todos os seus livros à mão. Não usa o computador. Porquê?

Tem a ver com os gestos, com algo corporal, com o hábito do arquitecto de fazer desenhos. Eu fui arquitecto [é formado em Arquitectura pela Universidade de São Paulo] muito antes dos programas de computador. Na minha época, para entrar numa faculdade de Arquitectura, você tinha que dominar o desenho. E eu me acostumei a escrever à mão - com aquilo que a gente ligava o projecto ao desígnio, ao desejo. O Roland Barthes tem um texto bonito sobre isso, sobre os manuscritos dos escritores franceses, compara o manuscrito do Balzac a uma espécie de fogo-de-artifício onde há muitas correcções, uma coisa meio arbórea. Eu me sinto mais livre escrevendo à mão. Acho que meu pensamento flui. As ideias também fluem mais com a caneta do que na tela. Eu posso passar horas escrevendo e não cansa porque também não escrevo copiosamente. Em 25 anos - o meu primeiro romance, Relato de Um Certo Oriente, vai fazer 25 anos em Abril do ano que vem - eu publiquei seis livros.

Afirmou em algumas entrevistas que um escritor tem de ter coragem de escrever e também coragem de silenciar para não escrever asneiras. A sua coragem para silenciar é maior do que a de escrever?

Não vejo nenhuma importância em publicar coisas supérfluas. O leitor é esperto. Há bons leitores. O leitor percebe quando a coisa não é trabalhada, quando você não diz uma verdade íntima. Isso é muito claro. Se eu fosse mais rápido, teria publicado mais coisas de que gosto. E não prejudiquei ninguém com isso.

Agora é impressionante a quantidade de livros. É curioso, quando eu morava na França, ouvi uma conversa sobre literatura entre o Maurice Nadeau e o Roland Barthes (que depois foi publicada - Sur la Littérature). O Nadeau perguntou ao Barthes sobre a crise da literatura. "Não há crise da literatura" - disse o Barthes. "Há excesso de livros." Isso em 1980. Então hoje a literatura virou outra coisa.

O Presidente Obama, um homem culto, que se formou em Harvard, uma das melhores universidades americanas, quando visitou o Brasil não falou do Machado de Assis, da Clarice Lispector, do Guimarães Rosa, do Graciliano Ramos. Ele citou Paulo Coelho. Então é um desprestígio enorme para a literatura brasileira. Uma coisa assustadora, a assessoria do Presidente culto - vamos dizer assim -, uma assessoria que não conseguiu transmitir o básico. Ainda bem que ele não falou Isabel Allende [risos]. Se fosse o Bush... teria dito qualquer asneira. Na literatura a quantidade não interessa. Há dois grandes exemplos de escritores que publicaram pouco e não precisam publicar mais. O mexicano Juan Ruffo, que só escreveu um romance, e o brasileiro Raduan Nassar, que escreveu o Lavoura Arcaica, O Copo de Cólera e um livrinho de contos. Isso é coragem.

Está a trabalhar num novo romance?

Estou escrevendo um romance há quatro anos, que são dois volumes. Na verdade, eu não sei se vou juntar num só. É um romance que tem muito a ver com a minha experiência. O leitor comum pensa que você transcreve a vida. Não é verdade. Você inventa a vida ou transcende a vida. Este é um romance que acompanha de perto a minha trajectória: desde que eu saí de Manaus, fui sozinho para Brasília, em Dezembro de 1967. Tem algo de autobiográfico, mas a partir do momento em que a vida é incorporada ao texto, a vida se torna texto, se torna literatura.

O romance é muito inventado, claro, mas tem uma parte em Brasília onde eu presenciei o biénio de horror [época da ditadura militar]. Eu tinha 15, 16 anos. Morei dois anos em Brasília. Entrei de cara no movimento estudantil. Não aguentei a barra em Brasília e fui para São Paulo. Entrei na Faculdade de Arquitectura, fiz uma revista de poesia com amigos.

E quando é que decidiu largar a arquitectura e ser escritor?

Escrevi alguns contos nos anos 1970. Rasguei todos. Uma editora do Rio leu e gostou, mas eu era muito inseguro (ainda sou). Achei que foi generosa de mais e não acreditei. Desconfio de todo o tipo de elogio rasgado. Eu queria muito ser poeta. Publiquei um livro de poesias naquela época, 1978, com fotos do Amazonas de amigos meus. Chamava-se Amazonas, um Rio entre Ruínas (está esgotado).

Mas eu só comecei a escrever o primeiro romance aqui na Europa. Foi na Espanha.

Este novo romance tem título?

Tem um título provisório que é O Lugar mais Sombrio. Está ficando muito grande... não sei quando vou acabar.

Veio a Lisboa para o programa Futuro Próximo da Gulbenkian em que conversa com o poeta sírio Adonis. O que é que Adonis tem que o Milton não tem?

O que ele tem e eu invejo é o domínio pleno e íntegro da língua árabe. Eu sou filho de libanês. Meu pai era libanês, morreu, e minha mãe era brasileira - filha de libaneses -, mas era uma brasileira amazonense típica. E não falava árabe comigo. A língua materna era a língua portuguesa. É incrível que estes 12 milhões de brasileiros de origem árabe não falem árabe. Isso também aconteceu com os italianos, os filhos não falam italiano. O Brasil é peculiar. Os imigrantes queriam que os filhos se integrassem. Isso facilitou a mestiçagem. Na minha família ninguém se casou com filho de árabe. Ninguém. É fantástico isso.

Agora o Adonis é um dos grandes poetas vivos. Ele foi e é uma figura central na poesia árabe contemporânea. Saiu de Damasco, foi para o Líbano ainda jovem e se exilou. Renovou a poesia árabe e trabalhou com versos livres. Mostrou ao Oriente e ao Ocidente a ponte que já existia e que estava oculta entre a poesia destes dois mundos. O Adonis recuperou muita coisa da poesia árabe que estava escondida: a poesia pré-islâmica, ele fez uma bela antologia, a poesia sufi.

Tem um livro que relaciona o surrealismo, Rimbaud, e a poesia sufi. E tem tudo a ver. Há ligações profundas, como se fossem correntes subterrâneas da imaginação livre, solta. O Adonis procurou estas confluências da poesia árabe e da poesia do Ocidente. A questão do duplo, dos sonhos, desta imaginação solta, do êxtase do Rimbaud, o êxtase dos poetas sufi.

O Adonis é uma inspiração?

É. Ele, o Edward Said. Pessoas que não separam uma cultura da outra. Uma cultura morre quando você a separa ou se você dá um status para ela, um significado de superioridade falsa. Não há culturas superiores.

Se pudesse ter uma conversa imaginária com o seu pai, como explicaria o que está a acontecer no Médio Oriente?

Acho que ele é que me explicaria. Ele viveu o período colonial francês em Beirute. Era funcionário do Ministério da Justiça. Ele diria que o mundo árabe é um mundo desagregado. Era o que ele dizia para mim, que a colonização deixou este mundo desagregado. E com o agravante de que o mundo árabe não alcançou a modernidade talvez pelas próprias condições do colonialismo, como a África não alcançou, menos ainda. O sentido do clã, das religiões, o sectarismo, isso tudo é uma loucura.

E como vê a Primavera árabe?

É um processo que está começando. Seria muito difícil dizer "a Primavera Árabe aconteceu naquele mês de Julho". É um processo longo. Vai demorar muito porque os anos, as décadas de autoritarismo, de ditaduras praticamente em todo o mundo árabe, este tempo longo criou também mentalidades arcaicas, conservadoras, com o agravante de que o país mais conservador, mais autoritário do mundo árabe, a Arábia Saudita, é o maior aliado político e militar dos Estados Unidos. Por que não se diz isso? Por que o Obama - ou o Bush - não tenta democratizar a Arábia Saudita? Esta é uma pergunta interessante. Por que levar a democracia só ao Iraque? A que custo? Todas estas intervenções foram criminosas.

Eu não tenho esperança. Também não sei qual é a importância de ter esperança. Também não sou religioso. Acho que as pessoas devem lutar por causas mais justas. Isso não me dá esperança, mas me dá uma vontade de viver. Agora é difícil ter esperança quando você vê o que está a acontecer na Síria, os bilhões que são gastos em armas.

O Saramago dizia que a democracia acabou. De certo modo ele tem razão. Tudo está contaminado pelo poder económico.

No ano passado, disse: "Já fomos o país do futuro, mas parece que o futuro deu um salto para trás e alcançou o Brasil." Como é que vê o que está a acontecer hoje no Brasil? Como vê as manifestações que começaram em Junho?

As manifestações começaram com uma reivindicação muito concreta, que foi o Movimento Passe Livre, que existe há dez anos. Por causa de 20 centavos. Cresceu, se alastrou e tomou proporções gigantescas, porque há uma insatisfação geral.

A gente tem que lembrar que o Brasil viveu quase 25 anos em estado de excepção, sem eleições directas, sob a ditadura. A prática democrática foi banida durante um quarto de século. Acabaram com a educação pública, foi terrível. Quando a democracia ressurgiu em 1985, esta prática democrática era muito pequena.

Os partidos que foram criados, com algumas excepções, são partidos fisiológicos, partidos que fazem negociações. Isto aconteceu com o Fernando Henrique, duas vezes, quando ele teve que negociar com o PFL na época. O próprio PMDB. A gente esquece que o Renan Calheiros foi ministro do Fernando Henrique, ministro da Justiça. Esquece isso. Sarney e Collor. Sarney e Lula.

Então a nossa democracia é muito frágil. Eu citei numa crónica, a última que escrevi para o Estadão, "Escárnio e covardia, miséria de muitos", o Raízes do Brasil, do Sérgio Buarque de Hollanda, que diz isso com muita propriedade. O Brasil nunca respeitou as suas instituições e a política do Brasil é sempre feita em círculos fechados, sem consulta popular, sem diálogo com a população, sempre ao benefício do privado, das coisas particulares em relação ao público. Isso é uma tradição da vida política brasileira. Basicamente não mudou, com um agravante que é o novo clientelismo do qual o sociólogo Bolívar Lamounier fala: o clientelismo destes grandes clientes dos serviços públicos com agências de publicidade, construtoras - e eu cito -, empresas de colecta de lixo e transportes públicos.

Não há transparência nestas licitações, nem lisura nestes contratos públicos nos três níveis, porque o problema não é só no Governo federal, o Brasil tem 5570 municípios. Quando fala da educação pública, tem que ver o que estes prefeitos pensam. É um horror, a maioria é ignorante. Vai para o interior deste Brasil, mesmo São Paulo, e é uma estupidez.

E estes jovens que estão nas ruas a destruir caixas electrónicos (ATM)? Não tem nada a ver com o que aconteceu em Junho?

Este é um grupo anarquista mais radical que quebra banco. Sou contra, porque afasta a população. As pessoas têm medo e é um pretexto para a polícia, que já é violenta, intervir com mais violência. Mas acho que são grupos isolados. O que a população estava reivindicando era uma política... não era contra a Dilma. Era contra tudo. Era contra o sistema todo.

É claro que houve grupos de direita, extrema-direita, tinha tudo. Mas vamos dizer que a imensa maioria era de gente que queria uma política pública mais eficaz porque há dinheiro para isso.

Mas houve uma desmobilização?

Houve, porque não há lideranças e quando não há lideranças é difícil mobilizar. O Facebook não é um manual ideológico. O Facebook é um telefone contemporâneo, só que é um telefone que pega milhares, milhões. O Facebook não politiza. A tecnologia não cria consciência política. Quem cria consciência política é a escola, a boa escola.

Em relação ao Médio Oriente, já disse que não tem esperança. E em relação ao Brasil?

Basta estar vivo para não ter esperança. Mas dito isso eu adoro a vida. Mas não tenho esperança nesta política que é feita. A juventude é a única força transformadora, mas é preciso criar lideranças independentes. O PT errou no Brasil, errou muito. Não fez autocrítica. Eu votei nela, na Dilma. Ela vai ganhar novamente.

Arrepende-se?

Não. Não porque as opções eram piores, eram assustadoras.

Há muitas críticas em relação aos subsídios, Bolsa Escola, Bolsa Família. Os mais críticos argumentam que estão a criar dependência nas pessoas e não emprego. Concorda?

Não. Se você sofrer na pele o que estes bolsistas sofrem. São pessoas muito miseráveis. É claro que o emprego é importantíssimo. Mas esta é uma medida emergencial. Como é que você vai montar uma fábrica nos sertões ou nos confins do Brasil? Isso não é assim que se faz, emprego não se cria de uma hora para outra. Para as pessoas não passarem fome, para os filhos poderem ir à escola, acho importante.

O que gostaria que o leitor português soubesse que ainda não sabe sobre si?

É só lerem os meu livros.

É a experiência transformada em linguagem?

Já não sou eu o eu que escreve, mas alguma coisa de mim está neles.


in CULTURA P.


Conto/crônica de Gregório Duvivier

Mais antes

Ela saiu de casa batendo a porta. Mas antes, ele tinha mandado ela tomar no cu. Mas antes, ela tinha pedido que ele pelo menos limpasse a merda que fez. Mas antes, ele tinha derramado vinho no tapete. Mas antes, ela tinha duvidado de que ele derramaria o vinho todo no tapete. Mas antes, ele tinha dito que derramaria o vinho todo no tapete. Mas antes, ela tinha dito que a culpa não era dela de ele não ter um emprego. Mas antes, ele tinha dito que ela não precisava jogar na cara que ele não tinha dinheiro nem para comprar um tapete. Mas antes, ela tinha dito que a mãe dela merecia respeito, afinal de contas era ela quem tinha mobiliado o apartamento, do ventilador ao tapete. Mas antes, ele tinha dito que a mãe dela era uma vaca. Mas antes, a mãe dela tinha saído do apartamento batendo a porta. Mas antes, ele tinha pedido que a mãe dela saísse, de preferência sem bater a porta. Mas antes, a mãe dela tinha dito que ele estava mais gordo. Mas antes, ele tinha dito que a mãe dela estava mais velha. Mas antes, a mãe dela perguntou se ele tinha conseguido o emprego. Mas antes, ele disse que a mãe dela chegar de surpresa era só o que faltava. Mas antes, a mãe dela tinha chegado de surpresa. Mas antes, eles tinham se beijado e pedido desculpas e prometido que não iam brigar. Mas antes, ele perguntou por que é que nada que ele faz nunca está bom. Mas antes, ela tinha reclamado que ele não sabia nem abrir um vinho. Mas antes, ele tinha tentado abrir um vinho. Mas antes, ela tinha sugerido que ele abrisse o vinho. Mas antes, eles tinham se beijado. Mas antes, eles tinham deixado os filhos na casa da irmã dele. Mas antes, eles tinham dito que seria uma noite linda. Mas antes, eles tinham passado no supermercado e comprado o melhor vinho. Mas antes, ela tinha dito que tinha muito orgulho do marido que ele era. Mas antes, ele tinha chorado porque não era assim que ele se imaginava aos 35. Mas antes, ele tinha sido recusado na entrevista de emprego. Mas antes, ela tinha dito que confiava cegamente nele. Mas antes, ele tinha dito que era só uma entrevista de emprego, e que nada estava certo ainda. Mas antes, eles tinham combinado de comemorar as duas coisas, o aniversário e o emprego novo. Mas antes, eles tinham acordado e percebido que, naquela noite, eles iriam comemorar sete anos juntos. Mas antes, eles tinham sido felizes. Isso antes.

Gregório Duvivier

(Folha - 29/07/2013)

Conto/crônica de Gregório Duvivier

Breve história da internet

Conheceram-se na sala 'dez a 15 anos' do bate-papo UOL. De onde teclas? Ele teclava de Belo Horizonte, ela de Caxias do Sul. Ele deu um número de ICQ. Passaram dias ao som de oh-ou e navios partindo. Ele pediu uma foto. Ela não tinha foto. Descreveu-se ruiva (não era). Ele se apaixonou perdidamente.

Pediu o e-mail dela: era do iG, por causa do cachorrinho. O dele era Zipmail, por causa da Luana Piovani. Mandou um poema. Ela respondeu dez minutos depois. Trocaram todo tipo de poemas e cartas de amor. Até a caixa postal dele lotar, uma semana depois. Ele apagou todos os e-mails que não eram dela (ou pra ela). Não eram muitos.

Logo lotou de novo. Migraram para o Hotmail. A caixa postal era um pouco maior. Conheceram o MSN. Ele pediu uma foto. Ela pintou o cabelo de vermelho só pra tirar a foto. Mandou. Ele gostou mais ainda. Ela fez um fotolog só com fotos dela. Pra ele. O fotolog fez sucesso, não só com ele. Combinaram de se encontrar em São Paulo. Ele foi, ela não. Pararam de se falar por um tempo.

No Orkut, ela encontrou ele dois anos mais velho. Ela pediu desculpas em um lindo testimonial. Ele aceitou. Passaram a trocar scraps. Ele era um figura popular, tinha criado a comunidade do Pearl Jam. Ela criou "Adoro Banho Quente", comunidade popular mas não tanto quanto sua rival "Odeio Banho Gelado". Combinaram de se encontrar em São Paulo. Os dois foram. Beijaram-se assistindo a "Era Do Gelo". Ou não assistindo. Começaram um namoro à distância.

Foram meses difíceis de MSN, até que inventaram o Skype. A vida mudou. Beijavam a tela, dormiam abraçados com ela. Ele fez uma música para ela e postou no YouTube. Ele ganhou seguidores no Twitter. A caixa postal do Hotmail lotou. Migraram para o Gmail e sua caixa infinita (ou quase).

Ela foi pro Rio de Janeiro fazer faculdade. Ele foi atrás. Entraram no Facebook quando não tinha quase ninguém. A foto de cada um era a cara do outro. Moravam juntos, dividiam o mesmo computador, compartilhavam os mesmos vídeos. O Gmail e sua estranha mania de não dar logout automaticamente fizeram com que ela lesse toda a sua correspondência. Ele ficou puto com o que ela leu. Ela ficou puta com o que ele tinha escrito. Quase terminaram.

Preferiram comprar outro computador. E cada um passou a ter uma senha. Riram muito no 9gag. Recusaram-se a entrar para o Google Plus. Hoje falam-se o dia inteiro no WhatsApp. E o Instagram deles é só fotos do bebê.

Gregório Duvivier (Folha de SP. 19/08/2013)

Um conto/crônica de Gregório Duvivier

É menina

É menina, que coisa mais fofa, parece com o pai, parece com a mãe, parece um joelho, upa, upa, não chora, isso é choro de fome, isso é choro de sono, isso é choro de chata, choro de menina, igualzinha à mãe, achou, sumiu, achou, não faz pirraça, coitada, tem que deixar chorar, vocês fazem tudo o que ela quer, isso vai crescer mimada, eu queria essa vida pra mim, dormir e mamar, aproveita enquanto ela ainda não engatinha, isso daí quando começa a andar é um inferno, daqui a pouco começa a falar, daí não para mais, ela precisa é de um irmão, foi só falar, olha só quem vai ganhar um irmãozinho, tomara que seja menino pra formar um casal, ela tá até mais quieta depois que ele nasceu, parece que ela cuida dele, esses dois vão ser inseparáveis, ela deve morrer de ciúmes, ele já nasceu falante, menino é outra coisa, desde que ele nasceu parece que ela cresceu, já tá uma menina, quando é que vai pra creche, ela não larga dessa boneca por nada, já podia ser mãe, já sabe escrever o nomezinho, quantos dedos têm aqui, qual é a sua princesa da Disney preferida, quem você prefere, o papai ou a mamãe, quem é o seu namoradinho, quem é o seu príncipe da Disney preferido, já se maquia dessa idade, é apaixonada pelo pai, cadê o Ken, daqui a pouco vira mocinha, eu te peguei no colo, só falta ficar mais alta que eu, finalmente largou a boneca, já tava na hora, agora deve tá pensando besteira, soube que virou mocinha, ganhou corpo, tenho uma dieta boa pra você, a dieta do ovo, a dieta do tipo sanguíneo, a dieta da água gelada, essa barriga só resolve com cinta, que corpão, essa menina é um perigo, vai ter que voltar antes de meia-noite, o seu irmão é diferente, menino é outra coisa, vai pela sombra, não sorri pro porteiro, não sorri pro pedreiro, quem é esse menino, se o seu pai descobrir, ele te mata, esse menino é filho de quem, cuidado que homem não presta, não pode dar confiança, não vai pra casa dele, homem gosta é de mulher difícil, tem que se dar valor, homem é tudo igual, segura esse homem, não fuxica, não mexe nas coisas dele, tem coisa que é melhor a gente não saber, não pergunta demais que ele te abandona, o que os olhos não veem o coração não sente, quando é que vão casar, ele tá te enrolando, morar junto é casar, quando é que vão ter filho, ele tá te enrolando, barriga pontuda deve ser menina, é menina.

Gregorio Duvivier 

[16.09.2013 - Folha de São Palo]

sábado, 21 de setembro de 2013

Reprodução, de Bernardo Carvalho

21/09/2013 - 03h00

'Você acha que usa a internet, mas está sendo usado por ela', diz Bernardo Carvalho


Um longo processo de percepção de Bernardo Carvalho, 53, virou urgência em seu novo romance, "Reprodução"(Companhia das Letras).


RAQUEL COZER
COLUNISTA DA FOLHA


Aos 20 anos de carreira, o autor que se firmou entre os grandes ficcionistas do país com obras como "Nove Noites" (2002) e "O Filho da Mãe" (2009) escreveu aquele que considera seu título mais político, a partir do cenário "libertário" e ao mesmo tempo "cheio de ódio" da internet.
O protagonista, identificado como "o estudante de chinês", é o que Carvalho define como um típico comentarista de sites, que reproduz informações desconexas entendidas superficialmente.
Bruno Poletti/Folhapress
O escritor Bernardo Carvalho em seu apartamento no bairro de Higienópolis
O escritor Bernardo Carvalho em seu apartamento no bairro de Higienópolis
O personagem não terá chance de comentar sites ao longo do livro, já que, na maior parte dele, estará num depoimento à polícia, após se envolver num imbróglio que não entende bem.
Sua personalidade virá à tona num diálogo do qual só se ouve sua voz, transformando-se em monólogo com toques de humor, mas incômodo.
"A literatura passou a ser pautada pelo gosto da média. Mas literatura é reflexão, não só contar uma história. Sempre tive interesse em fazer uma literatura disfuncional", diz Carvalho. Leia trechos da entrevista com o autor.
*
Folha - Não é de hoje que você questiona uma "banalização" promovida pela internet. Como essa ideia virou livro?
Bernardo Carvalho - Tive um processo longo de percepção de uma fascistização do mundo, de um jeito ambíguo, porque as pessoas criam o fascismo achando que estão encontrando a liberdade. A internet é libertária, democrática, mas também faz você entregar sua privacidade e se relacionar com corporações como se fossem Deus ou a natureza. Elas dizem: "Você não precisa pagar nada". E você se entrega acriticamente, porque a ideia de não fazer esforço é sedutora. E há o narcisismo, a exposição no Facebook, que pega um ponto central. É perverso, a conquista vai em pontos frágeis da psique, você se sente uma celebridade. Do ponto de vista político, você acha que está usando, mas está sendo usado. O livro expressa esse desconforto.
Na sua opinião, a internet apenas reflete um comportamento humano ou o reforça?
Talvez tenha acirrado algo que sempre existiu em potencial. Você não tem privacidade, mas pode ter anonimato, o que permite uma manifestação de imbecilidade sob a proteção do anonimato. Estava incomodado com isso e pensei nesse narrador que representa o ódio absoluto, o anonimato da internet. No livro há uma frase do [filósofo espanhol] Ortega y Gasset: "Todo povo cala uma coisa para poder dizer outra. Porque tudo seria indizível". O personagem tem a informação absoluta, mas nada do que ele diz quer dizer muito. Não adianta você saber um monte de coisas, ser informado na superficialidade midiática sem uma compreensão do mundo. Você só reproduz, não consegue mais produzir.
Comentaristas de sites em geral focam a política nacional, algo que não aparece abertamente no livro, com apenas uma menção às manifestações. Você evitou tratar disso?
O livro não é jornalístico, não está atado ao presente. Poderia falar de Dirceu, Mensalão, mas o central para mim hoje são os evangélicos, a religião interferindo no poder, e isso é o cerne do livro. Sobre manifestações, fui a três. A primeira, da [avenida] Brigadeiro Faria Lima [em 17/6], era classe média, bonitinha, o Brasil não estava representado ali. Dias depois teve a da [avenida] Paulista e tinha de tudo, sobretudo uma plataforma contra a corrupção, o que é estranho, porque todos são contra a corrupção. Notei um ódio no qual reconheci esse anônimo da internet. Pensei: "Não quero ser identificado como um deles nem ser governado por quem eles queiram como representante". O ícone dessa gente é Marina Silva, e não quero ser representado por ela. A terceira manifestação, contra o Feliciano, não tinha nem mil pessoas. Era um tema urgente, gravíssimo, e aí a sociedade não participou.

O protagonista cita os "colunistas" da mídia, que, nota-se, alimentam o ódio dele. Pensou em alguém específico?
Isso resume várias pessoas. É uma grosseria de pensamento, gente que fala como se falasse com crianças. O problema não é ser colunista de direita, é o tipo de argumento primário e fácil de ser derrubado. O negócio é no grito porque é insustentável. E isso produz best-sellers no Brasil. Há uma espécie de inconsequência política que está no discurso desse personagem. A burrice era privada, mas agora é pública.

O modo como diz isso ao leitor é incômodo, nesses diálogos que surgem como monólogos. Por que optou por essa forma?
A literatura passou a ser pautada pelo gosto da média. Mas literatura é reflexão, não só produto de consumo, não só contar uma história. Tem um elemento de rebeldia, de criação. Não sei se incomoda, mas esse livro me deu prazer de fazer e me dá prazer de ler. Há uma coisa engraçada no discurso do ódio. Não tenho clareza do que o livro representa, mas é algo político como nunca fiz, tem um humor que nunca tive. Sempre fui contra a literatura política, atrelada, mas desta vez tinha uma urgência. O livro não busca uma solução. É uma visão trágica das camadas de possibilidades.

Faz 20 anos que você lançou seu primeiro livro, 'Aberração'. Como compara o escritor que é hoje àquele de 1993?
Quando comecei, queria tentar uma literatura que não reconhecia à minha volta. Minha literatura sempre teve uma coisa de briga, de ser do contra, mas também sempre tive a ambição natural de querer ser lido. Hoje vejo uma estruturação da recepção da literatura, baseada numa hegemonia do gosto e das vendas. Isso reduz no mercado a brecha de uma experimentação, a chance de erro, uma herança anglo-saxã, na qual experimental é um livro malfeito. A infantilização do público tem a ver com a internet e também com uma literatura que entrega o que você quer. Sempre quis criar algo disfuncional, isso continua comigo.

Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea

Estudando os contistas pós-utopicos ou as novas formas
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